COMÉRCIO EXTERIOR
Fischer
Boel desvincula alta de alimento de biocombustível
EUA
resistem a cortes maiores em subsídios
Em
Doha, Brasil quer evitar o inevitável
Países
ricos pressionam Mercosul
Brasil
diz na OMC que, pelo bloco Mercosul, abre mão de Doha
UE
aceita discutir extinção de tarifa de importação sobre etanol brasileiro
Fischer
Boel admite 'descongelar' negociações para acordo Mercosul/UE
Emergentes
vão apresentar nova proposta na Rodada Doha
"Não
temos como retaliar", diz Stephanes
Comissário
europeu baixa o tom das ameaças contra o produto brasileiro
De novo, Brasil
quer destravar Rodada Doha
UE faz redução
modesta do subsídio ao etanol
Maior
marca também para exportações
"Sinto
clima de Cancún no ar", diz Mandelson.
Negociação
sobre agricultura é adiada de novo
Prestígio
no exterior: Paulo do Carmo Martins
Amorim
prevê "progresso" em Doha até o fim do ano
Brasil e
Canadá formalizam denúncia contra subsídios dos Estados Unidos
Proposta de
queda de subsídios na Europa gera polêmica
Ministério
da Agricultura avalia que taxação é um erro
Custo de
importação de alimentos sobe 21%
Importação
de alimento deve bater recorde, afirma FAO
EUA jogam para a platéia, rebate
Brasil.
UE
prepara restrições a etanol e carne do Brasil
Valor
Econômico
30/08/2007
Mercosul
Cibelle
Bouças
Os
países do sudeste da Ásia e China ainda não parecem dispostos a aceitar o
cenário que se desenha para esses países na área agrícola. Pesquisadores de
China, Malásia, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Índia confirmaram que o
perfil de consumo de alimentos nesses países tem mudado nos últimos anos,
graças à melhoria de renda, ao êxodo rural. Eles também corroboram a tese de
esses países terão de importar cada vez mais para atender à demanda por
alimentos, que cresce e se sofistica.
Mas,
discordam dos países do Mercosul quando se trata da pauta de comércio agrícola.
Mesmo conscientes de que não possuem água e terras suficientes para expandir a
produção a ponto de se manterem auto-suficientes em alimentos, os asiáticos
preferem manter Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile apenas como
fornecedores de commodities - a saber, grãos e etanol.
No caso
da China, o governo pretende investir recursos em pesquisas para aumentar a
produtividade das lavouras e economizar água, afirmou Tian Weiming, diretor do
Instituto de Economia Agrícola da Universidade de Agricultura da China, em
Pequim. O país, observou, investiu nos últimos anos na diversificação da
agricultura e incentivou pequenos produtores a plantarem frutas e hortaliças e
produzirem suínos, que oferecem melhor renda que soja, milho e trigo. "A
China tem menos área agriculturável e vai aumentar as importações agrícolas.
Esse é um caminho inevitável. Mas a demanda no mercado externo será de
matérias-primas, como grãos."
Ashok
Gulati, diretor para Ásia do International Food Policy Research Institute
(IFPRI), diz que, para a Índia, que também tem problemas com oferta de água e
área disponível para plantio, o Brasil, por exemplo, pode se tornar um grande
fornecedor de etanol e feijão. Ele observou que a Índia importa 70% do petróleo
que consome e o governo do país estuda adotar misturas de etanol na gasolina.
"A produção de cana consome muita água e já é de nosso interesse reduzir o
plantio", disse. Ele observou ainda que a Índia também necessitará
importar trigo (da Argentina, por exemplo) e de feijão (o país importa 2 milhões
de toneladas/ano). "Há espaço para o Brasil se tornar um grande parceiro,
mas é necessário fechar acordos."
Para
Robert Thompson, da Universidade de Illinois (EUA), a importação de alimentos
do Mercosul será inevitável. "Eles terão de importar não só grãos, mas
também carnes", previu. Os pesquisadores participaram de seminário
promovido pelo Alarn e Icone, em São Paulo.
Valor
Econômico
31/08/2007
Comércio Exterior
Fischer
Boel desvincula alta de alimento de biocombustível
Assis
Moreira
A
comissária de Agricultura da União Européia (UE), Marian Fischer Boel, refutou
ontem queixas de que a alta de preços de alimentos no mercado internacional
seria provocada pelo aumento da produção de biocombustíveis, como etanol e
biodiesel.
Os
aumentos de preços têm sido espetaculares na Europa e EUA, principalmente. Em
um ano, a tonelada de leite em pó subiu 80%, a manteiga industrial 50%, e a
tonelada de trigo, 107%. Além disso, o preço elevado do milho (usado nos EUA
para produção de etanol ) reduziu a produção de tortilla no México, causando
protestos populares.
Para
associações de consumidores e de defesa ambiental, essas altas resultam de
subvenções concedidas a matérias-primas renováveis usadas na produção de
biocombustiveis. Alguns vizinhos do Brasil usam o mesmo argumento para atacar a
diplomacia do etanol do governo Lula.
Mas em
texto publicado em seu blog na internet, distribuído com antecedência a
jornalistas, a comissária atribui aos biocombustíveis um papel
"marginal" nessa alta. Para ela, a principal razão para o aumento dos
preços é a menor produção em várias regiões do mundo, o clima ruim na Europa e
crescente demanda da China e outros países asiáticos.
"É
a economia, estúpido", escreve a comissária no blog que mistura textos e
fotos dela, onde detalha sua visão que pode ser bem diferente da de outros
comissários da UE. "Os aumentos de preços são não mais ou menos que o
mercado em ação, precisamente o que queremos da agricultura européia em
2007".
Ao mesmo
tempo, a comissária européia destaca sua preocupação com o maior custo para
produtores de carnes no curto e médio prazo. "Produtores de suínos e de
frango em todo o mundo estão sendo afetados pela alta de preços de cereais,
mesmo nos competidores de baixo custo como o Brasil", escreve. "Isso
conduzirá a ajustamentos nos preços mundiais de carnes".
Nesse
cenário, a comissária insiste que a agricultura na Europa está melhorando sua
competitividade e exporta cada vez mais sem subsídios - "e essa é uma boa
notícia mesmo". E conclama os europeus a pagarem um pouco mais por
produtos europeus, que, segundo ela, teriam mais qualidade e atenção o ao
bem-estar animal e ambiental. "Vale a pena pagar por isso",
conclui.
O Estado de S. Paulo
31/08/2007
Comércio Exterior
Para
UE, etanol não pressiona alimentos.
Produção
menor, clima ruim e maior demanda seriam os motivos da alta.
Jamil
Chade
A Comissão
Européia nega que a alta nos preços dos alimentos nos últimos meses nos países
ricos esteja sendo causada pelo incremento da produção do etanol no mundo.
Desde o primeiro semestre, o mercado europeu tem visto um aumento nos preços do
leite, pão, carnes e cereais, por exemplo.
Bruxelas,
porém, pede que os consumidores continuem comprando os produtos na região,
insinuando que nem sempre os importados - como os do Brasil - seguem os padrões
de saúde animal e de meio ambiente da Europa.
Empresários,
organizações internacionais e autoridades apontaram o etanol como o responsável
pela elevação dos preços. Até a Nestlé, maior fabricante de alimentos do mundo,
tem essa opinião. O etanol estaria desviando terras destinadas à produção de
alimentos para cultivos que vão para as usinas de combustível, como milho,
trigo ou cana.
Para a
comissária de agricultura da União Européia (UE), Mariann Fischer Boel, o
motivo da alta não é o biocombustível. "Mais significativo que isso é a
queda de produção em várias partes do mundo, o clima inadequado na Europa e a
maior demanda do leste da Ásia." Segundo ela, o impacto do etanol nos
preços é apenas "marginal".
Para
Bruxelas, as variações de preços ainda ocorrem por causa das forças do mercado,
o que prova que as reformas nos subsídios europeus estão ocorrendo e que os
fazendeiros terão de ser mais produtivos para responder às novas condições.
A
comissária admite que a alta vem afetando os consumidores. Só o leite teve
aumento de 8% em um mês. Ela não deixa de insinuar, porém, que parte do aumento
pode estar vindo dos supermercados, que aproveitam a situação para cobrar mais
do que seria necessário. "A contribuição de produtos agrícolas não
processados no preço final de alimentos como o pão é relativamente pequena.
Portanto, espero que os supermercados tomem atitudes responsáveis."
No caso
da carne, a representante da UE reconhece que os produtores podem sofrer com a
alta de alguns preços, não só na Europa. "Produtores de carne suína e de
frango de todo o mundo estão sendo afetados pelos altos preços dos cereais,
mesmo para competidores com baixos custos, como o Brasil."
05/10/2007
Comércio Exterior
CLÓVIS
ROSSI
COLUNISTA
DA FOLHA
Os
Estados Unidos cobraram ontem do Brasil (e do G20, liderado pelo Brasil) uma
mexida no jogo de xadrez que é a Rodada Doha de negociações comerciais, sob
pena de se perder "uma oportunidade única" de fechar um acordo, no
dizer de Susan Schwab, a chefe do USTr (United States Trade Representative, uma
espécie de ministério do comércio exterior).
Em
artigo para o jornal britânico "Financial Times", Schwab lamenta que
"as economias emergentes mais avançadas" -e cita especificamente
Argentina, Brasil, China, Índia e África do Sul, todos membros do G20- não
tenham até agora deixado claro que vão negociar a redução de tarifas de bens
agrícolas e industriais dentro dos parâmetros propostos pelos chefes dos grupos
negociadores.
Para
entender o xadrez, é preciso definir como o jogo está sendo jogado mais
recentemente. Primeiro, havia o que Peter Mandelson, comissário europeu para o
Comércio, chamava de "triângulo": os Estados Unidos deveriam aceitar
forte redução nos seus subsídios internos aos produtores rurais; a própria UE
cortaria as tarifas de importação de bens agrícolas; e os grandes países em
desenvolvimento (os citados por Schwab) reduziriam as tarifas de bens
industriais.
Como
nenhuma das partes dava o primeiro passo para resolver o "triângulo",
a rigor as negociações ficaram bloqueadas desde seu lançamento em 2001, na
capital do Qatar.
Mas, no
mês passado, os Estados Unidos finalmente fizeram a sua mexida: aceitaram
reduzir os subsídios internos na faixa sugerida por Crawford Falconer, o
presidente do grupo negociador de agricultura, ou seja, para entre US$ 12,8
bilhões e US$ 16 bilhões ao ano. Antes, Washington insistia em um teto de US$
22 bilhões.
No seu
artigo, Schwab confirma a oferta, inicialmente anunciada por Falconer e
recebida com certo ceticismo pelos parceiros norte-americanos.
Agora,
ela diz que a União Européia também se moveu, em aparente menção ao fato de que
os europeus já vinham se mostrando dispostos a reduzir suas tarifas em mais de
50%, o que está no parâmetro definido por Falconer.
Mas,
escreve a negociadora-chefe norte-americana, "lamentavelmente, a maioria
dos outros grandes parceiros ainda não declarou suas intenções. Pior ainda,
alguns manifestaram indisposição para negociar de acordo com os parâmetros dos
textos".
O
"alguns" parece referir-se menos ao Brasil e mais à Argentina e à
África do Sul, pouco dispostas a cortar suas tarifas industriais nos termos
sugeridos pelo chefe do grupo negociador, o canadense Don Stephenson.
A
proposta de Stephenson representaria cortar entre 55% e 60% as tarifas médias
industriais dos países em desenvolvimento. Mas o cálculo se refere às tarifas
registradas na OMC, não as efetivamente aplicadas, sempre bem mais baixas.
No caso
do Brasil, por exemplo, o corte nas tarifas realmente cobradas hoje ficaria
entre 7,6% e 12,5%.
Além
disso, o mecanismo proposto prevê "flexibilidades" para proteger
certos setores, o que leva Schwab a dizer que, além de não terem declarado suas
intenções, "alguns países" expressam "o desejo de anular
compromissos de abertura de mercado por meio de buracos [nas regras]".
05/10/2007
Comércio Exterior
Ricardo
Balthazar
Os
Estados Unidos deram ontem sinais claros de que continuarão resistindo a cortes
mais profundos nos seus controvertidos subsídios agrícolas ao entregar à
Organização Mundial do Comércio (OMC), com anos de atraso, um relatório sobre a
execução dos vários programas que beneficiam seus fazendeiros.
Os EUA
sustentam no informe que seus gastos com subsídios nos últimos anos ficaram bem
abaixo dos limites estabelecidos pelas regras atuais da OMC. O Brasil e o
Canadá alegaram exatamente o contrário em julho, quando iniciaram no organismo
um processo que poderá levar à abertura de uma ampla investigação sobre esses
programas.
"Os
Estados Unidos estão em total conformidade com nossas obrigações na OMC",
disse o secretário de agricultura em exercício dos EUA, Charles Conner, numa
nota distribuída por sua assessoria. O governo americano não informava à OMC
seus gastos com subsídios agrícolas desde 2004, quando só apresentou os números
referentes a 2001.

Os EUA
dizem ter gasto entre 2002 e 2005, em média, US$ 15,9 bilhões por ano com
subsídios que distorcem o comércio agrícola. O limite estabelecido pelas regras
em vigor é de US$ 48,2 bilhões por ano. Esses incentivos deprimem os preços
internacionais das mercadorias beneficiadas, tornando menos competitivos os
produtores que não recebem ajuda semelhante.
Os
americanos continuam classificando como se fossem inofensivos subsídios
avaliados em bilhões de dólares, como os pagamentos diretos que os produtores
de milho, soja, algodão e outras culturas recebem do governo. Essa é uma das
queixas principais que o Brasil apresentou à OMC quando contestou os subsídios
americanos.
Esses
pagamentos representaram ultimamente mais de US$ 5 bilhões por ano e em geral
são efetuados mesmo que os fazendeiros não plantem nada. Como estão
desvinculados de fatores como a flutuação dos preços, eles são tratados pelo
governo americano como se não tivessem efeito sobre o comércio, mas o Brasil
defende sua inclusão nas categorias em que as regras atuais são mais
restritivas.
Os
americanos usaram os números apresentados ontem para reforçar a posição que
assumiram nas negociações da Rodada Doha de liberalização comercial, indicando
que será difícil aceitar limites mais estreitos que os atuais sem concessões de
países como o Brasil e a Índia, que resistem a abrir mais seus mercados para
produtos importados.
