CLIPPING RURAL CNA

BIOTECNOLOGIA

 

 

 

CTNBio libera novo milho transgênico

 

Basf entra na corrida em busca da cana transgênica   

 

Suspensas autorizações para milho transgênicos

 

Justiça Federal suspende milho transgênico no Paraná

 

Ciência refaz o mapa da agricultura

 

Revolução em marcha nos laboratórios

 

'Salvação da lavoura' pode estar no cerrado brasileiro

 

Carlos Walter Porto-Gonçalves: Mudança de poder na agricultura

 

Embrapa: entre o crescimento e a estagnação

 

Mato Grosso e Goiás registram sobras de sementes transgênicas

 

Pressão para liberar o milho transgênico  

 

 

BIOTECNOLOGIA

 

Biotecnologia

CTNBio libera novo milho transgênico

 

  

A CTNBio liberou, na semana passada, a comercialização no Brasil do Bt11, milho geneticamente modificado, da Syngenta. A variedade é resistente a insetos-praga lepidópteros e foi aprovada para cultivo, alimentação animal e humana. Os próximos passos são fazer o registro dos híbridos no Ministério da Agricultura e iniciar a multiplicação das sementes. “Os produtores têm uma opção a mais em solução para a resistência de lepidópteros, elevando o grau de competitividade”, afirma o diretor de pesquisa da empresa, Ademir Capelaro.

 

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Valor Econômico

10/10/2007

 

Biotecnologia

Basf entra na corrida em busca da cana transgênica   

 Cibelle Bouças e Mônica Scaramuzzoogerio Pallatta/ Valor

Tadeu Andrade, diretor do CTC: múltis podem agregar tecnologia à cana

 

 

Seguindo o caminho traçado pela multinacional Monsanto, pioneira no desenvolvimento de transgênicos, a alemã Basf decidiu investir no desenvolvimento de variedades de cana transgênica. A empresa, que desde 1999 realiza no Brasil experimentos com uma variedade de cana resistente a herbicidas do grupo das imidazolinonas, negocia acordo com institutos de pesquisa para desenvolver no país variedades geneticamente modificadas de cana-de-açúcar.

 

 

 

"A BPS [Basf Plant Science] busca junto a institutos brasileiros genes que ofereçam tolerância a herbicidas, aumento de produtividade e resistência a estresse hídrico", afirma Ademar de Geroni Júnior, gerente de cultivos de cana da Basf. Conforme o executivo, a empresa já desenvolve pesquisas com herbicidas em parceria com institutos de pesquisa brasileiros, como o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e a CanaVialis (da Votorantim Novos Negócios). Segundo apurou o Valor, as negociações já estão em estágio avançado e devem ser concluídas neste mês. 

 

Tadeu Andrade, diretor do CTC, de Piracicaba (SP), afirma que o instituto vem sendo assediado por várias companhias multinacionais voltadas à biotecnologia. Todas interessadas em fazer parcerias em cana-de-açúcar, de olho no mercado de biocombustíveis. 

 

"Estamos conversando com várias empresas", diz Andrade. E uma delas é a Basf. "Essas multinacionais têm tecnologia avançada na área de grãos, sobretudo soja e milho, e podem agregar em cana", afirma, mas despista sobre qualquer fechamento de acordo. 

 

Detentor de genes da cana por conta dos trabalhos desenvolvidos no seqüenciamento genético da matéria-prima, o CTC é alvo de disputa entre as multinacionais interessadas em entrar neste mercado. No final deste mês, o CTC vai lançar seis novas variedades de cana-de-açúcar convencionais. O anúncio está todo sendo cercado de cuidados para não atiçar a concorrência. Essas novas variedades são mais produtivas e também oferecem resistência à seca, diz Andrade. 

 

O atual período de estiagem compromete a produtividade da cana, em fase de desenvolvimento nas lavouras. Desde que se tornou independente da Copersucar, em 2005, o CTC lançou nove variedades. Na área de transgênicos, as pesquisas do CTC estão avançadas, mas ainda se limitam ao laboratório, uma vez que os testes em campo ainda não foram liberados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). 

 

De acordo a CTNBio, CTC, Allelyx, Basf e Bayer CropScience enviaram, entre 1999 e este ano, 73 pedidos de autorização para a realização de pesquisas com cana transgênica no país, tanto em laboratório como em lavouras. 

 

A alemã Bayer CropScience também já realizou no Brasil estudos com cana resistente ao herbicida glufosinato de amônio, desenvolvidas pelo CTC. Conforme Gerhard Bohne, diretor executivo de marketing da Bayer, o grupo, por meio da divisão Material Science, inclui cana como prioridade para a área de pesquisa de novas cultivares. A alemã planeja investir 200 milhões de euros até 2015 no desenvolvimento de sementes e mudas em todo o mundo. "O foco está nas culturas destinadas à produção de biocombustíveis", observa Bohne. Na Europa, a Basf já investe em pesquisas com a canola - principal matéria-prima usada para produção de biodiesel naquela região. 

 

No Brasil, a primeira multinacional a fazer acordo para desenvolver variedades de cana transgênica foi a Monsanto, que se associou à Allelyx, no fim de 2006. Juntas, as empresas desenvolvem variedades resistentes a pragas e à seca e tolerantes a herbicidas. Também buscam variedades com maior índice de sacarose, que possam gerar mais etanol por hectare

 

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Zero Hora

16/10/2007

 

Biotecnologia

Suspensas autorizações para milho transgênicos

Medida deve atrasar a chegada das sementes modificadas

 

 

A Justiça Federal do Paraná suspendeu as autorizações de plantio comercial de milho transgênico concedidas desde maio pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para as empresas Bayer, Monsanto e Syngenta.