Há
poucas semanas, os negociadores dos Estados Unidos disseram que aceitam discutir
um teto dentro da faixa sugerida pelo coordenador das negociações agrícolas na
OMC, Crawford Falconer, entre US$ 13 bilhões e US$ 16 bilhões. Mas os
americanos têm procurado deixar claro que esse sinal não significa que estejam
dispostos a acatar o limite menor.
"Nossa
disposição de negociar dentro dessa faixa não significa que estamos dispostos a
aceitar algo próximo do piso", disse ontem em Washington o principal
negociador americano na área agrícola, Joseph Glauber. "Onde vamos chegar
no que diz respeito aos subsídios será determinado, em grande medida, pelo que
alcançarmos em acesso a mercados."
O
Congresso dos Estados Unidos, que está há meses discutindo a renovação dos
programas agrícolas americanos, deu várias indicações de que resistirá a qualquer
tentativa de reforma dos subsídios agrícolas. A Câmara dos Representantes
aprovou em julho a extensão dos programas atuais e o Senado, onde o assunto
está sendo debatido agora, não parece inclinado a aprovar mudanças.
"Os
congressistas estão contando com o tempo e a sorte", disse ao Valor a
economista Kimberly Elliott, do Centro para o Desenvolvimento Global, uma
instituição de pesquisas que acompanha de perto a discussão. "A alta dos
preços internacionais das principais mercadorias agrícolas tem ajudado a conter
os gastos com subsídios e a indefinição das negociações da Rodada Doha diminui
a pressão para que eles façam reformas."
05/10/2007
Comércio Exterior
De
Genebra
A
decisão dos Estados Unidos de detalhar o volume de seus subsídios agrícolas
pela primeira vez desde 2001 terá impacto na disputa que o Brasil abrirá contra
as subvenções dadas por Washington a seus agricultores. O Brasil enfim saberá
onde os americanos realmente dizem colocar o dinheiro e assim poderá alvejar
melhor as subvenções.
Mas
ontem, quando os americanos divulgaram as principais cifras, as reações foram
de ironia e sem surpresa. Primeiro, os gastos no geral já eram conhecidos e se
encaixam com estimativas feitas pelo Brasil e outros exportadores. Só que os
Estados Unidos pararam as informações em 2005, quando o montante total de
subsídios que distorcem o comércio chegou a US$ 18,9 bilhões - uma maneira de
indicar que mesmo se limitar o montante a US$ 16,4 bilhões num futuro acordo
agrícola, já estará fazendo uma grande concessão, porque sofrerá corte
real.
O que os
americanos não informaram é que o total desses subsídios ficou bem abaixo, em
cerca de US$ 11 bilhões no ano passado, o que mostraria que pode cortar
substancialmente mais num acordo da Rodada Doha.
Para
analistas, os EUA dão agora as informações por causa da futura disputa com o
Brasil, que questionará todos os programas agrícolas americanos. "É uma
obrigação o que os EUA estão fazendo, porque se não apresentam as cifras, não
podem ser defender diante dos juízes", afirma Steve Suppan, do Instituto
de Agricultura e Política Comercial, de Minneapolis . "O risco era de os
juízes considerarem os dados alegados pelo Brasil e Canadá, apenas.”
O Brasil
afirma que os Estados Unidos violaram o limite de US$ 19,1 bilhões de subsídios
por ano. Os americanos rejeitam a alegação brasileira. Mas a Oxfam, principal
ONG na área de comércio e desenvolvimento, insiste em dizer que os EUA
efetivamente violaram as regras da OMC gastando além da conta nos
subsídios.
Para a
Oxfam, mesmo se os números divulgados estiverem compatíveis com os compromissos
assumidos na OMC, ainda mostram que os Estados Unidos não estão oferecendo
cortes substanciais na Rodada Doha. A real tragédia, para a ONG, é que o
anúncio de ontem pode ser usado para o Congresso americano aprovar uma Lei
Agrícola (Farm Bill) que deixe os subsídios inalterados e os Estados Unidos
vulneráveis a mais denúncias na OMC, prejudicando boas relações com os
parceiros.
"Isso
pode ser o mais trágico para milhões de pessoas em países em desenvolvimento
cuja sobrevivência é ameaçada diariamente por causa dos subsídios
americanos", diz o comunicado.
Os dados
detalhados das subvenções de 2002 a 2005 não foram entregues ontem às
delegações. Talvez isso só ocorra na segunda-feira. "É incrível um país
que fala tanto em transparência, dar com atraso de anos as informações
previstas nas regras internacionais e ainda conseguir transformar isso em
notícia", disse resignada uma alta personalidade da OMC. (AM)
07/10/2007
Comércio Exterior
Em
Doha, Brasil quer evitar o inevitável
Alberto
Tamer*
O Brasil
está tentando evitar o inevitável, um fracasso mais do que previsto nas
negociações da Rodada Doha, sobre a liberalização do comercio internacional.
Após cada nova Rodada de negociação, renovam-se as propostas fracassadas no
passado e desfazem-se as promessas não cumpridas.
Na
verdade, informa à coluna o correspondente do Estado na Organização Mundial do
Comércio (OMC), Jamil Chade, "a chave de Doha não está nem em Genebra nem
em Bruxelas nem em Brasília, mas em Washington, no Congresso americano. É de lá
que virá a palavra final; e por enquanto, ela é não".
Nesta
semana, senadores e deputados republicanos, do governo, portanto, associaram-se
aos democratas, oposição, para se manifestarem contra concessões comerciais;
estão discutindo, isto sim, mais subsídios para seus agricultores, incapazes de
competir no mercado mundial com os seus altos custos.
Nessa
questão poderia até parecer que o governo Bush estaria sozinho, mas não está;
ele mesmo endossou a política proposta pela negociadora comercial, Susan
Schwab, de não apoiar acordos multilaterais e negociar isoladamente, fora da
OMC, país por país.
No
fundo, o que o governo americano diz não vale. Eles tem uma eleição
presidencial no próximo ano, onde os votos dos agricultores, que pesam muito,
já começam a escassear. E, para eles, basta o Iraque para roubar votos. Por
que, então, fazer concessões, por exemplo, ao Brasil e à Índia, que
representam, juntos, pouco mais de 1% de suas exportações?
Isso se
chama pragmatismo, com o qual a nossa diplomacia ainda não tem sequer encontro
marcado. Preferimos a diplomacia amena e improdutiva do "gogó". Eles,
nada de subsídio e só barreiras na importação, nós, conversas que se mostraram
inúteis em 12 anos de negociações. Não faz mal, quem sabe um dia a gente
aprende. Afinal, nosso presidente não está acertando tanto na política
econômica? A gente chega lá.
VEJAM O
ETANOL
Querem
um exemplo de como eles agem? Aqui vai. Os EUA impõem uma tarifa média de 49%
na importação de etanol brasileiro. Ou seja, para que o nosso produto entre no
mercado americano, precisa ser 49% mais caro que o preço por nós exportado;
isso para defender o seu etanol de milho, que tem custo de produção de US$ 65,
enquanto o nosso não passa US$ 35. Se servir de consolo, o preço do etanol
brasileiro precisa de um aumento de 70% para ser vendido no mercado europeu, a
fim de equilibrar-se com o preço do etanol de beterraba que eles insistem em
produzir. E está claro que não pretendem mudar, principalmente agora, quando a
economia recua.
ESPERANDO
O QUE NÃO VEM
Nosso
correspondente em Genebra, Jamil Chade, teve, na sexta-feira, conversa
esclarecedora com um representante de Washington muito envolvido nas negociações
de DOHA. Sob a condição de anonimato, ele confirma que não há a menor chance de
aprovação, no Congresso americano, antes das eleições presidenciais no próximo
ano. Ninguém acredita que Bush esteja disposto a ceder, correndo o risco
iminente de perder ainda mais votos já escassos que a crise do Iraque roubou.
ELES NÃO
ESTÃO NEM AÍ
Mas
vamos aos cinco motivos que, segundo o representante de Washington em Genebra,
levarão o Congresso americano a vetar qualquer acordo multilateral no âmbito da
OMC.
1 -
Neste ano, o Congresso retirou de Bush o fast track, autorização provisória
para que o governo possa assumir compromissos em comércio internacional sem
emendas do legislativo. Ela só poderá ser restaurada em 2009.
2 - No
Congresso, cresceu muito, neste ano, a reação contra decisões de organizações
externas (OMC, por exemplo) que obriguem a reformular leis nacionais. Isso está
sendo considerado uma ingerência externa inaceitável em assuntos internos. É um
novo conceito de soberania, em época de eleição e quando a economia recua,
buscando no aumento das exportações, e não das importações, um caminho para
voltar a crescer.
3 - Os
congressistas americanos estão prestes a aprovar a nova Farm Bill, lei que
regula os subsídios agrícolas nos Estados Unidos; ela será válida até 2011.
Pelo projeto que está sendo discutido, "não há praticamente nenhum corte
de subsídios," informa aquela fonte. Pior, há, isso sim, inclusive novos
mecanismos para financiar quem quiser produzir etanol, já altamente subsidiado.
Como vimos.
4 - O
Congresso americano não vê motivo para reduzir seus subsídios, diante da
percepção de que Brasil, Índia e China não abrirão seus mercados para produtos
industrializados americanos. Além disso, Bush e Susan Schwab afirmaram, no
Brasil, que os Estados Unidos querem condições mais favoráveis para exportar
seus produtos agrícolas. Temem que voltem a ser importadores líquidos.
É isso.
No fundo, só fazer concessões se forem compensados por ganho maior.
EUROPA
TAMBÉM ATRAPALHA
5-
Finalmente, os americanos só aceitariam reduzir subsídios se os europeus
reduzissem também suas tarifas aplicadas na importação de alimentos. No
Congresso, porém, muitos duvidam que a comunidade esteja politicamente
preparada para apresentar uma proposta aceitável. A dúvida aumentou muito neste
ano, quando a França declarou que poderá vetar um acordo que signifique uma
liberalização "exagerada" do mercado agrícola, sem explicar o que
isso quer dizer.
Concluindo,
Doha morreu, não podemos continuar querendo evitar o inevitável, temos de
partir para uma nova política comercial realista. Só que, ao contrário deles,
nós ainda não temos nenhuma.
06/10/2007
Comércio Exterior
Jamil
Chade
Estados
Unidos, União Européia e Japão se recusam a permitir que o Mercosul mantenha
certas barreiras como resultado da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio
(OMC). Ontem, Brasil e Argentina defenderam que flexibilidades fossem
garantidas para permitir que setores mais sensíveis da indústria do bloco não
fossem liberalizados. Uruguai e Paraguai, porém, ainda não deram apoio à
proposta do Mercosul.
A idéia
do Brasil e da Argentina é assegurar que os setores considerados como mais
sensíveis à concorrência externa não sejam afetados por uma liberalização numa
união aduaneira. Ontem, os governos dos Estados Unidos e Europa insistiram que
os países emergentes precisarão abrir seus mercados para bens industriais se
quiserem que Washington e Bruxelas façam concessões no setor agrícola.
O
Itamaraty foi à reunião preparado para não apenas resistir à pressão dos países
ricos, mas também para alertar que, enquanto não houver avanços nos debates
agrícolas da OMC, não haverá por que falar em novos números nos cortes de
tarifas industriais.
Os
países ricos querem que os emergentes cortem em pelo menos 66% suas tarifas de
importação. Já um grupo formado por Brasil, África do Sul, Índia e Argentina
alegam que não poderiam aceitar um corte acima de 50%. Ontem, porém,
brasileiros e argentinos foram além e sugeriram que uniões aduaneiras, como o
Mercosul, ganhassem certos privilégios e pudessem escolher um número maior de
setores que seriam declarados como sensíveis.
Washington
deixou claro que essa concessão não se justificaria. Mas também alguns países
em desenvolvimento, como Turquia e Colômbia, atacaram a proposta. O que chamou
a atenção dos negociadores é que o Paraguai e Uruguai, membros do Mercosul,
optaram por não se pronunciar na defesa da proposta do Brasil. Mais tarde, um
diplomata de Assunção reconheceu que os dois membros menores do bloco ainda
estão avaliando a proposta e não estavam em condições de apoiá-la.
Brasil e
Argentina, agora, terão de continuar a convencer os países ricos de que
precisam da flexibilidade, enquanto tentarão convencer Uruguai e Paraguai a
aceitar a proposta.
Fora das
salas de negociações, um debate com cerca de 200 fazendeiros, empresários,
acadêmicos e lobbistas na OMC deixou claro que a falta de entendimento entre os
governos é uma realidade. “Tudo indica que sentiremos mais rápido os efeitos da
mudança climática que da liberalização na agricultura”, ironizou o ministro-conselheiro
do Itamaraty, Paulo Mesquita. Para os representantes americanos e europeus no
debate, concessões suficientes já foram feitas pelos países ricos.
09/10/2007
Comércio Exterior
CLÓVIS
ROSSI
ENVIADO
ESPECIAL A MONTREUX
A OMC
(Organização Mundial do Comércio) iniciou ontem duas semanas de debates sobre a
liberalização da agricultura, o grande nó da Rodada Doha de negociações
comerciais, lançada em 2001 e praticamente parada desde então.
Por mais
que a palavra "decisiva" para qualificar a nova negociação possa
estar desgastada, pela quantidade de vezes que foi usada, sem ter decidido
nada, desta vez há dois motivos para adotá-la, a saber:
1) O
tempo está definitivamente se esgotando para se alcançar ao menos um esboço de
acordo. Há virtual consenso de que ou se chega a um entendimento até o fim do
ano ou Doha poderá ser dada como morta.
2)
Agora, há parâmetros bem definidos a partir dos quais negociar, desde que os
presidentes dos grupos negociadores de agricultura, Crawford Falconer, e de
bens industriais, Don Stephenson, apresentaram seus textos, há dois meses.
Os
números por eles apresentados eram para "pegar ou largar", na
avaliação então obtida pela Folha no comando da OMC. Há 20 dias, os EUA
"pegaram", ou seja, aceitaram negociar a redução de seus subsídios
para entre US$ 12,8 bilhões e US$ 16 bilhões por ano -antes, insistiam
oficialmente em US$ 22 bilhões e, extra-oficialmente, em US$ 18 bilhões.
Como
também os europeus aceitaram a faixa de redução de suas tarifas agrícolas, a
bola veio para o campo do Brasil e do G20, o grupo de países em desenvolvimento
que ele lidera, obrigados em tese a reduzir suas tarifas industriais, conforme
cobrou no dia 4 deste mês a negociadora-chefe norte-americana, Susan Schwab.
Mas, nas
duas semanas de negociação agrícola, o Brasil dirá que não é bem assim.
Primeiro, porque os EUA querem aceitar apenas a parte superior da faixa de
corte proposta por Falconer (US$ 16 bilhões), quando o G20 cobra US$ 12 bilhões
como teto máximo.
Segundo,
porque "dá com uma mão, mas tira com a outra", como diz Clodoaldo
Hugueney, embaixador do Brasil em Genebra, a sede da OMC.
Qual é o
truque? Os americanos se recusam a aceitar, além do teto global, um limite
também para produtos.
No caso
dos europeus, o truque é parecido, sempre segundo o embaixador: reduzem as
tarifas mas colocam uma série de produtos na lista de "sensíveis",
que podem manter uma proteção mais elevada.
Tudo
somado, tem-se que o Brasil só aceita reduzir suas tarifas de bens industriais
"na dependência do nível de ambição em agricultura, que está longe de ter
sido estabelecido [nos textos de Falconer e Stephenson]", diz Hugueney.
Ainda
assim, o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, disse ontem em seminário sobre
exportações que "nunca se esteve tão perto de um acordo em
agricultura". Mas adicionou uma nota de cautela: "Na comparação com a
situação de 18 meses atrás, andamos milhas e milhas. Estamos perto da linha de
chegada? Ainda não".
Na
avaliação dos especialistas em comércio, a dificuldade do Brasil para reduzir
suas tarifas industriais não é interna, mas externa. Argentina e África do Sul
ficaram profundamente insatisfeitas com as propostas de Stephenson. Como são
parte do G20, para o Brasil fica difícil ceder qualquer coisa sem quebrar o
grupo, conforme a avaliação obtida pela Folha no comando da OMC. Hugueney nega,
no entanto, que esse seja o nó principal. Para ele, a questão continua a ser o
nível baixo de concessões do mundo rico na área agrícola.
Ou seja,
seria o mesmíssimo problema que emperrou a negociação nos últimos seis anos.
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O jornalista CLÓVIS ROSSI viajou a Montreux a convite do
Centro de Comércio Internacional, braço técnico conjunto da OMC e da Unctad
09/10/2007
Comércio Exterior
Brasil
diz na OMC que, pelo bloco Mercosul, abre mão de Doha
Jamil
Chade
Se o
Brasil tiver de optar entre a Rodada Doha e o Mercosul, optará pelo bloco
regional. O alerta foi dado ontem pelo embaixador do Brasil na Organização
Mundial do Comércio (OMC), Clodoaldo Hugueney, em uma forte mensagem política
aos parceiros do País.
O
Itamaraty quer que o Mercosul ganhe flexibilidades extras no setor industrial
para manter certas áreas protegidas. Os europeus chegaram a acusar o Mercosul
de nem mesmo ser uma união aduaneira. Americanos, japoneses e até
centro-americanos, turcos e colombianos rejeitam a proposta de dar novas flexibilidades
ao bloco.
"O
Mercosul é prioridade absoluta para o Brasil, por isso a negociação tem de
tornar compatível a liberalização multilateral com a integração regional. Não
podemos forçar escolher entre participar amplamente da negociação de Doha e ao
mesmo tempo provocar uma crise no Mercosul", disse o embaixador.
"Entre Doha e o Mercosul, o Brasil escolhe o Mercosul", completou,
lembrando que o Itamaraty não quer chegar a esse ponto durante o debate.
Segundo ele, o chanceler Celso Amorim deu essa mensagem ao diretor da OMC,
Pascal Lamy.
O
problema do Mercosul ocorre por causa da tarifa externa comum. Pelas
negociações da OMC, países podem escolher um porcentual de setores para manter
protegidos. O problema é que o bloco terá de chegar a uma lista única, já que
aplica uma tarifa válida para os quatro países. Questionado por que esse tema
surgiu seis anos após o início das negociações de Doha, o Brasil admitiu que só
agora a redução de tarifas foi debatida em detalhe. "Quando começamos a
avaliar a situação com profundidade, vimos que havia incompatibilidade. O
cobertor ficou curto", disse Hugueney.
O
problema é que, ao criar uma lista única, nem todos os setores que o Brasil ou
a Argentina querem manter sob proteção serão incluídos. A solução seria propor
que uniões aduaneiras incluam uma lista maior de produtos, o que é rejeitado
pelos países ricos, que querem a abertura dos mercados.
Na
última sexta-feira, tanto os países ricos quanto alguns emergentes rejeitaram a
proposta do Brasil de novas flexibilidades. Os europeus acreditam que as regras
da OMC devem sempre prevalecer sobre acordos bilaterais ou regionais. O
argumento do Mercosul, portanto, não justificaria a criação de benefício extra
para o bloco.
Mas o
Itamaraty insiste que não aceitará ficar sem essas flexibilidades,
principalmente para os setores têxtil e químico. "O Mercosul é um projeto
político de integração regional e é uma prioridade absoluta. Por isso, as
flexibilidades são fundamentais", afirmou Hugueney.
Apesar
da insistência do Brasil, a proposta de dar flexibilidades ao Mercosul não tem
um acordo nem mesmo dentro do bloco. O Itamaraty fará uma reunião com
paraguaios e uruguaios no final da semana para tentar convencer os dois
governos. Em Montevidéu, diplomatas não disfarçam o sentimento contrário à
proposta. O Paraguai também deixa claro que, por enquanto, não apóia a idéia.
Para Alberto Dumont, embaixador da Argentina, o Mercosul deve lutar pelas
flexibilidades.
Hoje, o
Brasil fará um discurso forte no Conselho Geral da OMC alertando que a rodada
está desequilibrada e que os temas industriais estão ganhando maior importância
que a agricultura. O Brasil voltará a pedir flexibilidades para os países
emergentes e ainda costura uma ampla declaração com outros 90 países em
desenvolvimento para atacar a forma pela qual os países ricos conduzem o
processo. "Temos de relembrar que essa rodada existe para colocar a
agricultura no centro do debate", afirmou um diplomata sul-americano.
A idéia
da aliança entre os emergentes é garantir que uma mensagem política seja
mostrada aos países ricos: eles não poderão exigir dos demais concessões que
afetem o desenvolvimento. "Quanto maior o nível de desenvolvimento de uma
economia, maior deve ser o esforço nessa rodada", disse o embaixador da
Venezuela na OMC, Oscar Carvallo.
Os
países ricos querem que os emergentes cortem em pelo menos 66% suas tarifas de
importação. Já um grupo de Brasil, África do Sul, Índia e Argentina alega que
não pode aceitar um corte acima de 50%. Washington deixou claro que essa
concessão não se justifica e que qualquer corte de subsídios terá um preço a
ser cobrado.
10/10/2007
Comércio Exterior
Assis
Moreira
A já
combalida Rodada Doha voltou a se aproximar do colapso total, com acusações
recíprocas e aprofundamento do racha entre países desenvolvidos e em
desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC). Os Estados Unidos
reagiram duramente a uma proposta do Brasil, Argentina e África do Sul por
flexibilidade adicional para as indústrias do Mercosul e da Sacu (a união
aduaneira da África Austral), advertindo que isso "pode significar o fim
da Rodada Doha".
A reação
dos ricos foi motivada também por outras demandas do bloco em desenvolvimento,
com cerca de 90 países, que Brasil, Índia e África do Sul conseguiram
organizar. O bloco pede mudanças estruturais no texto de base da negociação
industrial e responde a pressões da representante comercial dos EUA, Susan
Schwab.
O bloco
reitera que só haverá progressos na negociação industrial depois do resultado
da negociação agrícola e considera inaceitáveis cortes maiores nas tarifas de
nações em desenvolvimento do que nas dos países ricos. A Agência das Nações
Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) calcula que o texto
industrial significa corte nas tarifas consolidadas de 21% nos EUA, 23% na
União Européia, comparado a 58% no Brasil, 62% na Índia, 42% na África do Sul e
28% na China.
O bloco
em desenvolvimento diz ser crucial obter flexibilidades maiores na área
industrial. Brasil, Argentina e África do Sul querem espaço maior para o
Mercosul e a Sacu protegerem mais produtos industriais, a fim de preservar as
tarifas externas comuns. A mensagem é que o texto industrial precisa ser
amplamente alterado.
As
reações dos "elefantes" do comércio mundial, contudo, foram
categóricas. "Essa proposta pode sinalizar o fim da Rodada Doha", declarou
ao Valor o porta-voz comercial dos EUA, Sean Spicer. "Enquanto os EUA e
outros têm mostrado claro compromisso em ir adiante, essa proposta marca um
retrocesso importante e na direção errada." A União Européia também avisou
que o texto do mediador da negociação "é razoável, documentos alternativos
não sao necessários e estamos esperando outros na mesa para
negociar".
A atual
fase de negociação era para aproximar posições em direção a um acordo final,
após seis anos de negociações, mas a história se repete, com endurecimento de
todas as partes. A Argentina, com posição forte na área industrial, sinalizou
logo o perigo para Doha: "Esse é um barco pesado, se não for girado a
tempo a colisão com o iceberg é inevitável", avisou o embaixador Alberto
Dumont.
Em
escritórios importantes da OMC, o clima de hostilidade e os debates negativos
ao longo do dia deflagraram o sinal de alarme. O diretor-geral, Pascal Lamy,
porém, considera que o aprofundamento da discussão geralmente leva a esse tipo
de cenário.
A
maioria dos negociadores ataca os EUA pelo impasse. Na agricultura, os
americanos são "seletivos", mas na área industrial pedem
"concordância incondicional". Já o embaixador americano na OMC, Peter
Allgeier, acelerou a crítica aos grupos em desenvolvimento, conduzidos por
Brasil, Índia e África do Sul. "Agora não é mais tempo para se dizer o que
não se quer, é tempo para dizer o que estão prontos a fazer em agricultura e na
área industrial", afirmou enfático.
O alvo
de Allgeier foi sobretudo a demanda de Brasil e Argentina por flexibilidade
adicional para o Mercosul. Para ele, o Brasil está querendo "virar de
cabeça para baixo" a OMC. "Dizer que países devem (liberalizar)
menos, porque estão em uniões aduaneiras ou em outros acordos preferenciais, é
se desviar da OMC", argumentou. "A OMC é sobre liberalização
multilateral e não devemos abrir precedentes para arranjos especiais."
Sinalizou que os EUA estavam prontos a examinar "necessidades específicas
e bem definidas" para certos países protegerem mais suas indústrias, mas
não para o Mercosul.
A
constatação de Dumont, embaixador argentino, foi rápida: "Os EUA estão de
acordo para acomodar todo mundo, menos nós (Argentina, Brasil e África do Sul).
E querem que esqueçamos flexibilidade adicional para uniões aduaneiras. Para o
Mercosul essa é uma questão fundamental."
Nos
corredores da OMC, importantes personagens da negociação consideravam
"preocupante" se a advertência do Brasil - de que prefere o Mercosul
a Doha, caso não obtenha mais flexibilidades para sua indústria - for para
valer e não meramente tática de negociação.
A
resposta do embaixador brasileiro, Clodoaldo Hugueney, veio logo. "Nossa
posição é sólida e podem ficar preocupados, porque não há dúvidas sobre isso. O
Brasil tem o objetivo político de fortalecer e preservar o Mercosul, consolidar
a TEC, acabar com as exceções. E temos que encontrar soluções para
compatibilizar Doha e o Mercosul. A rodada tem que preservar as uniões
aduaneiras." Para os EUA e a UE, porém, o Mercosul não é união aduaneira
completa, com numerosas exceções. Para a UE, "só há duas uniões aduaneiras
no mundo, a UE e a Sacu", segundo seu embaixador, Eckert Guth.
10/10/2007
Comércio Exterior
Jamil
Chade
Em uma
resposta à pressão dos países ricos para que as economias emergentes abram seus
mercados, um grupo de 90 países em desenvolvimento liderados por Brasil e Índia
apresentou ontem à Organização Mundial do Comércio (OMC) uma nova posição
resistindo a cortes profundos no setor industrial, pedindo prioridade à
agricultura e a inclusão do etanol nas negociações. Na prática, a resistência
tanto dos países emergentes como das economias ricas põe em xeque a própria
Rodada. A proposta, com amplo peso político, foi recebida em Washington e
Bruxelas como um sinal de que a Rodada Doha pode fracassar.
As
diferenças e o tiroteio são tão expressivas entre os governos que a OMC rompe
com a tradição e decide evitar realizar sua conferência ministerial neste ano.
Pelas regras, a conferência deveria ocorrer a cada dois anos (a última foi em
2005 em Hong Kong). Mas, sem acordo, o diretor da OMC, Pascal Lamy, optou por
esperar uma conclusão da Rodada. Até o início de novembro, um novo rascunho do
acordo deve ser feito e, então, os países avaliarão se será possível um
entendimento.
"Há
uma séria questão se de fato esses países (emergentes) querem negociar",
atacou Peter Allgeier, embaixador dos Estados Unidos na OMC. "Os países
emergentes esperam que tomemos iniciativas. Mas não querem fazer o mesmo. Isso
não é justo." Em Washington, negociadores questionaram se a medida não
teria como finalidade impedir qualquer acordo.
Para o
Brasil, a proposta não faz nada além de recolocar as prioridades dos países
emergentes no centro do debate. Nos últimos dias, a Casa Branca vinha
pressionando para que Brasil, África do Sul e Índia utilizassem sua cúpula na
semana que vem para fazer concessões na área industrial. A resposta veio ontem
e foi em direção oposta.
Pelo
novo documento, o grupo de emergentes, africanos, caribenhos e outros governos
alerta que a preocupação com o desenvolvimento dos países mais pobres deve ser
o objetivo das negociações, o que não estaria ocorrendo. Por isso, um corte de
tarifas industriais não poderia passar de 50%, e não 66% como querem os países
ricos. Flexibilidades para que cada país possa ter sua política industrial
também foram adotadas. "Essa proposta pode ter sido o prego final no
caixão da Rodada", afirmou um negociador mexicano. O México, assim como
Chile, Costa Rica, Peru e alguns países em desenvolvimento, não apóiam a
posição do grupo liderado pelo Brasil.