 

Também fica proibido à CTNBio autorizar futuros pedidos sem a revisão das medidas de biossegurança em todo o país.

 

A decisão deve atrasar a chegada de sementes transgênicas ao produtor, prevista inicialmente para 2009. Segundo a juíza federal substituta da Vara Ambiental de Curitiba, Pepita Durski Tramontini Mazin, as normas elaboradas não atendem ao princípio da precaução e à Lei de Biossegurança e desrespeitam a liminar anterior, de julho.

 

Nos próximos dias, o Ministério da Ciência e Tecnologia irá recorrer por meio da Advocacia-Geral da União. A data limite para apresentação do recurso é a próxima sexta-feira. As empresas preferiram não se manifestar sobre a decisão judicial. Na reunião da CTNBio, que se inicia na quinta-feira, não há nenhum processo de liberação comercial de transgênico previsto para ser votado.

 

A disputa judicial que começa a ser travada nos próximos dias envolve normas de coexistência entre lavouras, monitoramento pós-liberação de plantio comercial e estudos de impacto nas regiões Norte e Nordeste do país. Segundo a assessoria do Ministério da Ciência e Tecnologia, a CTNBio estabeleceu um plano genérico de monitoramento para nortear a proposta que cada empresa apresentará para análise. Maria Rita Reis, advogada da Terra de Direitos, contesta: a CTNBio não poderia ter elaborado normas sem comunicá-las à Justiça, nem delegar às empresas a apresentação de um plano, que seria apenas aprovado ou não posteriormente pela própria comissão.

 

A diretora executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), Alda Lerayer, classificou como absurda a contestação de pareceres científicos.

 

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O Estado de S. Paulo

17/10/2007

  

Biotecnologia

Justiça Federal suspende milho transgênico no Paraná    

 

Evandro Fadel

 

A Justiça Federal em Curitiba suspendeu, em decisão proferida na semana passada, a liberação do milho geneticamente modificado MON810, da Monsanto, e confirmou a determinação para que a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) não autorize nenhum pedido para liberar o comércio de milho transgênico sem que sejam tomadas preliminarmente “medidas de biossegurança que garantam a coexistência das variedades orgânicas, convencionais ou ecológicas com as variedades transgênicas”. A Procuradoria Geral da União em Curitiba informou que, até a tarde de ontem, não tinha recebido a notificação.

 

A determinação para que fossem adotadas medidas de segurança foi emitida pela Justiça em junho, quando a juíza federal substituta Pepita Durski Tramontini Mazini, da Vara Ambiental, Residual e Agrária de Curitiba, analisou recurso da Procuradoria contra a suspensão da licença para o plantio da semente Liberty Link, da Bayer. A União editou, então, uma resolução normativa, estabelecendo o distanciamento necessário entre as culturas. No entanto, a medida não foi considerada suficiente pela juíza que, na decisão da semana passada, também ratificou a liminar suspendendo a liberação da Liberty Link.

 

“É evidente que, mesmo para o homem médio, exclusivamente a determinação do distanciamento mínimo entre as espécies de milho não se mostra suficiente a tanto”, registrou a juíza. “Vislumbra-se que não foi apontada nenhuma medida de biossegurança, procedimentos, restrições, etc., conforme determina a Lei de Biossegurança.”

 

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Valor Econômico

19/10/2007

 

Biotecnologia

Ciência refaz o mapa da agricultura

 

 

Cibelle Bouças e Daniela Chiaretti

 

 

Atentas à preocupação global com as mudanças climáticas e a disputa de terras para a produção de alimentos e de matérias-primas para combustíveis renováveis, empresas aceleram pesquisas para desenvolver plantas tolerantes à seca. O movimento científico, já considerado uma terceira revolução na agricultura, permitirá que os produtores ampliem o calendário de plantio e utilizem áreas hoje desprezadas. 

 

Monsanto, DuPont, Syngenta, Allelyx (da Votorantim Novos Negócios) e Embrapa desenvolvem variedades de cana, soja, milho e café resistentes à seca. Para a Embrapa, a resposta pode estar no cerrado, em plantas como a sucupira-preta, pau-terra da folha grande e folha miúda, pacari e faveiro. 

 

 

"Salvação da lavoura" pode estar no cerrado brasileiro

 

Daniela Chiaretti

 

 

Cinco árvores e arbustos do cerrado podem ser a solução para a agricultura brasileira no cenário de mudanças climáticas e aumento da temperatura. Esta é a aposta de técnicos da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, que têm se debruçado no tema. "O cerrado brasileiro é um armazém de soluções genéticas", diz Eduardo Delgado Assad, chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária, em Campinas. "É aí que está a salvação da lavoura". 

 

Trata-se, por ora, apenas de uma forte suspeita - ninguém, ainda, está mapeando os mistérios genéticos da Sucupira preta, dos Pau-Terra da Folha Grande e da Folha Miúda, do Pacari e do Faveiro. Estas cinco desconhecidas são as mais frequentes de um conjunto de 38 plantas recorrentes nos 204 milhões de hectares de cerrado, indica um estudo fito-sociológico conduzido por cinco anos pela Embrapa Cerrado e a Universidade de Brasília. São encontradas do Mato Grosso do Sul ao sul do Maranhão e chegam às franjas da Amazônia. "Estas plantas têm uma elasticidade genética fantástica. Toleram baixas e altas temperaturas, épocas de chuva e situações de deficiência hídrica. Não é possível que este celeiro de genes não tenha soluções para nós", afirma Assad. 