A
proposta pede que o etanol seja tratado como um bem ambiental e, portanto, seja
incluído na lista de produtos que terão as tarifas zeradas. A proposta é
rejeitada tanto por americanos como por europeus.
Valor
Econômico
10/10/2007
Comércio Exterior
De
Genebra
A
frustração com o ritmo da negociação de um acordo de livre comércio entre a
União Européia (UE) e Mercosul marcou a reunião anual do Fórum Empresarial dos
dois blocos, encerrada ontem em Lisboa. Empresários presentes decidiram fazer
mais pressão sobre os negociadores dos dois blocos, para que eles retomem a
negociação. Além disso, os executivos vão monitorar o andamento de suas
propostas, como facilitação de comércio, e se articular mais de uma vez por
ano.
Mas o
desinteresse europeu foi evidente desta vez. Ao contrário de anos anteriores,
nenhum comissário participou do encontro organizado pelos empresários. O
presidente da Comissão Européia, José Durão Barroso, estava na capital
portuguesa, mas tampouco apareceu. O número de empresários europeus foi pequeno
e com menor peso econômico e político.
A
surpresa, por outro lado, foi a chegada em cima da hora de uma delegação da
Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), do
Brasil, para mostrar que quer o acordo birregional o mais rápido
possível.
"Há
sensação de falta de interesse por parte da Europa pelo fato de os europeus
estarem mais interessados em aprofundar relações com a Ásia", avalia
Alfredo Valadão, professor da cátedra Mercosul no Instituto de Estudos
Políticos de Paris e um dos debatedores em Lisboa. ""Tem a frustração
com o estado da negociação birregional, o fato dela estar atrelada ao que
acontecer na Rodada Doha e também a UE não tem número suficiente de
negociadores para cuidar de todos os acordos comerciais ao mesmo tempo",
acrescenta.
A
cátedra Mercosul do Instituto de Estudos Políticos de Paris fez uma sugestão
técnica que negociadores consideraram interessante: fazer um acordo de livre
comércio com diferenças nos tempos de aplicação dos compromissos e nos produtos
sensíveis para os quatro países do Mercosul. Isso é ainda mais importante
porque participantes dizem ter constatado em Lisboa um "problema
argentino". O secretário de Comércio Internacional, Alfredo Chiaradia,
mostrou interesse em facilitação de comércio, mas em termos de acesso ao
mercado só falou em "agricultura, agricultura, agricultura".
Além
disso, segundo Valadão, pela sua abordagem, os argentinos deixaram clara a
preocupação com a parceria estratégica UE-Brasil, temendo um acordo bilateral
entre ambos. Os brasileiros negaram essa possibilidade. (AM)
10/10/2007
Comércio Exterior
De São
Paulo
Embalada
sobretudo pelas carnes bovina e de frango, a receita das exportações
brasileiras do chamado "complexo carnes" - que inclui também a suína
- praticamente empatou com a dos embarques do complexo soja (grão, farelo e
óleo) na análise do acumulado dos últimos 12 meses até setembro passado.
Segundo
dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pelo Ministério da
Agricultura, a soja ainda lidera nesta comparação, com US$ 10,694 bilhões, mas
as carnes aparecem com US$ 10,6 bilhões. Levando-se em conta que o crescimento
registrado pelo grão e seus derivados em relação ao ano-móvel anterior foi de
10,8%, enquanto o salto das carnes chegou a 29,3%, a possibilidade de que a
liderança da pauta de exportações do agronegócios mude de mãos neste ano é
real.
De
janeiro a setembro de 2007, é bem verdade, a tradicional liderança da soja é um
pouco mais folgada. Conforme o ministério, os embarques do complexo renderam
US$ 8,965 bilhões no período, 18,3% a mais que nos primeiros nove meses de
2006. Mas as carnes também avançaram mais, 32%, e proporcionaram receita de US$
8,086 bilhões.
De uma
maneira geral, as exportações brasileiras do agronegócio alcançaram US$ 42,811
bilhões no acumulado dos três primeiros trimestres deste ano, 18,7% acima do
registrado no mesmo período de 2006. Na mesma comparação, as importações
cresceram 30,8%, para US$ 6,169 bilhões, e o superávit comercial atingiu US$
36,642 bilhões, ante US$ 31,341 bilhões de janeiro a setembro de 2006.
Nos
demais rankings divulgados pelo Ministério da Agricultura, o complexo
sucroalcooleiro permanece em posição de destaque. Perde para os produtos
florestais, que seguem atrás apenas de soja e carnes, mas continua apresentando
receita importante.
Ainda
que em setembro os embarques do complexo tenham caído 13% em relação ao mesmo
mês do ano passado, para US$ 607,6 milhões, e na comparação entre os nove
primeiros meses também tenha havido queda - de 2,4%, para US$ 5,006 bilhões -,
nos 12 meses até setembro ainda aparece um crescimento de 20,4%. Neste caso, as
exportações somaram US$ 7,651 bilhões.
10/10/2007
Comércio Exterior
Assis
Moreira
Sob
pressão de pecuaristas britânicos, o comissário de saúde pública da União
Européia (UE), Markus Kyprianou, prometeu ontem ao Parlamento Europeu proibir a
entrada da carne bovina brasileira no mercado comunitário se até o fim do ano o
Brasil não cumprir as melhorias no controle sanitário que se comprometeu a
fazer.
Kyprianou
disse que a UE identificou "fragilidades" no sistema de controle
brasileiro e tem colocado pressão para o Brasil corrigi-las rapidamente.
Reiterou que "no momento" não há razões para interditar a carne
brasileira. Mas que está pronto a adotar "várias medidas",
proporcionais aos problemas que forem encontrados no Brasil pela missão veterinária
européia que irá ao país no mês que vem.
Outros
europeus entenderam que Kyprianou quis sinalizar também que pode adotar medidas
que não um embargo. Ele exemplificou que, se um estabelecimento particular
tiver problemas, a proibição de exportar para a Europa não deve ser
generalizada sobre toda a carne brasileira, ainda mais que Bruxelas respeita o
principio de regionalização sanitária.
Mas a
pressão de alguns estados-membros aliados a parlamentares britânicos e
irlandeses é pela proibição da carne brasileira, numa briga interna com a
Comissão Européia, o braço executivo da UE.
O
secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo, Marcio
Portocarrero, avalia o discurso do comissário europeu como uma "satisfação
política" às pressões de pecuaristas britânicos. E acredita que
permanecerá "intacta" a postura favorável de Kyprianou à importação
da carne brasileira pelo bloco europeu. "Estou muito seguro, tranqüilo
até, com a implantação do Sisbov. O modelo foi aceito pelos europeus e a missão
veterinária [que chega em 5 de novembro] verá o sistema em funcionamento",
diz.
"Estamos
chegando a um ponto bom porque todos na cadeia estão trabalhando, se esforçando
para colocar em prática as regras". Ele informou que tem realizado
reuniões semanais com pecuaristas, dirigentes de frigoríficos e de empresas
certificadoras para "refinar" a amostragem e "acompanhar"
as limitações do Sisbov. O secretário não descarta, porém, eventuais problemas
com algum aspecto do sistema. "Poderemos ter uma inconsistência em algum
detalhe, mas o todo não será prejudicado".
Os
pecuaristas europeus pressionam pelo embargo à carne brasileira por causa da
competitividade do produto. A carne brasileira paga taxa de 177% para entrar no
mercado europeu. Ainda assim, o país é o maior exportador do produto para o
velho continente.
A
Comissão Européia tem sido a maior aliada do Brasil até agora. Até porque sabe
que a carne brasileira é de qualidade, e como chega à Europa desossada, não
traz riscos de contaminação em caso de aftosa. Mas está com a faca com no
pescoço para fazer algo contra o produto. Nesse cenário, o Brasil não pode
esperar negociação. Só resta cumprir o que prometeu, porque o relatório da
próxima missão vai ser lido com lupa pelos produtores.
Kyprianou
foi convocado a explicar na Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu por
que a carne brasileira até agora não foi proibida. Os maiores críticos são
deputados da Irlanda e do Reino Unido, que este ano registrou perdas por causa
de focos de aftosa e da doença da língua azul.
Houve
bate-boca entre deputados britânicos em campanha contra a carne brasileira e
outros que reclamam de exageros que causam confusão na opinião pública
européia.
O
presidente da comissão de agricultura, o deputado inglês Neil Parish, discordou
da avaliação de Kyprianou sobre os padrões sanitários no Brasil, alegando que
missões "neutras" teriam constatado problemas na
rastreabilidade.
Mas
Parish tem dificuldades em convencer outros parlamentares na sua campanha contra
a carne brasileira: até agora ele teve apoio de 39 dos 780 membros do
Parlamento, para sua moção pedindo a suspensão da importação do produto, que é
uma pressão adicional sobre a Comissão Européia.
Liam
Aylward, deputado irlandês, insistiu não ter "sombra de dúvidas" de
problemas envolvendo a carne brasileira, apoiando-se num argumento de peso:
"Mesmo o ministro da agricultura do Brasil reconheceu isso", disse
ele. Outros deputados britânicos sugeriram primeiro proibir a carne e depois
deixar ao Brasil provar que não há problemas sanitários no produto exportado
para a Europa.
Mairead
McGuinness, irlandesa do Partido Popular, contestou declaração de Kyprianou, de
que um relatório da federação dos produtores irlandeses sobre a carne
brasileira tinha motivações econômicas e protecionistas. "Venha até a
Irlanda explicar por que a Europa exige mais de seus produtores do que dos
brasileiros, em termos de controle sanitário", desafiou.
O
ambiente esquentou quando a espanhola Rosa Miguelez-Ramos, socialista, acusou
Parish, de ter feito um texto "vergonhoso" sobre a carne brasileira,
quando a convocação de Kyprianou foi para discutir a saúde animal em geral. Ela
exigiu que Parish retirasse as declarações sobre o produto brasileiro "porque
causam um alarme injustificado". Parish retrucou que sua declaração não
estava na ordem do dia. Outros deputados, diante de opiniões diferentes,
pediram mais controle sobre a carne brasileira.
Kyprianou
informou que no mês que vem a UE vai publicar relatório da missão que foi ao
Brasil em março deste ano. E que também em novembro irá uma grande missão
veterinária ao país para avaliar se os problemas identificados foram
corrigidos. (Colaborou Mauro Zanatta, de Brasília)
Valor Econômico
10/10/2007
Comércio Exterior
Mauro
Zanatta
A
comissária de Agricultura e Desenvolvimento Rural da União Européia (UE),
Mariann Fischer Boel, afirmou ontem, em almoço com dirigentes da Confederação
da Agricultura e Pecuária (CNA), que defenderá, a partir de novembro, o fim dos
subsídios a produtos agrícolas destinada à fabricação de biocombustíveis.
"A
comissária vai propor, em novembro, a eliminação dos subsídios para produtores
de culturas usadas em biocombustíveis", disse o embaixador da UE no
Brasil, João Pacheco, ao Valor. A comissária preferiu não comentar sua visita
com jornalistas. Hoje, a UE paga ? 45/hectare aos produtores de trigo,
beterraba, milho e uva destinada à produção de etanol no bloco. Alemanha,
Espanha e França são os maiores produtores de etanol.
A
comissária dinamarquesa, em visita ao Brasil para conhecer os sistemas de
produção agropecuária, acredita que não será mais necessário estimular a
produção voltada aos biocombustíveis já que há uma obrigatoriedade de 5,75% no
uso desses combustíveis renováveis a partir de 2010.
"Havendo
a obrigação, o mercado vai funcionar sozinho e não precisará de
estímulos", resume Pacheco, que acompanha a comissária em sua visita a
laboratórios de pesquisa, fazendas, frigoríficos, laticínios e associações de
classe.
A
produção de etanol na Europa somou 1,59 bilhão de litros em 2006, um aumento de
74% na comparação com 2005, segundo dados da Associação Européia de Etanol
Combustível (eBio). A Europa consumiu cerca de 1,7 bilhão de litros no ano
passado.
Além de
subsidiar a produção interna de etanol, a UE impõe um tarifa de importação de
US$ 0,192 por litro e uma sobretaxa "ad valorem" de até 54%, a
depender do país comprador, para o etanol brasileiro. Ainda assim, o Brasil
exportou 230 milhões de litros para Suécia, Reino Unido e Finlândia em 2006.
Por enquanto, a UE não está disposta a eliminar essa tarifa, afirma o embaixador
João Pacheco.
Sobre a
polêmica entre pecuaristas brasileiros e britânicos, sobretudo irlandeses, a
comissária Fischer Boel informou aos dirigentes do setor rural nacional,
segundo o embaixador, que a manutenção das importações européias de carne
bovina local dependerá das condições do rebanho e da avaliação de uma missão
que desembarca em 5 de novembro no Brasil.
"A
missão não vem para dormir. Vem com um objetivo claro de ver se o pacto foi
cumprido", afirmou o presidente da Comissão Nacional de Comércio Exterior
da CNA, Gilman Viana. "Se houver descumprimento, implicará em
sanção". Ele atribuiu a polêmica a uma disputa por espaço no mercado
internacional de carnes. "O Brasil exporta 23% do gado abatido, o que dá
oito vezes mais do que os 93% da produção exportados pela Irlanda". O
Brasil vende 300 mil toneladas de carne bovina na UE anualmente.
A
conversa entre a comissária e a CNA resultou na promessa de criação de comitês
setoriais para avaliar a situação tarifária de cada produto. As primeiras
avaliações serão para café solúvel e frutas, que pagam taxas na UE inexistentes
aos concorrentes brasileiros.
16/10/2007
Comércio Exterior
Henrique
Gomes Batista
BRASÍLIA.
A comissária de Agricultura e Desenvolvimento Rural da União Européia (UE),
Marianne Fischer Boël, afirmou ontem na Confederação da Agricultura e Pecuária
do Brasil (CNA) que o bloco econômico aceita discutir a extinção da tarifa de
importação de etanol imposta a terceiros mercados. Segundo Gilman Viana,
presidente da Comissão de Comércio Exterior da CNA, a comissária disse que a
produção européia é auto-sustentável hoje mas que os produtores europeus não
conseguirão atender a toda a demanda futura prevista.