 

Mapear o genoma destas plantas e identificar o que as torna tão maleáveis a diferentes episódios climáticos é difícil, leva pelo menos dez anos e depende de investimentos de mais de R$ 50 milhões. São plantas não domesticadas e representam investimento de risco. Mas é na biodiversidade do cerrado - o bioma de menor ibope nas bandeiras do movimento verde -, e também na caatinga, que estarão muitas respostas para o futuro, acredita Assad. "Acabar com o cerrado é dar um tiro no pé", diz. 

 

A Embrapa Informática fica dentro do campus da Universidade de Campinas, a Unicamp, e trabalhos de agricultura e clima são desenvolvidos em conjunto entre as duas instituições há 15 anos. Desta parceria em bio-informática surgiu, em 2000, o agritempo, site com cinco mil acessos diários de agricultores e agrônomos. Em trinta dias deve surgir um filhote maior, uma plataforma de pesquisas em mudanças climáticas reunindo trabalhos de 16 unidades da Embrapa, da Unicamp, da USP, da universidade de Viçosa e de vários outros centros de pesquisa. Vem sendo desenhada há dez meses sob a coordenação de Assad. 

 

Dos estudos já finalizados surgem pistas claras que o aquecimento global provocará uma nova geografia de produção agrícola no País. A observação do passado sugere o cenário futuro: em setembro de 2004 bastou que as temperaturas médias no Estado de São Paulo registrassem uma alta de 4 graus durante uma semana para provocar morte de aves e queda drástica na produção de ovos. Um estudo da Unicamp calculou a perda na produção de leite, aves, ovos e pequenos animais em US$ 50 milhões, cita o professor Hilton Silveira Pinto, diretor associado do Centro de Pesquisas Meteorológicas aplicadas à agricultura, o Cepagri. "A produção de leite e carne é extremamente sensível às ondas de calor", diz. É um cenário de horror: pintinhos de um dia e frangos morrem, porcos e vacas abortam, ovos saem sem casca. Quando os termômetros marcam mais de 33 graus, a produção de leite cai pela metade. A solução é criar sistemas de alerta que avisem os fazendeiros a tempo para ligar ventiladores nos aviários, sugere o professor. 

 

Outro trabalho toma como base o zoneamento de risco climático brasileiro e os horizontes de aumento da temperatura sugeridos pelo IPCC, braço científico das Nações Unidas. "A pergunta foi: se subir a temperatura, o que acontece com as colheitas?", diz Assad. O rendimento agrícola foi re-simulado em áreas de baixo risco climático, com aumentos de 1, 3 e 5,8 graus. "Pegamos, por exemplo, a melhor situação de soja no Brasil: plantio em novembro, ciclo de 120 dias e solo argiloso, e subimos um grau para ver o que ocorre". 

 

O resultado é que soja, café e feijão são altamente suscetíveis; milho e cana são mais resistentes. O aumento de um grau faz com que a produção nacional de café caia 58% e a perda seja de R$ 58 bilhões. A planta de café aborta a flor e não dá fruto. A confusão piora se dias secos e frios se intercalam a chuvas repentinas e aumento da temperatura - estas oscilações prejudicam a qualidade do café misturando grãos maduros a grãos verdes. Com a soja, em 100 hectares de cultivo em área de baixo risco, basta um grau a mais na temperatura para ameaçar 25% da produção. Se os termômetros subirem e a umidade também, fungos devem proliferar e atacar com mais intensidade os cultivos de feijão. 

 

Neste panorama, a tendência é que culturas se desloquem. Seringueira e cacau podem migrar da Bahia e se desenvolver bem no Estado de São Paulo. Os paulistas podem perder produtividade com as safras de café arábica, mas ainda ter sucesso com o robusta, mais resistente ao calor. Experimentos com café têm sido feitos no Sul do Paraná, onde as tradicionais geadas já não acontecem. "Não vamos fazer terrorismo climático e dizer que a agricultura brasileira vai pra cucuia", diz Silveira Pinto. "Há soluções na substituição de culturas, em técnicas de sombreamento, em pesquisas de híbridos e transgênicos", resume Assad. É aí, reforça, que entram as plantas do cerrado. 

 

Nos últimos dez anos, várias das 41 unidades de pesquisa da Embrapa tocaram 212 projetos relacionados a mudanças climáticas, um investimento próximo a R$ 30 milhões. São estudos de sequestro de carbono, de remuneração por serviços ambientais, de sistemas de plantio direto. Nesta prática, que já toma 23 milhões de hectares no País, culturas de soja e milho são alternadas e o agricultor, depois da colheita, planta em cima da palhada. Mais água e nutrientes se mantêm no solo, evitam-se queimadas, a planta desenvolve mais e o sequestro de carbono é de 500 quilos de CO2 por hectare. 

 

Outra linha de trabalhos que se amplia é a rede agrogases, onde são medidas emissões de metano, um gás-estufa formado no processo digestivo dos rebanhos. Os primeiros números estimam a emissão em 60 a 70 quilos de metano por animal/ano. Há estudos para mudar a dieta dos animais. 

 

Para o tamanho do problema, os recursos são tímidos e costumam vir de CNPq ou Finep, dois financiadores do Ministério da Ciência e Tecnologia, e da própria Embrapa. No Ministério da Agricultura, o tema mudanças climáticas é difuso e se esparrama em programas ambientais que incentivam rotação de pecuária e lavoura, plantio de florestas comerciais, adubação verde ou maior eficiência no uso de água. Mas não existe rubrica específica para questões climáticas, reconhece Edilson Guimarães, secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O orçamento total da Embrapa moveu-se pouco nos últimos dois anos. Foi de R$ 1,037 bilhão, em 2006, para R$ 1,060 bilhão este ano. 