A
tributação sobre o etanol brasileiro chega a 55%, enquanto a imposta sobre
produtos petrolíferos gira em torno de 5%. De acordo com a CNA, os tributos
fazem o álcool brasileiro chegar a US$0,54 por litro no mercado europeu.
Na
importação de carne, comissária é inflexível
Apesar
da sinalização de uma maior abertura para o etanol, Fischer Boël disse que o
acordo comercial entre UE e Mercosul está congelado. Para resgatá-lo, ela se
comprometeu a abrir negociações sobre alguns produtos brasileiros, como café
solúvel, frutas e mel, que têm tributação diferenciada em relação a outros
produtores. O pedido de exclusão de produtos do Brasil da lista diferenciada de
tributação data de 1997.
- O fato
de a comissária ter indicado que pode discutir o assunto (tarifas maiores para
produtos brasileiros) é muito positivo - afirmou Gilman.
Mas a
comissária mostrou-se inflexível em relação à carne. Ela afirmou que, se o
Brasil não cumprir o compromisso de rastrear seu rebanho ainda este ano,
poderão ser criadas restrições à importação de carne brasileira. O governo já
admitiu que atender integralmente a essa exigência até o fim do ano é quase
impossível.
Fischer
Boël também se reuniu com o ministro interino da agricultura Silas Brasileiro.
O Estado de S. Paulo
16/10/2007
Comércio Exterior
Fabíola
Salvador
A
comissária agrícola da União Européia (UE), Mariann Fischer Boel, admitiu ontem
que as negociações para uma área de livre comércio entre o Mercosul e a UE
estão congeladas, mas há intenção de retomar as discussões. “Elas (as
negociações) estão congeladas a 30 graus abaixo de zero”, completou o
presidente da Comissão Nacional de Comércio Exterior da Confederação da
Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Gilman Viana Rodrigues.
Em
reunião realizada ontem, Fischer Boel reconheceu o papel fundamental da UE para
destravar a Rodada Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC). “Estamos
mandando mensagens claras para mostrar nossos desejos. Estar no Brasil é
importante porque este é o maior mercado da União Européia. Estamos engajados e
espero que consigamos chegar a uma solução para as diferenças”, afirmou a
comissária, segundo informações da assessoria de imprensa da CNA.
Fischer
Boel também afirmou que é favorável à extinção da tarifa de importação imposta
pelo bloco ao etanol brasileiro, mas defendeu a produção sustentável de álcool
combustível e a criação de modelos de certificação que garantam o processo. “A
Amazônia é uma região extremamente crucial e a mensagem que o presidente Lula
levou à Europa precisa ser seguida para termos boa base de cooperação”, afirmou
a comissária, segundo a CNA.
O
governo quer instituir um selo socioambiental para apoiar as exportações. A
possibilidade de plantio de cana na Amazônia é um dos motivos de pressão contra
o etanol brasileiro. Na viagem à Europa, em setembro, Lula descartou o cultivo
de cana na Amazônia, mas o ministro da agricultura, Reinhold Stephanes, em
entrevista concedida algumas semanas depois, admitiu o plantio em áreas
degradadas.
Ontem a
comissária almoçou com Gilman Viana e integrantes do Fórum Permanente de
Negociações Agrícolas Internacionais. Antes, reuniu-se com o ministro interino
da agricultura, Silas Brasileiro.
O
Estado de S. Paulo
16/10/2007
Comércio Exterior
Jamil
Chade
Às
vésperas da cúpula entre Brasil, África do Sul e Índia em Pretória, os países
emergentes prepararam nova proposta para o setor industrial na Organização
Mundial do Comércio (OMC), respondendo à pressão dos países ricos. A idéia,
liderada por Nova Délhi, é modificar a posição dos países em desenvolvimento,
mas manter as tarifas de importação de produtos industriais distantes do que
querem os ricos. Fontes próximas aos negociadores informaram que, para os
países ricos, se a nova proposta dos emergentes se concretizar, não haverá mais
o que negociar.
O texto
da proposta estava sendo negociado em sigilo e o vazamento da informação para a
imprensa deixou diplomatas nervosos. Estados Unidos e União Européia
insistiram, nos últimos dias, que a cúpula desta semana fosse usada para que
Brasil, Índia e África do Sul dessem sinais de flexibilidade. Para Washington e
Bruxelas, o corte deveria ser de pelo menos 66% nas tarifas.
A idéia
inicial dos emergentes era de que o corte fosse de “no máximo 50%”. A nova
proposta sugere que as tarifas de importação dos grandes países em
desenvolvimento sejam cortadas em “pelo menos 50%”. Em reuniões no primeiro
semestre, o Brasil indicou que estaria disposto a cortar suas tarifas bem acima
de 50%. Isso dependeria, porém, do que ganharia no setor agrícola.
O novo
texto será negociado a partir de hoje e já está agitando a OMC. Ontem, governos
como o da Venezuela deixavam claro que não aceitariam a proposta que está sendo
costurada pelos indianos. A idéia de Caracas e outros governos é que os emergentes
não poderão fazer um esforço de liberalização superior ao dos ricos. Pela atual
proposta que a OMC tem na mesa, os países desenvolvidos teriam de cortar 25%
suas tarifas industriais.
A
proposta ainda prevê que, quanto maior o corte de tarifas nos emergentes, maior
deveria ser a flexibilidade dada para que escolham setores que serão isentos de
liberalização. Um corte de menos de 40% nas tarifas, por exemplo, significa que
não haverá nenhum setor entre os sensíveis. Um corte acima de 60% implicaria
pelo menos 15% das linhas tarifárias de um país sob proteção.
A
proposta que está sendo costurada ainda sugere que as tarifas dos países ricos
para bens industriais fique, em média, em 5,9%. A França já indicou que a atual
proposta da OMC, que prevê números mais elevados, já não seria aceita por
Paris.
“Temos
sensibilidades nos setores automotivo e têxteis”, afirmou um negociador
francês. Nesse caso, a proposta parece tentar atender aos pedidos de China e
Índia, que já querem ganhar os mercados dos países ricos para os produtos
industriais. A China, por exemplo, já deve ser a maior exportadora do mundo em
2008.
Para
analistas, a jogada da Índia pode ser só uma forma de mostrar aos ricos algum
movimento, sem, na realidade, fazer concessões importantes. “A idéia parece ser
a de jogar a bola de volta ao campo dos países ricos”, afirmou um negociador.
Em
Pretória, os três governos devem assinar uma declaração em que se pedirá a
conclusão da Rodada Doha, mas de uma forma equilibrada, que respeite as
necessidades de desenvolvimento dos países e, sobretudo, coloque a agricultura
no centro da liberalização.
Ontem,
porém, os americanos silenciaram sobre o corte de subsídios, que poderia
arrancar concessões dos emergentes. Um novo rascunho de acordo deve sair em
duas semanas e a idéia era que a reunião de ontem em Genebra servisse para que
Washington deixasse claro qual seria a redução de subsídios que estaria
disposta a fazer. “Eles (americanos) não deram nenhum sinal”, afirmou Roberto
Azevedo, subsecretário de Comércio do Itamaraty.
Valor
Econômico
17/10/2007
Comércio Exterior
Raquel
Landim
"O
Brasil ganha, mas não leva." A afirmação é do ministro da Agricultura e
Pecuária do Brasil, Reinhold Stephanes, ao responder, em Bruxelas, a pergunta
de um jornalista estrangeiro sobre a possibilidade de o país retaliar os
Estados Unidos no painel do algodão. "É uma situação muito complicada,
porque nós ganhamos, mas não recebemos compensação pela vitória",
reclamou.
O Brasil
venceu os Estados Unidos nos tribunais da Organização Mundial de Comércio (OMC)
pela concessão de subsídios ilegais aos produtores de algodão. O processo se
arrasta por anos e o governo brasileiro permitiu que o prazo se estendesse na
expectativa de que facilitaria as negociações multilaterais da Rodada
Doha.
"A
pergunta é retaliar no quê?", disse Stephanes. Ele lembrou da
possibilidade de punir os EUA na área de propriedade intelectual, já discutida
pelo Itamaraty, mas ressaltou que se trata de uma grande potência e um
importante parceiro comercial. "É uma decisão de governo, não do ministro.
Em última análise, é do presidente da República. Dou uma opinião pessoal sobre
a complexidade de se adotar uma política de retaliação", disse
Stephanes.
Valor
Econômico
17/10/2007
Comércio Exterior
Raquel
Landim
O
comissário de saúde pública da União Européia, Markus Kyprianou, suavizou ontem
a ameaça de proibir a entrada de carne bovina brasileira no bloco.
"Tomaremos medidas, mas não tem, necessariamente, que ser o embargo.
Podemos exigir mais controle e testes", afirmou. "Depende da
seriedade e dos riscos dos problemas encontrados".
Após um
encontro com o ministro da agricultura do Brasil, Reinhold Stephanes, em
Bruxelas, Kyprianou pontuou que a principal preocupação da Comissão Européia é
com a saúde dos consumidores e do rebanho. Mas, ao mesmo tempo, reiterou que
não deseja introduzir barreiras desnecessárias ao comércio.
Questionado
por um jornalista se isso significava que estava afastado o risco de embargo à
carne brasileira, o comissário fez questão de frisar que qualquer decisão nesse
sentido "será baseada cientificamente, por nenhuma outra razão".
Kyprianou se referiu indiretamente à forte pressão de pecuaristas irlandeses
para que a UE deixe de importar carne bovina brasileira.
Em um
discurso para o Parlamento Europeu no início do mês, Kyprianou havia prometido
que proibiria a entrada do produto do Brasil se até o fim do ano o país não
cumprisse as medidas de controle sanitário com as quais se comprometeu. Com as
declarações de ontem, o comissário retomou uma postura mais moderada. Kyprianou
negou uma mudança de posição por pressão política, seja a favor ou contra a
proibição. "Ainda não vimos fatores que justifiquem o embargo, senão já
teríamos feito", disse.
Ele
manteve, porém, o fim deste ano como prazo limite para que o Brasil se adapte
às exigências sanitárias feitas pela UE. Ressalvou que o país já
"melhorou" o sistema e a legislação, mas afirmou que ainda há
"fraquezas" na rastreabilidade e no controle das fronteiras.
De
acordo com Stephanes, o Brasil já cumpriu ou está em vias de implementar cinco
das seis exigências da União Européia. Ele disse que o país aprovou uma nova
legislação sobre combate à febre aftosa, melhorou o controle do trânsito de
animais e adotou um certificado sanitário que é preenchido eletronicamente e em
papel moeda para evitar falsificação.
Os
europeus também solicitam um teste de eficiência de vacinação do rebanho.
Segundo o ministro, isso será feito por amostragem em dezembro, já que o
período de vacinação termina em novembro. Outra exigência da UE é mais
velocidade na divulgação do resultado de testes de doenças. Stephanes garante
que o prazo caiu de um mês para 24 horas. Stephanes lembrou que, recentemente,
três testes de aftosa com gado do Rio de Janeiro, Rondônia e Paraná, tiveram os
resultados divulgados em apenas um dia.
O
ministro admitiu, no entanto, que ainda existem deficiências na rastreabilidade
e no controle das fronteiras. Ele negou que a UE tenha estabelecido um limite
para que o Brasil cumpra esse pedido, embora Kyprianou tenha reforçado que o
prazo existe e expira em dezembro.
Conforme
Stephanes, o sistema de rastreabilidade do Brasil, conhecido como Sisbov,
cadastrou 10 milhões de cabeças de gado, o que é mais do que suficiente para
abastecer o mercado europeu, que compra por ano o equivalente a 3 milhões de
cabeças. O sistema, porém, inclui menos de 5% do rebanho brasileiro, que soma
210 milhões de cabeças. O Brasil é um dos maiores produtores de carne bovina do
mundo e exporta para 140 países.
Na
coletiva de imprensaem Bruxelas, Stephanes enfatizou que o mercado europeu é o
mais exigente do planeta, mas que a obrigação do Brasil é atender aos
consumidores. Ele também fez críticas contudentes a uma missão de pecuaristas
irlandeses, que visitou o país recentemente.
Segundo
Stephanes, a missão era "clandestina" e "existem muitas dúvidas
sobre como foram obtidas as fotografias", que comprometem o controle
sanitário brasileiro e foram exibidas pelos irlandeses em seu retorno à Europa.
"Essas pessoas deveriam estar... Nem vou dizer o que acho que deveria ser
feito com elas", desabafou o ministro brasileiro.
Entre 6
e 19 de novembro, uma missão técnica da UE estará no Brasil para verificar as
questões sanitárias. Serão três equipes, que prometem visitar diferentes
regiões do país. Com base nos resultados dessa inspeção, a comissão européia
tomara sua decisão final sobre o assunto.
Stephanes
também se reuniu ontem com o comissário de comércio da UE, Peter Mandelson, mas
a conversa se limitou ao potencial agrícola brasileiro e as negociações da OMC.
O ministro se encontra hoje, em Bruxelas, com deputados irlandeses e
ingleses.
A
jornalista viajou a convite da Comissão Européia
O
Estado de S. Paulo
17/10/2007
Comércio Exterior
Leonencio
Nossa
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem na República do Congo,
segunda parada de seu giro pela África, que pretende forçar uma negociação para
destravar a Rodada Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC). “Quero um
grande acordo para que a União Européia facilite a entrada dos produtos dos
países mais pobres e os Estados Unidos diminuam a quantidade de subsídios na
agricultura interna. E os países em desenvolvimento, como o Brasil,
flexibilizem seus produtos industriais”, declarou Lula, ao lado do presidente
do Congo, Denis Sassou-Nguesso.
Ele
ponderou, no entanto, que a flexibilização não pode causar danos às indústrias
dos países emergentes. “O problema é que essa flexibilização tem que ser
proporcional a cada país”, disse. “O que estou propondo é que os países ricos
parem de tratar os países pobres como se fossem pedintes”, prosseguiu Lula,
seguido de aplausos de autoridades.
Depois,
provocou risos quando comentou as boas relações de Nguesso com o Fundo
Monetário Internacional (FMI). “Quem é presidente do FMI não pode ser amigo de
ninguém”, brincou. Lula disse que dirigentes de órgãos do FMI e da OMC não
conhecem a realidade da América do Sul e da África, pois “nunca” pisaram em
países em desenvolvimento.
O
presidente comemorou a decisão da OMC de considerar ilegais, em relatório
divulgado ontem, os subsídios aplicados pelos EUA aos produtores de algodão.