 

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Valor Econômico

19/10/2007

 

Biotecnologia

Revolução em marcha nos laboratórios

 

Cibelle Bouças

 

O desenvolvimento da agricultura permitiu aos povos primitivos maior controle sobre a oferta de alimentos e fixação em territórios. Vieram clãs e cidades, e a aceleração do crescimento demográfico. Entre os séculos XVII e XIX, a queda de produtividade e a escassez de comida motivaram a primeira revolução agrícola, marcada por rotação de culturas e pela integração entre lavouras e pecuária. Mas os cintos europeus continuaram apertados, e a segunda revolução veio entre os séculos XIX e XX com o desenvolvimento da chamada agricultura industrial, que passou a promover o uso de fertilizantes químicos, melhoramento genético e uso de máquinas agrícolas. 

 

Para alguns cientistas, o atual interesse em se reduzir o uso de derivados do petróleo - por questões econômicas e ambientais - e a preocupação com os efeitos que o aquecimento global provocarão sobre a produção de alimentos direcionam a agricultura para uma terceira revolução. Neste caso, derivada da busca por produtos resistentes a intempéries climáticas, sobretudo à seca, e que possam ser utilizados como alimento e também como matéria-prima para a produção de energia limpa. 

 

"O mais importante é que, se alcançarmos a característica de tolerância à seca, será possível ao produtor expandir a janela de plantio para meses mais secos e também utilizar áreas com menor índice de umidade no solo, pondo fim ou reduzindo o problema da oferta insuficiente de grãos para alimentos e biocombustíveis", diz Elibio Rech, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. 

 

O foco da estatal brasileira é o mesmo de diversos grupos multinacionais, que nesse momento concentram esforços no desenvolvimento de variedades de cana-de-açúcar, canola, soja, milho, algodão e trigo tolerantes ao déficit hídrico. A maioria dessas culturas, em menor ou maior escala, já são utilizadas para alimentação humana ou para a produção de biocombustíveis. 

 

No Brasil, também o café arábica, mundialmente apreciado por seu sabor e pelo baixo teor de cafeína, ganha a ajuda do café robusta para adquirir tolerância à seca. No próximo ano, o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), vinculado à Secretaria de Agricultura do Paraná, iniciará testes de campo com variedades transgênicas de café robusta resistentes à falta de água. A intenção, nessa frente, é usar esses pés transgênicos em porta-enxertos para a produção do arábica convencional, revela o pesquisador Luiz Gonzaga Vieira. 

 

"A planta do arábica é mais sensível que a do robusta, menos resistente a estresse hídrico e doenças", diz. No Paraná, por exemplo, onde há grande incidência da praga de nematóides no solo, é comum produtores usarem a planta do robusta como base para enxertos com o café arábica - o que resulta em um pé mais resistente, que produz apenas grãos do tipo arábica. Os estudos do Iapar começaram há três anos e devem levar outros dez até chegarem ao mercado. O processo de transgenia consistiu basicamente em implantar no robusta um trecho genético (P5C5) da vigna - o conhecido feijão-de-corda do semi-árido nordestino. 

 

Esse gene é responsável pela produção de um aminoácido chamado prolina, que dá às plantas maior tolerância à seca, ao excesso de calor e de sal no solo. "O café também possui genes que conferem essa característica à planta, mas no feijão-de-corda essa produção é maior", diz Vieira. 

 

Com a mudança genética, a planta apresenta melhora no seu sistema de raízes e adquire mais tolerância às intempéries climáticas. A vantagem, diz Vieira, é que o pé transgênico proporcionará um melhor fornecimento de águas e nutrientes para o enxerto de café arábica, que preservará a produção de grãos convencionais, mas com melhor produtividade. "Já fizemos trabalho semelhante com cana-de-açúcar e citrus e sabemos que, com essas plantas, funciona. Falta confirmar a mesma eficiência com o café", afirma o pesquisador. 

 

A Embrapa, em parceria com o Instituto Capixaba de Pesquisas, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e com o francês Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica (Cirad), também desenvolve variedades de café arábica e robusta mais tolerantes à seca. "Já encontramos vários genes de tolerância no café robusta. O objetivo agora é introduzir esses genes no café arábica, sem alterar sabor e qualidade do grão", diz Alan Carvalho Andrade, coordenador do Núcleo de Biotecnologia do Consórcio Internacional do Café e pesquisador da Embrapa. 

 

A mudança, segundo ele, poderá ser feita tanto por melhoramento convencional (com fecundação cruzada) como por transgenia. O trabalho teve início em 2006 e a expectativa é que os testes de campo comecem a dar resultados em cinco anos. A Embrapa também realiza melhoramentos na soja para alcançar variedades tolerantes à seca. 

 

Além das pesquisas com o café, o Brasil também lidera o desenvolvimento de variedades de cana-de-açúcar tolerantes à seca, trabalho levado à cabo pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) - que busca acordos com multinacionais - e pela Allelyx, da Votorantim Novos Negócios, que desde maio realiza pesquisas em parceria com a americana Monsanto. O trabalho atraiu o interesse da também americana DuPont, que já realiza pesquisas com o milho nos Estados Unidos e agora planeja fazer trabalho semelhante no Brasil com a cana, conforme informou Uma Chowdhry, vice-presidente de ciência e tecnologia da DuPont, em entrevista recente ao Valor. 

 

A anglo-suíça Syngenta já desenvolve sementes de milho e de soja tolerantes à seca - convencionais e transgênicas - na Argentina, com previsão de lançamento em 2010, e recentemente fechou acordo com a americana Performance Plant, para pesquisar tais variedades nos Estados Unidos e no Canadá. "Nos EUA, as áreas agriculturáveis estão no limite e só será possível expandir sobre os desertos. No Brasil, essas variedades poderiam ser desenvolvidas, por exemplo, para a região Nordeste", afirma Lilian Saldanha, diretora de assuntos regulatórios da Syngenta Seeds. De acordo com ela, a empresa deve efetuar os primeiros pedidos de licença para pesquisa no Brasil até o próximo ano. 

 

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 Valor Econômico

19/10/2007

 

Biotecnologia

'Salvação da lavoura' pode estar no cerrado brasileiro

 

 

Daniela Chiaretti

 

 

Cinco árvores e arbustos do cerrado podem ser a solução para a agricultura brasileira no cenário de mudanças climáticas e aumento da temperatura. Esta é a aposta de técnicos da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, que têm se debruçado no tema. "O cerrado brasileiro é um armazém de soluções genéticas", diz Eduardo Delgado Assad, chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária, em Campinas. "É aí que está a salvação da lavoura". 

 

Trata-se, por ora, apenas de uma forte suspeita - ninguém, ainda, está mapeando os mistérios genéticos da Sucupira preta, dos Pau-Terra da Folha Grande e da Folha Miúda, do Pacari e do Faveiro. Estas cinco desconhecidas são as mais frequentes de um conjunto de 38 plantas recorrentes nos 204 milhões de hectares de cerrado, indica um estudo fito-sociológico conduzido por cinco anos pela Embrapa Cerrado e a Universidade de Brasília. São encontradas do Mato Grosso do Sul ao sul do Maranhão e chegam às franjas da Amazônia. "Estas plantas têm uma elasticidade genética fantástica. Toleram baixas e altas temperaturas, épocas de chuva e situações de deficiência hídrica. Não é possível que este celeiro de genes não tenha soluções para nós", afirma Assad. 

 

Mapear o genoma destas plantas e identificar o que as torna tão maleáveis a diferentes episódios climáticos é difícil, leva pelo menos dez anos e depende de investimentos de mais de R$ 50 milhões. São plantas não domesticadas e representam investimento de risco. Mas é na biodiversidade do cerrado - o bioma de menor ibope nas bandeiras do movimento verde -, e também na caatinga, que estarão muitas respostas para o futuro, acredita Assad. "Acabar com o cerrado é dar um tiro no pé", diz. 

 

A Embrapa Informática fica dentro do campus da Universidade de Campinas, a Unicamp, e trabalhos de agricultura e clima são desenvolvidos em conjunto entre as duas instituições há 15 anos. Desta parceria em bio-informática surgiu, em 2000, o agritempo, site com cinco mil acessos diários de agricultores e agrônomos. Em trinta dias deve surgir um filhote maior, uma plataforma de pesquisas em mudanças climáticas reunindo trabalhos de 16 unidades da Embrapa, da Unicamp, da USP, da universidade de Viçosa e de vários outros centros de pesquisa. Vem sendo desenhada há dez meses sob a coordenação de Assad. 

 

Dos estudos já finalizados surgem pistas claras que o aquecimento global provocará uma nova geografia de produção agrícola no País. A observação do passado sugere o cenário futuro: em setembro de 2004 bastou que as temperaturas médias no Estado de São Paulo registrassem uma alta de 4 graus durante uma semana para provocar morte de aves e queda drástica na produção de ovos. Um estudo da Unicamp calculou a perda na produção de leite, aves, ovos e pequenos animais em US$ 50 milhões, cita o professor Hilton Silveira Pinto, diretor associado do Centro de Pesquisas Meteorológicas aplicadas à agricultura, o Cepagri. "A produção de leite e carne é extremamente sensível às ondas de calor", diz. É um cenário de horror: pintinhos de um dia e frangos morrem, porcos e vacas abortam, ovos saem sem casca. Quando os termômetros marcam mais de 33 graus, a produção de leite cai pela metade. A solução é criar sistemas de alerta que avisem os fazendeiros a tempo para ligar ventiladores nos aviários, sugere o professor. 

 

Outro trabalho toma como base o zoneamento de risco climático brasileiro e os horizontes de aumento da temperatura sugeridos pelo IPCC, braço científico das Nações Unidas. "A pergunta foi: se subir a temperatura, o que acontece com as colheitas?", diz Assad. O rendimento agrícola foi re-simulado em áreas de baixo risco climático, com aumentos de 1, 3 e 5,8 graus. "Pegamos, por exemplo, a melhor situação de soja no Brasil: plantio em novembro, ciclo de 120 dias e solo argiloso, e subimos um grau para ver o que ocorre". 

 

O resultado é que soja, café e feijão são altamente suscetíveis; milho e cana são mais resistentes. O aumento de um grau faz com que a produção nacional de café caia 58% e a perda seja de R$ 58 bilhões. A planta de café aborta a flor e não dá fruto. A confusão piora se dias secos e frios se intercalam a chuvas repentinas e aumento da temperatura - estas oscilações prejudicam a qualidade do café misturando grãos maduros a grãos verdes. Com a soja, em 100 hectares de cultivo em área de baixo risco, basta um grau a mais na temperatura para ameaçar 25% da produção. Se os termômetros subirem e a umidade também, fungos devem proliferar e atacar com mais intensidade os cultivos de feijão. 

 

Neste panorama, a tendência é que culturas se desloquem. Seringueira e cacau podem migrar da Bahia e se desenvolver bem no Estado de São Paulo. Os paulistas podem perder produtividade com as safras de café arábica, mas ainda ter sucesso com o robusta, mais resistente ao calor. Experimentos com café têm sido feitos no Sul do Paraná, onde as tradicionais geadas já não acontecem. "Não vamos fazer terrorismo climático e dizer que a agricultura brasileira vai pra cucuia", diz Silveira Pinto. "Há soluções na substituição de culturas, em técnicas de sombreamento, em pesquisas de híbridos e transgênicos", resume Assad. É aí, reforça, que entram as plantas do cerrado. 