“Isso é o que podemos chamar de vitória da unidade”, disse. “A verdade
verdadeira é que falar em livre comércio é muito mais fácil que praticar.”
Em sua
fala no palácio do governo, Nguesso afirmou que a simpatia da população do
Congo pelo Brasil vem de 1967, quando o Santos, tendo Pelé como destaque,
disputou uma partida em Brazzaville.
Ele
lembrou, ainda, a visita que fez à Bahia. “Estava na praia e vi que era o mesmo
povo.”
Correio
Braziliense
18/10/2007
Comércio Exterior
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Luciano
Pires
Da
equipe do Correio
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Daniel Ferreira/CB - 10/5/07 |
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Stephanes descarta possibilidade de embargo à carne em 2008 |
O
ministro da agricultura, Reinhold Stephanes, descartou ontem qualquer
possibilidade de embargo da União Européia (UE) à carne bovina brasileira em
2008. Stephanes, que está em viagem oficial à Europa, disse que o Brasil
cumprirá todas as exigências dos importadores sem contestação. Segundo ele, o
país abrirá suas portas para visitas de comitivas dos países que mais atacam a
pecuária nacional, como a Irlanda, para provar que os procedimentos são seguros
e respeitam regras internacionais de sanidade. “Exportamos para mais de 140
destinos e nunca tivemos problemas com a nossa carne”, afirmou.
Stephanes
informou que parlamentares estrangeiros poderão escolher visitar um dos 82
frigoríficos ou qualquer uma das 20 mil propriedades habilitadas a vender carne
de boi para a UE. O gesto é uma forma de amenizar uma série de pressões
políticas contra o produto brasileiro. A UE compra do Brasil somente carne
desossada e maturada.
O
Estado de S. Paulo
18/10/2007
Comércio Exterior
Jamil
Chade
A União
Européia (UE) reduz apenas de forma modesta os subsídios ao etanol. Ontem, em
Bruxelas, a Comissão - o braço executivo do bloco - recebeu luz verde da entidade
para cortar parte do pagamento que era feito aos produtores que comprovassem
que estavam usando parte de suas terras para a produção de bens que seria
usados para a fabricação do etanol. No total, a UE destinou 3,7 bilhões em
subsídios aos biocombustíveis em 2006. O corte significaria redução de 90
milhões.
O
mecanismo de apoio â produção foi criado em 2003 para incentivar os produtores
a se dedicar ao etanol. Até 2 milhões de hectares, os fazendeiros ganhariam 45
por hectare. Em 2007, porém, a área usada para o etanol chegou a 2,84 milhões
de hectares na Europa, o que acabou gerando custos extras ao orçamento da
Comissão.
Com a
alta nos preços do petróleo, Bruxelas acredita que não haveria mais motivo para
manter os subsídios nos mesmos níveis. A partir de agora, irá subsidiar apenas
70% da área plantada por produtor para bens usados na fabricação do etanol.
“Esses
pagamentos estimularam a produção européia”, disse Mariann Fischer Boel,
comissária de agricultura da UE. “Mas precisamos nos perguntar se ainda são
necessários. Hoje temos um mercado de etanol que está emergindo .” Apesar da
queda dos subsídios, as barreiras para que o etanol brasileiro entre na UE
ainda são significativas. O produto enfrenta uma barreira equivalente a 70% de
impostos.
Valor
Econômico
19/10/2007
Comércio Exterior
De
Brasília
Mesmo
com câmbio desfavorável e uma queda de 38% no ritmo das exportações entre maio
e setembro, o agronegócio brasileiro deve registrar recorde em 2007. Os
embarques no ano devem somar US$ 55 bilhões (+12%) e o saldo comercial atingirá
US$ 47 bilhões (+10%), segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária
(CNA).
O índice
de rentabilidade das exportações, calculado com base em uma cesta de moedas
captadas pelo Cepea, caiu de 11%, em março, para 3% em julho na comparação com
janeiro de 2006. Mesmo assim, a CNA aposta que as exportações do complexo soja
saltarão 29% em 2007, para US$ 12 bilhões. "Pela primeira vez, o Brasil
vai exportar mais soja em grão que os Estados Unidos", diz o especialista
em comércio exterior Antonio Donizeti Beraldo. "É o efeito dos preços
internacionais em alta". De janeiro a setembro, os preços cresceram 22,2%
e o volume recuou 3,2%.
Principal
aposta dos especialistas do setor, as vendas do complexo sucroalcooleiro
decepcionaram até aqui e devem fechar o ano em US$ 6 bilhões, resultado 28%
inferior aos US$ 7,7 bilhões registrados em 2006. "Os Estados Unidos
aumentaram a produção de etanol de milho e os preços do açúcar já caíram 19%.
Está difícil abrir novos mercados", avalia Beraldo.
No
complexo carnes, a CNA prevê expansão de 34%, para US$ 11,5 bilhões.
"Achávamos que as carnes passariam a soja. Mas houve greve de fiscais,
redução de consumo na Europa e a campanha da Irlanda contra o produto
brasileiro", diz Beraldo. As vendas de carne de frango devem voltar a
liderar os embarques, com US$ 5,6 bilhões ante US$ 5,2 bilhões da carne bovina.
A surpresa é o milho, cujas exportações já somam US$ 1,1 bilhão até setembro. A
CNA estima fechar 2007 com US$ 1,3 bilhões em vendas em razão da forte demanda
internacional e preços em alta.(MZ)
Valor
Econômico
19/10/2007
Comércio Exterior
Raquel
Landim
Nelson Perez/Valor

Peter Mandelson, comissário de Comércio da União Européia, sobre a postura do Brasil na Rodada Doha: "Não é aceitável se esconder atrás do Mercosul"
O comissário
de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, sente um "clima de Cancún
no ar" nas últimas semanas. Ele teme o fracasso das negociações da Rodada
Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC), e culpa o Brasil. "Não é
aceitável se esconder atrás do Mercosul como justificativa para a incapacidade
de dar uma contribuição razoável para o sistema multilateral", disse ao
Valor no seu gabinete no prédio Berlaymont, sede da Comissão Européia, em
Bruxelas. Ao citar Cancún, Mandelson se refere à reunião no fim de 2003, na
qual a negociação de modalidades deveria ter sido concluída, mas que terminou
em impasse com a criação pelo Brasil do G-20. Até hoje os países ainda não
chegaram a um acordo.
O Brasil
está novamente organizando as nações em desenvolvimento para pedir mais
flexibilidade para uniões aduaneiras, depois de concluir que será difícil
chegar a um acordo com a Argentina sobre a lista de produtos industriais
sensíveis. A iniciativa é apoiada pela África do Sul, mas irritou os gigantes
do comércio mundial, EUA e UE. "Não posso concordar com mais
flexibilidades e colocar isso como um acordo viável para os 27
Estados-membros", disse Mandelson. "Eles ririam de mim e eu
provavelmente mereceria."
Mandelson apoiou a iniciativa dos EUA de
limitarem os subsídios agrícolas conforme a proposta dos mediadores da OMC e
disse que um teto de "US$ 14 bilhões e alguma coisa" seria justo.
Questionado sobre a falta de clareza da UE na administração das cotas
agrícolas, reagiu de mau humor. "Antes que o Brasil acuse a UE de segurar
a negociação, pode ser uma boa idéia, pelo menos uma vez, tomar a iniciativa e
colocar sobre a mesa algum comprometimento, atender os interesses dos outros e
não apenas os seus."
Valor: O Brasil e outros países em
desenvolvimento estão pedindo mais flexibilidade para uniões aduaneiras como o
Mercosul na área industrial. Qual é a sua opinião sobre o assunto?
Peter
Mandelson: Não sei
exatamente o que o Brasil está buscando. Na última vez que conversei com Amorim
(ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores), ele disse que o Brasil estava
preparado para negociar com base nos textos propostos pelos mediadores em
agricultura e indústria. E que encorajaria outros a fazer o mesmo. Espero que
ainda seja o caso. Qualquer alternativa fora do texto, terá um efeito muito
negativo na negociação. Não acho que pedir flexibilidades adicionais seja
razoável quando as demandas para os países em desenvolvimento na indústria são
modestas. Em alguns países e setores, será necessário um ajuste de 1% ou 2% nas
tarifas atuais em dez anos. É um fardo intolerável para o Brasil? Ou qualquer
país em desenvolvimento similar dado o crescimento de suas economias nos
últimos dez anos? A impressão que tenho dos homens de negócios do Brasil é que
não. Concordo com o chefe do Departamento de Relações Internacionais da
Confederação Nacional da Agricultura quando diz que a proposta industrial do
Brasil é insuficiente. Ele vai além e afirma: "Se queremos fazer negócio,
temos que oferecer algo em troca". Acredito que ele está certo.
Valor: O problema do Brasil não é apenas
interno, mas chegar a um acordo com a Argentina..
Mandelson: No caso do Mercosul, apenas alguns
produtos sofrerão cortes reais. Não é aceitável se esconder atrás de uma união
aduaneira regional como justificativa para a incapacidade de dar uma
contribuição razoável para o sistema multilateral.
Valor: O sr. vê o Mercosul como uma união
aduaneira?
Mandelson: Temos negociações com o Mercosul
como um bloco, seria muito estranho eu dizer algo diferente disso.
Valor: Os EUA estão preparados para
reduzir os subsídios agrícolas para algo entre US$ 13 bilhões e US$ 16 bilhões.
É suficiente?
Mandelson: Foi um passo importante os EUA
aceitarem esse intervalo. Ao observar a média anual dos subsídios americanos, é
possível ver que entre 1995 e 2001, o país concedeu US$ 15,26 bilhões por ano.
Entre 2002 e 2005, foram US$ 15,85 bilhões. E, entre 1995 e 2005, foram US$
15,46 bilhões. Com base nesses dados, chego a conclusão de que US$ 14 bilhões e
qualquer coisa seria um teto justo.
Valor: Os Estados Unidos dizem que a nova
Farm Bill não é uma posição negociadora, mas o Congresso deve aumentar os
subsídios. Como o sr. vê isso?
Mandelson: É por isso que precisamos da
conclusão da Rodada, para limitar os EUA. O Congresso terá que aceitar o que
for acordado multilateralmente. E é por isso que é tão importante para o
Brasil. A única forma de reduzir subsídios distorcivos é através de negociações
multilaterais. Se perdemos essa oportunidade, não surgirá outra em um futuro
próximo
Valor: Os americanos estão negociando sem
a TPA (Trade Promotion Authority, autorização do Congresso para o Executivo
fechar acordos). É um risco?
Mandelson: Seria um risco se o Congresso
estivesse controlando a posição do USTR (US Trade Representative). Uma coisa é
negociar com o USTR. Negociar com o Congresso inteiro seria inaceitável. Eles
poderiam dizer ao USTR: "Vocês podem oferecer isso, mas não aquilo, caso
contrário não estenderemos a TPA". É por isso que sempre acreditei que é
muito importante renovar a autorização. No momento, parece que o Congresso não
está interferindo, mas eu não estaria confortável indefinidamente. A questão
central é conseguir um desbloqueio, fechando um acordo sobre as modalidades para
dar base ao Congresso americano para renovar a TPA.
Valor: É possível terminar essa
negociação de modalidades este ano? Caso contrário, as eleições americanas em
2008 podem atrasar ainda mais o processo?
Mandelson: Acho que podemos e devemos concordar
sobre modalidades até o fim deste ano. Não será fácil em 2008, dada a pressão
da corrida presidencial americana. Mas comecei a ficar preocupado. Venho
detectando um clima de Cancún reemergindo nas últimas semanas. Seria fatal para
a negociação. Essa é uma rodada do desenvolvimento, sim, mas isso não significa
que os países em desenvolvimento devem nos ver como rivais. Nesse ponto da
negociação, as pessoas estão nervosas e buscam tomar posições para conseguir as
melhores vantagens. Todos devem ganhar. Devemos ser homens de Estado e não
políticos. Isso significa considerar os interesses de todos. Terminar com um
acordo só em agricultura simplesmente não dará certo. Temo que tentem isso,
apesar do encorajamento que tive com o comunicado da reunião do IBSA (Índia,
Brasil e África do Sul). Os países em desenvolvimento precisam liberalizar o
comércio com outras nações em desenvolvimento. Essa não é uma questão
norte-sul, mas sul-sul. As maiores barreiras experimentadas pelos países em
desenvolvimento estão em seus próprios pares.
Valor: Por que o sr. acha que está um
clima de Cancún no ar?
Mandelson: Por causa dessa linguagem
norte-sul e a tentativa de estigmatizar. Diferentes países em desenvolvimento
têm diferentes necessidades. Não é errado concluir e dizer isso. Quando abordo
essa questão, sugerem que quero dividir os países em desenvolvimento. Não é
verdade. Estou simplesmente constatando um fato.
Valor: O Brasil reclama que a UE não
explica como as cotas agrícolas serão administradas. Quando isso vai
acontecer?
Mandelson: A União Européia indicou até onde
pode ir mais do que qualquer um. Antes de o Brasil acusar a UE de segurar a
negociação, seria uma boa idéia, pelo menos uma vez, tomar a iniciativa e
colocar sobre a mesa novos comprometimentos, demonstrar preparo para atender as
necessidades dos outros e não apenas as suas. É isso que gostaria de ouvir
nesse estágio e não reclamações infundadas de que não estamos fazendo o
suficiente em agricultura. Reduziremos pela metade as tarifas em agricultura e
indústria. Eliminaremos todas as tarifas altas que ainda existem na indústria,
como têxtil, confecção, sapatos ou pescados. Nos comprometeremos com a total
eliminação dos subsídios à exportação e com 80% de redução no apoio doméstico,
desde que os EUA façam algo proporcional. É uma oferta muito substancial que
está na mesa para que o Brasil e outros contribuam para o fracasso das
negociações. O que me intriga é porque o Brasil resiste, já que deve ganhar
tanto em agricultura e indústria e é solicitado a contribuir tão pouco. Se
avaliarmos o coeficiente mais ambicioso proposto pelo mediador industrial, o
Brasil se comprometerá a limitar as tarifas em uma média de 12,5%, que está
abaixo dos 11% aplicados atualmente. Agora, por favor, observe a Argentina.
Eles terão que se comprometer a manter as tarifas em uma média de 12,4%, o que
significa 20% acima dos atuais 10,4%. Se concordamos com mais flexibilidade
ainda, o que sobrou na negociação industrial estará perdido. Não poderia
colocar isso como um acordo viável para os 27 Estados-membros. Eles ririam de
mim e provavelmente eu mereceria.
Valor: As negociações entre o Mercosul e
a União Européia estão paralisadas desde 2004...
Mandelson: Não estão paralisadas. Temos uma
negociação multilateral em andamento. E na conversa com o Mercosul a
Agricultura é muito importante. Não podemos retomar até saber o que vai
acontecer com Doha. Todo mundo sabe disso.
Valor: Mas a UE começou a negociar um
acordo com a Comunidade Andina e se prepara para iniciar a discussão com a
América Central nos próximos dias. Por que essas negociações caminham e com o
Mercosul não?
Mandelson: Essas negociações não estão
caminhado. Os mandados acabaram de ser acordados. O que você espera ver na
próxima semana? Um acordo? É claro que não.
A
repórter viajou a convite da União Européia
Folha
de S. Paulo
03/11/2007
Comércio Exterior
DA EFE
As
negociações no setor agrícola da Rodada Doha foram adiadas de novo por pelo
menos duas semanas para maior ajuste de posições, decidiram ontem os
negociadores em plenário.
"Estamos
progredindo, as delegações estão trabalhando muito duro, as pessoas estão sendo
mais honestas, a sensação é de que se está tentando de verdade", disse o
principal negociador de agricultura e embaixador neozelandês, Crawford
Falconer.
Ele não
especificou quando a nova proposta pode estar pronta, mas disse que será ainda
neste ano e convocou uma plenária para o dia 14 para continuar as negociações.
Estado
de Minas
04/11/2007
Opinião
O
prestigiado jornal The New York Times (2/10), em matéria de página inteira, atribuiu
à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) o fato de o Brasil ser
superpotência agrícola, citando técnicos do Banco Mundial, o ex-secretário de
Estado norte-americano Colin Powel e o ganhador do Prêmio Nobel da Paz,
cientista Norman Borlaug. Na sua juventude, você se lembra de que carne de
frango era cara e rara, era prato de domingo. Lembra-se da carne de boi, dura e
cara, que laranja, melancia e abacaxi eram disponíveis somente num período
curto do ano. Você não conhecia soja. Hoje, tudo é diferente e isso não caiu do
céu. Foi resultado da visão de uns poucos brasileiros, chamada de exótica nos
anos 1970. Sonharam criar uma agricultura com as nossas características
sociais, ambientais e econômicas, num país de Terceiro Mundo.
Recentemente,
perdemos o nosso primeiro presidente, Irineu Cabral, que, na visão do cientista
e pensador Eliseu Andrade, era “paciente, hábil, competente no conciliar as
demandas do curto e do longo prazos, firme no seguir a rota traçada, sem fazer
concessões que comprometessem os fundamentos da Embrapa, sempre pronto ao
diálogo com o mundo do poder e da política, mas dentro do paradigma do
interesse maior da sociedade”. Herdamos esses valores.
Neste
mês, encerramos as comemorações dos 30 anos da Embrapa Gado de Leite, que se
iniciou com a visita do ex-presidente e ex-governador Itamar Franco. Como
presidente da República, ele lançou a pedra fundamental de nossa sede, em Juiz
de Fora, acompanhado de Mauro Durante, que, poucos sabem, era dos quadros da
Embrapa. E terminamos as comemorações dos 30 anos apresentando resultados,
lançando novas variedades de gramíneas e colocando à disposição dos pequenos
produtores uma nova tecnologia premiada para se produzir leite de qualidade.
Há três
pilares que sustentam o sucesso da Embrapa: 1) separamos política de política –
na língua inglesa existe esta diferença, com policy sendo a política feita com
bases técnicas para viabilizar mudanças (política econômica, agrícola),
enquanto que politics refere-se ao confronto de forças de poder para viabilizar
interesses, uns legítimos e outros nem tanto, e na Embrapa, fazemos policy; 2)
a continuidade – o sistema de gestão da Embrapa é premiado e reconhecido, em
qualidade e eficiência, nada deve ao do setor privado, com as decisões não
sendo personalistas; 3) tudo o que fazemos é em parceria. Por isso, apenas uma
pequena correção na matéria do The New York Times. Esta láurea é também das
universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo. Sem essa união,
estaríamos como os demais países do Terceiro Mundo. Mas, juntos, todos os
brasileiros colhemos os resultados: o Brasil, superpotência agrícola, graças à
tecnologia, como deu no influente jornal norte-americano.
*Chefe
da Divisão Gado de Leite da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa)
Valor
Econômico
06/11/2007
Comércio Exterior
Rafael
Rosas
O
governo brasileiro mostra-se otimista em relação ao andamento da Rodada Doha da
Organização Mundial do Comércio (OMC). O ministro das Relações Exteriores,
Celso Amorim, disse ontem que é possível um "progresso considerável"
nas negociações antes do fim do ano, mas ponderou que os principais avanços têm
de ser norteados por concessões de Estados Unidos e União Européia.
Amorim,
que participou da abertura da 2 Conferência Nacional de Política Externa e
Política Internacional, no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, afirmou
que, mesmo que a Rodada Doha não seja concluída este ano, chegará a bom termo
dentro de um ano ou um ano e meio. "Estamos muito próximos e falta um
pouquinho de vontade política para chegarmos até o resultado final."
O
ministro ponderou que os países em desenvolvimento não podem aceitar que todas
as "sensibilidades" dos países desenvolvidos sejam levadas em conta,
enquanto as necessidades dos países em desenvolvimento não são consideradas na
mesma proporção. Amorim recorreu a um esquema criado pelo diretor-geral da OMC,
Pascal Lamy, que defende a solução de problemas ligados aos três vértices de um
"triângulo" básico: subsídios agrícolas, acesso a mercados agrícolas
e produtos industriais. "O triângulo não pode ser equilátero, tem que ser
isósceles, e os dois lados maiores têm que ser da União Européia e dos Estados
Unidos. Essa é a proporcionalidade que procuramos", afirmou.
Amorim
disse que há condições de se chegar a bons acordos sobre os
"vértices" do triângulo. Para ele, os EUA já fizeram avanços na
questão dos subsídios agrícolas Já os europeus precisam avançar na questão do
acesso a mercados agrícolas. " Para o ministro, as eleições presidenciais
de 2008 nos EUA podem ser elemento de aceleração nas negociações, podendo ter
papel importante no desfecho da Rodada Doha. Para Amorim, o que deve ser
evitado é a leitura de que a corrida presidencial americana deve ser encarada
como motivo para que os países façam "concessões a qualquer
preço".
Valor
Econômico
09/11/2007
Comércio Exterior
Assis
Moreira
O Brasil
e o Canadá formalizaram ontem a denúncia contra todos os subsídios agrícolas
dos Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC). No dia 19, o Órgão
de Solução de Controvérsias examinará o pedido dos dois países para abertura de
um painel, que permitirá aos juízes investigarem os bilionários programas de
ajuda americana a seus agricultores. A decisão de contestar todos os subsídios
agrícolas americanos estava tomada desde julho, como o Valor antecipou. Foi
preciso porém o Brasil e o Canadá reunirem suas denúncias num único processo,
inclusive com base em novas informações dadas por Washington à OMC sobre o
volume de ajuda que concedeu no começo da década.
O caso
volta à OMC quando a Rodada Doha parece mais ameaçada do fiasco total. O grupo
de embaixadores dos países-chaves, que se reúne num café da manhã toda
quinta-feira, mostra forte reticência e, no meio de tensões, acredita que só no
ano que vem as manobras mais importantes podem ocorrer para desbloquear a
rodada.
Na
negociação agrícola, há algum avanço técnico, mas as divergências são
suficientemente grandes para desencorajar o mediador da discussão a preparar um
texto final de acordo, para facilitar as barganhas entre os ministros.
Na área
industrial, a situação é pior. A demanda do Brasil, Argentina e África do Sul
por flexibilidade adicional para proteger suas indústrias sofre rejeição dos
países ricos e também de algumas nações emergentes, como o México. O Chile
agora parece mais comedido na sua oposição ao tema. A questão de flexibilidade
maior para o Mercosul só poderá ser resolvida na grande barganha entre os
ministros e não nas sucessivas reuniões técnicas na OMC.
Além
disso, a China agora ameaça vetar um acordo industrial se não obtiver prazo
maior para cortar suas tarifas. Alega que, ao entrar na OMC, já cortou tarifas
demais, abriu seu mercado, importa bilhões de dólares a mais e precisa de mais
tempo para continuar liberalizando.
Outro
problema sério está na negociação sobre produtos ambientais, que devem ter
tarifas eliminadas ou bastante reduzidas. Os EUA e a UE rejeitam a demanda do
Brasil de incluir o etanol como produto ambiental, refletindo a confusão na
negociação. Basta ver que os Estados Unidos e a União Européia consideram na
Convenção sobre o Clima das Nações Unidas que o etanol justamente é um produto
ambiental e estimulam sua utilização para combater o aquecimento
climático.
No dia
15, o Brasil reúne ministros do G-20 em Genebra para insistir em suas posições,
a fim de influenciar o mediador agrícola no texto que este deverá divulgar até
o fim do mês. Esse deveria ser o texto final para um acordo. Mas a divergência
é tão grande que o mediador não tem como se arriscar muito. A nova disputa
agrícola entre Brasil e Canadá, de um lado, e EUA de outro, levará anos. No dia
19, os EUA vão bloquear o primeiro pedido de painel e ganhar tempo. Na reunião
seguinte do Órgão de Solução de Controvérsias, a demanda será aprovada automaticamente.
A
disputa focalizará programas e práticas agrícolas americanas que também foram
questionadas por Brasília na disputa do algodão, em 2004. Os dois países
reclamam que Washington excedeu o limite de US$ 19,1 bilhões de subsídios
autorizados por ano e que alguns programas são claramente ilegais, como o que
dá crédito à exportação. Os canadenses retiraram uma parte da denúncia, contra
subsídios ao milho, que é usado para produção de etanol, porque o preço
aumentou bastante nos últimos tempos, reduzindo a necessidade de ajuda
governamental.
Certos
analistas indagam como será possível provar que os EUA causam "sérios
prejuízos" aos agricultores brasileiros e canadenses, com os preços altos
das commodities em geral. O caso, porém, alveja as ajudas passadas - visando
por cortes futuros.
Valor
Econômico
21/11/2007
Comércio Exterior
De São
Paulo*
A União
Européia lançou ontem um polêmico plano de reformas na Política Agrícola Comum
(PAC). Apresentadas pela Comissão Européia (braço executivo da UE), as
propostas prevêem a redução de parte dos subsídios rurais, a eliminação
progressiva de cotas de produção de leite e o fim da garantia de preços para
cereais e o corte das ajudas individuais, entre outros pontos. Os temas serão
discutidos nos próximos seis meses por ministros da agricultura, produtores e
outras partes envolvidas.
As
propostas tentam aprofundar as mudanças da PAC de 2003, através da qual as
ajudas aos agricultores deixaram de estar ligadas a seus volumes de produção e
passaram a considerar o percentual ligado à quantidade produzida e também à
superfície cultivada.
A
iniciativa mais polêmica é a redução progressiva dos subsídios às grandes
propriedades do continente. Mariann Fischer Boel, a comissária para agricultura
da UE, defende que os produtores com renda de mais de ? 100 mil euros deveriam
ter os subsídios reduzidos. O cortes cresceriam progressivamente para os que
têm renda de ? 200 mil euros e ? 300 mil euros. Cerca de 80% da ajuda da UE vai
para só 20% das 7 milhões de fazendeiros do bloco.
A
proposta afetaria especialmente grandes proprietários do Reino Unido (como a
Rainha Elizabeth II e o Príncipe Charles) e as gigantescas cooperativas
agrícolas da Alemanha, República Tcheca e da Dinamarca. O Reino Unido advertiu
que 6,1 produtores (4% do total) seriam afetados. O ministro alemão da
agricultura, Horst Seehofer, advertiu para as conseqüências "catastróficas"
no leste do país - 5,3 mil seriam afetados.
A outra
proposta polêmica da Comissão é o fim dos preços garantidos para os produtores
da maioria dos cereais, tendo em conta o "nível elevado dos preços do
mercado". Esse mecanismo de intervenção deve recuperar seu objetivo
inicial de proteger os agricultores em caso de queda livre dos preços e deixar
de ser utilizado de maneira sistemática, diz Bruxelas.
Além
disso, Fischer Boel propõe a revisão do modo de concessão de subsídios fixos
aos agricultores, deixando para trás a base de rendimento histórico de cada
produtor para adotar um critério mais uniforme como a superfície
cultivada.
Valor
Econômico
22/11/2007
Comércio Exterior
Mauro
Zanatta
Alinhado
com a defesa dos produtores rurais, o Ministério da Agricultura vê na
iniciativa argentina uma tentativa de frear a perda de mercados externos
provocada pela política de retenções de seus produtos. "Ocupamos espaço da
Argentina no mercado mundial de carne e vamos fazer o mesmo na soja e no milho.
Vejo a iniciativa como uma idéia para evitar uma perda de espaço ainda maior
para o Brasil", avaliou, por telefone, de Roma, o secretário de Relações
Internacionais do Agronegócio do Ministério da Agricultura, Célio Porto.
"Querem nos levar a adotar a mesma política. Temos mais é que aproveitar o
erro da política agrícola deles para ocupar mais espaço no mercado
internacional dessas commodities."
O
secretário marca bem as diferenças de ênfase entre os parceiros comerciais:
"Estamos mais para incentivar as exportações, inclusive com recentes
subsídios ao algodão e à soja. Eles vivem um retrocesso em política agrícola. A
Argentina tem punido quem é mais competitivo. No Brasil, seria um contra-senso
tributar um setor tão dinâmico e competitivo", afirma.
Segundo
a avaliação do dirigente, os argentinos só puderam operar o sistema porque não
tiveram planos econômicos nem quebras de safras tão graves como os produtores
brasileiros. "Além disso, abandonamos a política de tributar mais as
matérias-primas e menos os produtos processados desde a Lei Kandir, o que é uma
política de país desenvolvido", afirma. "Há algumas diferenças entre
nós. A Argentina tem câmbio mais desvalorizado e pode taxar sem prejudicar a
renda do produtor. Aqui, os produtores estão endividados e precisam de renda
para pagar seus débitos", diz.