 

Nos últimos dez anos, várias das 41 unidades de pesquisa da Embrapa tocaram 212 projetos relacionados a mudanças climáticas, um investimento próximo a R$ 30 milhões. São estudos de sequestro de carbono, de remuneração por serviços ambientais, de sistemas de plantio direto. Nesta prática, que já toma 23 milhões de hectares no País, culturas de soja e milho são alternadas e o agricultor, depois da colheita, planta em cima da palhada. Mais água e nutrientes se mantêm no solo, evitam-se queimadas, a planta desenvolve mais e o sequestro de carbono é de 500 quilos de CO2 por hectare. 

 

Outra linha de trabalhos que se amplia é a rede agrogases, onde são medidas emissões de metano, um gás-estufa formado no processo digestivo dos rebanhos. Os primeiros números estimam a emissão em 60 a 70 quilos de metano por animal/ano. Há estudos para mudar a dieta dos animais. 

 

Para o tamanho do problema, os recursos são tímidos e costumam vir de CNPq ou Finep, dois financiadores do Ministério da Ciência e Tecnologia, e da própria Embrapa. No Ministério da Agricultura, o tema mudanças climáticas é difuso e se esparrama em programas ambientais que incentivam rotação de pecuária e lavoura, plantio de florestas comerciais, adubação verde ou maior eficiência no uso de água. Mas não existe rubrica específica para questões climáticas, reconhece Edilson Guimarães, secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O orçamento total da Embrapa moveu-se pouco nos últimos dois anos. Foi de R$ 1,037 bilhão, em 2006, para R$ 1,060 bilhão este ano. 

 

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Folha de S. Paulo

01/11/2007

 

Opinião

Carlos Walter Porto-Gonçalves: Mudança de poder na agricultura

 

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O debate a respeito dos transgênicos e da mudança climática global demonstra que a ciência está cada vez mais politizada

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O DEBATE a respeito dos transgênicos e da mudança climática global demonstra que a ciência está cada vez mais politizada, o que torna ainda mais necessária a exigência da precisão conceitual. Assim, devemos deixar de lado o conceito de OGM (organismo geneticamente modificado), que é tudo o que há na evolução das espécies, dentro de um processo que se dá na natureza sempre por modificação genética não intencional. Cultivares são criações humanas co-evoluindo com processos naturais por tempos longos.

 

O que está em debate hoje não são os OGMs, mas os OLMs (organismos em laboratório modificados), em que o processo de criação não se dá de modo livre na relação da sociedade com a natureza, mas a partir de laboratórios cada vez mais ligados ao mundo financeiro e industrial. Não estamos mais diante da agricultura tradicional, mas de negócios que operam no campo como agronegócio -forma como o complexo técnico-científico-empresarial quer se autodenominar.

 

A partir de 1945, com o uso da bomba atômica, quando a relação entre o conhecimento científico e o poder, por meio da guerra, ficou por demais explícita, a ciência tem se tornado um assunto sério demais para ficar nas mãos dos cientistas. Mais recentemente, essa relação vem se tornando mais banal ao chegar mais perto do nosso cotidiano.

 

A relação entre ciência e poder precisa ser levada em conta por exigência da própria ética, na medida em que tem implicações na natureza da produção do conhecimento, sobretudo, mas não exclusivamente, ante as condições materiais e de financiamento. As parcerias entre o Estado e as empresas, cada vez mais comuns, têm colocado novas e complexas questões, como o caráter público do conhecimento, que se traduz na exigência de publicação, e o caráter privado da instituição empresarial, que exige a proteção sigilosa do conhecimento e seu patenteamento.

 

A produção de conhecimento num setor fundamental para a existência humana muda de lugar com os OLMs, já que diz respeito à reprodução energético-alimentar da nossa espécie, a agricultura e a criação de animais. Estamos assistindo, com o deslocamento da produção de cultivares para os OLMs, à mudança do "locus" de poder, que passa dos campos e dos camponeses e dos mais variados povos originários para os grandes laboratórios do complexo técnico-científico-empresarial. Enfim, mais que uma revolução tecnológica, estamos ante uma mudança nas relações sociais e de poder por meio da tecnologia.

 

Com a recente onda pela expansão da monocultura visando a produção de combustível (etanol e diesel de origem vegetal), surge um novo complexo de poder técnico-científico-industrial-financeiro. Isso vem se configurando com a associação de empresas automobilísticas ao ramo da biotecnologia, industrializando a agricultura e submetendo cada vez mais o destino não só das plantações e dos povos originários e camponeses mas também de toda a humanidade aos desígnios de meia dúzia de empresas. A DuPont se associou à Pionner Hi-Bred (sementes) e à British Petroleum. A Toyota se une à British Petroleum no Canadá para produzir etanol.

 

A Volkswagen acaba de fazer uma parceria com a ADM (alimentos). A Royal Dutch Shell se lança na produção de óleo carburante, e a Cargill, na produção de óleo diesel. O melhor exemplo disso é a aliança dos "agronegociantes" brasileiros com o setor dos combustíveis fósseis dos EUA, consagrada com a criação da Associação Interamericana de Etanol, que tem como seus principais dirigentes o ex-governador da Flórida, Jeb Bush, e o ex-ministro da agricultura do governo Lula, Roberto Rodrigues.

 

As conseqüências do que está em curso são bastante graves, haja vista que, desde o século 19, os combustíveis fósseis foram colocados à disposição da produção de alimentos (máquinas a vapor nos tratores e nas colheitadeiras, por exemplo).

 

Atualmente, é a agricultura que se coloca a serviço da máquina a vapor para dar sobrevida a um modo de vida sabidamente insustentável do ponto de vista ecológico e que tende a agravar a injustiça social. A diversidade cultural está ameaçada, e tudo indica que o destino da humanidade e do planeta dependerá da solução dessa luta, que, cada vez mais, vem exigindo a atenção de todos.

 

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CARLOS WALTER PORTO-GONÇALVES , 58, é doutor em geografia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e coordenador do programa da pós-graduação da UFF (Universidade Federal Fluminense). É autor de "Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização".

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

 

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O Globo

04/11/2007

 

Biotecnologia

Embrapa: entre o crescimento e a estagnação

Depois de revolucionar a agricultura brasileira, a Embrapa, que já está na Europa e nos EUA, prepara-se para inaugurar um laboratório de pesquisas na Ásia. A empresa teme, porém, a escassez de cérebros.

 

 

Com raízes na Ásia

 

 

EXPERIÊNCIA GLOBAL

 

Embrapa vai inaugurar laboratório na região para desenvolver tecnologia agropecuária

 

 

Mônica Tavares e Ronaldo D"Ercole

 

A Embrapa, referência brasileira em pesquisa, vai tomar o caminho da Ásia. De olho no crescimento exponencial da região, na parceria estratégica com China e Índia e na demanda por tecnologia agrícola, a estatal vai criar um laboratório asiático, segundo informou o presidente da empresa, Silvio Crestana. Ele acaba de chegar de uma viagem de prospecção à Coréia - que ofereceu o melhor pacote de incentivos até agora - e ao Japão.

 

Responsável por revolucionar o perfil da agricultura brasileira, com o desenvolvimento de tecnologias que transformaram o cerrado no maior celeiro de grãos do mundo e possibilitaram o cultivo de frutas para exportação no semi-árido nordestino, a Embrapa desfruta hoje de reconhecimento internacional. Recentemente, por exemplo, foi citada pelo ex-secretário de Estado dos EUA Colin Powell como principal fator por trás da ascensão do Brasil à condição de "superpotência agrícola".

 

A empresa já está presente nos Estados Unidos, na França, na Holanda e na África. Nos três primeiros, os laboratórios são mantidos pelo Banco Mundial (Bird) e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A atuação européia será reforçada, com laboratórios na Alemanha, na Inglaterra e na Espanha, provavelmente. A abertura de um laboratório ou escritório na América Latina também está em análise.

 

Na França, ganhou apelido de Agrópolis

 

A Embrapa ainda precisa de autorização dos ministérios do Planejamento, da Agricultura e das Relações Exteriores para inaugurar o laboratório asiático, cuja manutenção anual será de US$500 mil. Embora a Coréia seja um forte candidato, o Japão também oferece atrativos. Segundo Crestana, a China está "se colocando no páreo", e ele afirma que não podem estar de fora a Índia, a Tailândia, a Indonésia e as Filipinas. Austrália e Nova Zelândia, afirmou o executivo, precisam ser observadas de perto:

 

- O Brasil é um global player em produção agrícola e em conhecimento agrícola tropical. Lidera hoje o ramo. Portanto, a África, a Ásia e a América do Sul estarão dependendo de nosso conhecimento. Estamos em um papel de levar conhecimento para lá.

 

Crestana lembra ainda que o crescimento exponencial da Índia e da China fará com que essas nações sejam, muito em breve, mais importantes do que o G-7 (grupo das nações mais ricas do mundo):

 

- Teremos que ter pelo menos um pesquisador sênior em China, Índia, Coréia e Japão.

 

A Embrapa, explicou seu presidente, tem dois tipos de atuação no exterior. Uma é a que envolve laboratórios, com o desenvolvimento de tecnologia e a troca de experiências, numa unidade da empresa ou em institutos estrangeiros. É o caso das presenças nos EUA, na Europa e, futuramente, na Ásia. O pressuposto é que nessas localidades existem instituições com o mesmo grau de excelência, mas com muito mais dinheiro, propiciando trocas e acesso à tecnologia de ponta.

 

A outra linha é a transferência de tecnologia, por intermédio de escritórios de negócio. Nesse caso, o objetivo é compartilhar conhecimento científico, balizar projetos de desenvolvimento agrícola e treinar recursos humanos. É o caso da experiência na África, onde a unidade, que completa um ano em dezembro, está instalada em Gana. A prospecção de oportunidades para o agronegócio brasileiro também faz parte da estratégia. Essa linha de atuação é a que norteará a instalação de um escritório na América Latina - os países nos quais há demanda são Panamá, Venezuela, Colômbia e Bolívia.

 

Nos EUA, há cinco pesquisadores espalhados em diferentes instituições, em áreas consideradas estratégicas pela empresa. Além disso, a Embrapa tem uma base no Departamento de Agricultura, em Washington. Na Europa, a unidade da França é chamada de Agrópolis, na Universidade de Montpellier. A estatal tem acordos bilaterais de cooperação técnica com 37 países e 64 instituições, mantendo ainda acordos multilaterais com 20 organizações internacionais, com as quais faz parcerias e pesquisas.

 

Gestão anterior era tida como ideológica

 

Entre os produtos desenvolvidos com base nas pesquisas da Embrapa estão itens diversos - como um "brinco" para boi e um inseticida anti-Aedes aegypti -, que têm em comum a tecnologia. O "brinco com chip de memória" monitora virtualmente rebanhos bovinos, desde que os novilhos nascem até o abate. Sem similar no mundo, está sendo desenvolvido em parceria com duas empresas de São Carlos e pode ser comercializado em breve. Já a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia desenvolveu, em parceria com a empresa Bthek Biotecnologia, do Distrito Federal, o Bt-horus, inseticida biológico capaz de controlar o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue e da febre amarela, sem prejuízos à saúde.

 

Depois de uma gestão tida como marcada por ideologias, nos dois primeiros anos de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a estatal desfruta hoje de prestígio entre dirigentes do agronegócio. O vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho, que aprova a atuação de Crestana, não faz segredo de seu descontentamento com Clayton Campanhola, o primeiro presidente na gestão petista (2003 e 2004), a quem via como "um indivíduo com tendência ideológica":

 

- O Brasil vive um processo de amadurecimento e devemos entender que na Embrapa, como um patrimônio do país, não cabem ideologias.

 

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Gazeta Mercantil

27/11/2007

 

Biotecnologia

Mato Grosso e Goiás registram sobras de sementes transgênicas  

 

 

Um avanço tímido na área plantada de soja transgênica em Mato Grosso e em Goiás fez com que produtores de sementes tivessem sobras de cultivares geneticamente modificadas. No caso mato-grossense, o volume equivale a cerca de 16% de toda produção de sementes para a safra 2007/08, disse Elton Hamer, presidente da Associação dos Produtores de Sementes de Mato Grosso (Aprosmat), que preferiu não divulgar números absolutos. Em Goiás, esse percentual fica entre 12% e 15%, de acordo com estimativa do presidente da Associação Goiana de Sementes (Agrosem), Aldino Rosso.

 

"Se criou uma grande expectativa sobre crescimento de área transgênica de soja, que não se concretizou", avalia Hamer. A estimativa era de que 45% da área de 5,6 milhões de hectares de soja fossem cultivados com grão geneticamente modificado em Mato Grosso, percentual que deve fechar o plantio entre 35% e 38%, praticamente o mesmo da safra passada (35%).

 

Já em Goiás, segundo Rosso, a área de soja transgênica se repetiu nesta safra, na comparação com o período anterior. "As sementes geneticamente modificadas estão em 45% da área de soja de Goiás, quando o setor produtor de sementes esperava que houvesse avanço para 55% do total", diz Rosso.

 

O que ocorre, segundo Daniel Sebben, da consultoria AgRural, é que os prêmios para soja convencional em Mato Grosso estão sendo fortalecidos, principalmente nas regiões Parecis e Médio Norte do Estado. Juntas, essas localidades somam área plantada de soja 3,7 milhões de hectares, o equivalente a 67% da área do estado. Neste ano, por exemplo, no mês de abril (época de safra), a saca de soja convencional no Médio Norte valia R$ 22,57, o que representava prêmio de R$ 1,50 por saca em relação ao grão transgênico. Em Sapezal (região do Parecis) tal prêmio chegava a R$ 1,70.

 

"No caso do Parecis, o prêmio se deve ao destino do grão, que geralmente é o mercado europeu, que tem restrições quanto ao consumo de transgênicos. No Médio Norte, desde a safra passada, há esmagadoras que começaram a segregar o produto convencional, criando um nicho que não havia".

 

No Paraná praticamente não houve aumento de área plantada de transgênicos, cenário já vislumbrado pelas sementeiras que produziram na medida, segundo Ywao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Sementes (Abrasem). "Com medo do Requião, o pessoal aqui foi mais devagar", explica.

 

Segundo Flávio Turra, da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), a área cultivada com transgênicos no estado deve ir de 47% para 48%, praticamente estável. "Não houve sobra nem de sementes transgênicas e nem de convencional", completa Turra.

 

(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 8)(Fabiana Batista)

 

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Zero Hora

04/12/2007

 

Biotecnologia

Pressão para liberar o milho transgênico  

 

 

A previsão de problemas no abastecimento de milho em 2008 e o pedido de importação de 2,5 milhões de toneladas transgênicas da Argentina reacendeu a cobrança de liberação urgente do plantio comercial de variedades geneticamente modificadas no país.

 

Por uma decisão judicial que proibiu a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) de emitir novas licenças e suspendeu as já concedidas, as autorizações estão paradas desde outubro.

 

Mas os obstáculos podem começar a cair na próxima reunião da CTNBio dias 12 e 13 deste mês. Há expectativa de que, nessa reunião, sejam submetidos à aprovação os planos de monitoramento pós-liberação do cultivo desenvolvidos por cada uma das empresas afetadas, principal exigência da Justiça. As multinacionais estão detalhando o relatório em razão da variedade que desenvolverão no mercado, mas para todas valerá uma regra em comum: observação de cinco a 10 anos, com relatórios anuais feitos pelas próprias corporações.

 

- Acreditamos que a partir da aprovação dos planos de monitoramento acabe se abrindo o caminho para derrubar a liminar, já que a outra exigência, os estudos técnicos de coexistência, é incumbência do Ministério da Agricultura - avalia Alda Lerayer, diretora executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia.

 

Não é o posicionamento dos ambientalistas. Segundo Maria Rita Reis, advogada da Terra de Direitos, uma das entidades que entraram com pedido contra as liberações, as normas que deveriam tratar de coexistência de variedades de milho transgênicos, convencionais, orgânicos e ecológicos se resumiram a estabelecer distâncias mínimas de cem metros entre os cultivos transgênicos, agroecológicos e convencionais, irrisórios para uma cultura polinizada pelo vento, que se propaga facilmente.

 

As entidades avaliam que o isolamento deveria seguir o mesmo adotado em áreas de experimento, de 400 metros. De outro lado, pesquisadores e setor produtivo cobram coerência da Justiça brasileira.

 

- Estamos defasados tecnologicamente por conta de processos de fundo ideológico. Não tem sentido, ter que recorrer às importações do milho transgênico argentino e, ao mesmo tempo, não poder plantá-lo em nosso território - defende o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho, Odacir Klein.

 

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