Valor
Econômico
22/11/2007
Comércio Exterior
Assis
Moreira
Países
importadores de alimentos enfrentam custo recorde para obter os produtos este
ano. O valor global dessas importações deve aumentar 21%, alcançando US$ 745
bilhões. A fatura dos países em desenvolvimento como um todo deve subir
25%.
Os dados
foram apresentados ontem pela Organização para Alimentação e Agricultura das
Nações Unidas (FAO), no comitê agrícola da Organização Mundial do Comercio
(OMC).
A
entidade faz a avaliação a partir do ponto de vista importador. Em outros
estudos, sempre destacou que o Brasil é um dos principais ganhadores, como
grande exportador competitivo.
Em
setembro, o custo dos alimentos era 37% maior do que no mesmo período do ano
passado. A entidade destaca que alta ou baixa de preços não é raro nos mercados
agrícolas. O que distingue a atual situação é como esse fenômeno está
propagado, afetando não algumas, mas quase todas as commodities
agrícolas.
Isso
leva consumidores de países importadores a pagar mais pelo pão, pasta, leite e
carne.
Segundo
a FAO, a atual situação, especialmente "atípica", só não eleva o
preço do açúcar, do qual o Brasil é o maior produtor mundial. Ao mesmo tempo,
porém, a ajuda alimentar fornecida por países ricos declina - é 45% menor do
que há oito anos.
"Existe
uma preocupação amplamente propagada sobre inflação causada pelos preços dos
alimentos", reiterou o representante da FAO na OMC, mencionado também
agitação social em alguns países devido à situação.
A
agência da ONU alertou os 150 países-membros da OMC que o fornecimento,
sobretudo de cereais, está ficando mais difícil , inclusive porque cresce sua
utilização na indústria. Os estoques, que já eram baixos no começo da estação,
devem ficar assim porque a produção global de cereais será suficiente apenas
para responder a utilização global.
Entre
julho e outubro, a média de preços do trigo dos EUA era 154% mais caro que há
oito anos.
Nas
projeções da FAO, o comércio deve diminuir este ano, também por causa da enorme
elevação dos custo de transportes. Nos últimos meses, o frete a partir dos EUA
para importadores principais, como o porto de Roterdã, Egito e Bangladesh, era
400% mais alto que em 2000.
Tudo
isso, além de problemas climáticos, guerra e conflitos civis em países
produtores pioraram o cenário para importação.
Outro
observador do comitê da OMC, a Agencia das Nações Unidas para o Comércio e o
Desenvolvimento (Unctad) insistiu que soluções de mais longo prazo para
segurança alimentar precisam incluir o corte de subsídios nos países ricos. Só
dessa forma, os agricultores dos países em desenvolvimento podem obter melhores
preços, melhorar infra-estrutura e produtividade.
Folha
de S. Paulo
22/11/2007
Comércio Exterior
MARCELO
NINIO
DE
GENEBRA
A
explosão nos preços das matérias-primas agrícolas levará o volume global de
importação de alimentos a bater um recorde histórico neste ano, atingindo US$
745 bilhões, 21% a mais que no ano passado. A previsão está num relatório da
FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), que
alerta para os efeitos negativos das altas para os países pobres que dependem
de importações de alimentos.
Segundo
o estudo, apresentado ontem na OMC (Organização Mundial do Comércio), o custo
da cesta básica de alimentos para os países menos desenvolvidos será neste ano
duas vezes maior que em 2000.
O
relatório da agência da ONU não cita produtos específicos, mas destaca que as
altas foram puxadas principalmente pelo setor de grãos e laticínios. "O
índice de alimentos da FAO subiu 9% em 2006 em comparação com o ano anterior.
Em setembro de 2007, ele estava 37% mais alto que no mesmo período do ano
passado."
O
relatório lembra que períodos de altas nos preços das commodities não são
incomuns nos mercados agrícolas, embora costumem ser mais curtos que os
marcados por preços baixos. Mas vê uma diferença no que ocorre hoje. "O
que distingue a situação atual é como o fenômeno se espalhou, atingindo não
apenas algumas, mas quase todas as principais commodities de alimentos."
Entre os
motivos citados pela FAO para o salto dos preços estão o aumento das
importações de alimentos -causado pela demanda crescente-, a queda no volume de
ajuda alimentar para os países pobres, que este ano deve ser 45% menor que há
oito anos, o encarecimento dos cereais e os maiores custos dos fretes
marítimos, que subiram 400% desde 1999.
"É
importante notar que, com exceção do primeiro fator [que deriva da inabilidade
dos países em ter uma produção que supra a sua demanda interna de alimentos],
todos os outros são externos e fora do controle dos governos."
Questionado
pela Folha sobre os possíveis efeitos negativos das altas das commodities
agrícolas, o diretor da OMC, Pascal Lamy, não se mostrou preocupado. Para ele,
trata-se de um fenômeno cíclico, que "fatores estruturais" tratarão
de corrigir "a médio prazo".
"Calculo
que as forças de mercado farão esse ajuste a médio prazo, com um aumento da
produção que atenda à demanda crescente", disse Lamy, repetindo seu mantra
habitual, de que a conclusão da estagnada Rodada Doha será um passo positivo
para a economia mundial. Entre outros motivos, porque ajudará a estabilizar os
preços das matérias-primas.
04/12/2007
Avicultura
DIMITRI
DO VALLE
DA
AGÊNCIA FOLHA
Os
criadores de frango do Paraná anunciaram que estão dispostos a pagar um preço
acima da cotação do milho plantado no Estado. O objetivo é assegurar comida
para seus aviários, que projetam crescimentos recordes para 2007 e o ano que
vem. Os empresários dizem estar preocupados com a escassez de milho no mercado
interno por causa do boom registrado pelas exportações da commodity neste ano.
A
intenção dos avicultores é negociar o pagamento de R$ 1 a mais pela saca de 60
kg, cotada hoje na região de Maringá, no noroeste do Paraná, a R$ 29. A
elevação no preço passaria a valer a partir da colheita da próxima safra, prevista
para março.
"Trata-se
de um incentivo aos agricultores. Assim, eles nos garantem um produto
específico e a gente ajuda a estabelecer um preço melhor para a mercadoria
deles", afirmou Domingos Martins, presidente do Sindiavipar (Sindicato das
Indústrias de Produtos Avícolas do Paraná).
De
acordo com o presidente do Sindiavipar, pelo menos 50% da produção paranaense
de milho teria que ser destinada exclusivamente para os aviários. Mais ração
significa manter a expansão do setor no Paraná, o principal produtor de frango
de corte do país e um dos dois maiores exportadores da ave, ao lado de Santa
Catarina.
A
projeção para 2008 é de crescimento de 15% nas exportações sobre o que já foi
comercializado neste ano.
Entre
janeiro e outubro de 2007, foram despachadas para o exterior 699 mil toneladas
de frango. Em comparação ao mesmo período de 2006, o crescimento foi de 13%.
Caso as
negociações com os produtores de milho fracassem, os criadores de frango
decidiram adotar outra saída: importar milho do Paraguai e da Argentina. Já
foram feitos contatos com representantes dos dois países.
Se o
problema persistir, os dirigentes das entidades que reúnem avicultores dos
Estados do Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, de São Paulo e de
Minas Gerais também concordam em reduzir a produção em 30%.
"É
melhor reduzir a produtividade e ter um lucro menor do que enfrentar a
incerteza de que não vai haver milho suficiente no mercado", afirmou
Martins.
07/12/2007
Comércio Exterior
MARCELO
NINIO
DE
GENEBRA
Os EUA
deveriam parar de "jogar para a platéia" e fazer as concessões
necessárias para que as negociações comerciais da Rodada Doha saiam do impasse
atual. A opinião é do embaixador brasileiro na OMC (Organização Mundial do
Comércio), Clodoaldo Hugueney, que reagiu com indignação a declarações
sarcásticas da representante do Comércio americana, Susan Schwab.
Em
encontro com exportadores americanos anteontem, Schwab comparou Brasil e Índia
a "adolescentes" que acabaram de tirar a carteira de motorista.
"Esses países agora se encontram na mesa principal. E estão descobrindo
que, com isso, vêm responsabilidade e obrigações. E que às vezes é difícil
estar na mesa principal, onde também se deve contribuir, não apenas
pedir", disse.
Para
Hugueney, Schwab expressou arrogância que reflete um período que já passou,
quando os países ricos impunham suas condições, e o resto do mundo era obrigado
a aceitar. "Já vimos o desastre que pode acontecer quando eles [americanos
e europeus] estão no banco do motorista", disse o embaixador, aproveitando
a metáfora automobilística.
Um dos
maus exemplos de liderança dos países desenvolvidos nas negociações comerciais,
segundo Hugueney, foi a conferência ministerial de Cancún (México), em 2003,
"que terminou em fracasso quando eles quiseram deixar a conta para os
países pobres".
"Foi
uma declaração sem sentido e infeliz, que só piora o clima das
negociações", disse Hugueney. "Em vez de agressões, o que os EUA
precisam fazer são concessões agrícolas para chegarmos a um acordo."
Na
opinião do embaixador, os EUA demonstram dissonância com o consenso obtido na
semana passada pelo diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, em torno de novo
cronograma para tentar tirar Doha do impasse.
O
calendário proposto por Lamy inclui a apresentação das propostas dos mediadores
sobre agricultura e tarifas industriais e de serviços no fim de janeiro, com a
ambição de fechar um acordo ainda em 2008, com mais de três anos de atraso. Não
por acaso, o cronograma coincide com o último ano do governo de George W. Bush.
A idéia
é concluir a Rodada antes da troca de governo nos EUA, para evitar um atraso
ainda maior. Antes disso, a Casa Branca precisa recuperar a autorização
especial do Congresso para negociar acordos sem que eles possam sofrer emendas,
também conhecido como "fast track" (via rápida), que venceu em junho.
"A
impressão que fica pela atitude do governo americano é que, como eles não têm
autoridade para negociar, preferem culpar os outros pelo fracasso."
Lançada
em 2001, a Rodada Doha deveria ter sido concluída em 2005. Mas a disputa entre
emergentes, que pedem o fim de subsídios à agricultura, e os desenvolvidos, que
querem a redução de tarifas industriais para ampliar suas fatias de mercado no
mundo em desenvolvimento, mergulhou as negociações num impasse que deve
atravessar 2008.
12/12/2007
Comércio Exterior
Assis
Moreira e Mauro Zanatta
Duas
restrições da União Européia deverão atingir o Brasil. A primeira, ainda nesta
semana, irá impor limites às exportações de carne bovina brasileira para os 27
países do bloco. A segunda será contra o etanol e o biodiesel. A UE adotará em
janeiro o critério de sustentabilidade ambiental na importação de
biocombustíveis, pelo qual será impedida a entrada de produtos obtidos a partir
de lavouras em regiões de floresta.
No
caso da carne, as restrições serão adotadas com base em conclusões da missão
técnica que esteve no país em novembro. Os inspetores constataram que o
controle sanitário brasileiro está longe do ideal e que o Brasil não cumpriu
toda a lista de ações que prometera executar, colocando em risco um negócio
superior a US$ 1 bilhão por ano. As restrições, porém, não impedirão a entrada
de todo o produto brasileiro, como querem irlandeses e ingleses.
O
Valor apurou que o Ministério da Agricultura já está preparado para enfrentar
as limitações, que devem incluir o fim da habilitação sanitária automática de
frigoríficos e a suspensão temporária do abate de bois oriundos de
confinamento. A imposição de uma "cota branca" para os embarques deve
passar pela obrigatoriedade de habilitação dos frigoríficos exportadores por
auditores europeus. O modelo, visto como um retrocesso na relação comercial
bilateral, é adotado por outros parceiros do Brasil, como Rússia e
México.
No
caso do etanol e do biodiesel, Bruxelas vai proibir a importação do produto
obtido de matérias-primas produzidas áreas úmidas ou de florestas, exigirá
provas de eficiência energética na produção, defesa da biodiversidade e
certificação, além de outras medidas. A definição de floresta a ser adotada -
área com mais de 20% de cobertura por árvores de 5 metros de altura - é
suficientemente ampla para barrar o biocombustível não só da Amazônia, mas
também do cerrado denso, como norte do Mato Grosso e mesmo o Triângulo
Mineiro.
A
cana-de-açúcar tem produtividade baixa na Amazônia e seu cultivo na região não
interessa economicamente ao Brasil. Mas o dendê, que se adapta à área de
florestas para a produção de biodiesel, está praticamente vetado pelo conceito
europeu.
UE
planeja mais restrições à carne bovina brasileira
Assis
Moreira
A União
Européia (UE) se prepara para restringir a importação de carne bovina do
Brasil, provavelmente limitando o número de companhias autorizadas a exportar o
produto para seus 27 países-membros. A decisão pode sair ainda esta semana. A
porta-voz do comissário de Saúde da UE, Markos Kyprianou, disse que "ele
[Kyprianou] está considerando ações que precisam ser tomadas, com base nas
conclusões da missão que esteve no Brasil em novembro" para avaliar o
controle sanitário na produção de carne bovina no país.
Outra
fonte da União Européia disse que autoridades brasileiras já foram informadas
de que a decisão é para breve, e que desta vez um endurecimento é
inevitável.
Segundo
a Reuters, Kyprianou teria revelado ontem a deputados europeus que propôs aos
outros comissários medidas duras contra a carne brasileira, com base nos
resultados da missão veterinária que esteve no Brasil em novembro. Sua
porta-voz não confirmou o relato. Ela disse que Kyprianou reuniu-se com os outros
comissários ontem, mas que não houve decisão por parte da Comissão, até porque
alguns deles tiveram de partir rápido para Estrasburgo, para se encontrar com
deputados.
A UE,
porém, não deve restringir toda a carne produzida no Brasil, como querem pecuaristas
irlandeses e ingleses. Um sinal disso foi uma carta do presidente da Comissão
Européia, José Durão Barroso, ao ombudsman da UE, rejeitando demandas dos
irlandeses e ingleses, dizendo que não havia razões para proibir toda a carne
brasileira. Associações de agricultores desses países recorreram ao ombudsman,
acusando a UE de pôr em risco a saúde dos consumidores ao não interditar a
carne brasileira. Desde outubro de 2005, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo
estão proibidos de exportar à UE por conta dos casos de aftosa nos dois
primeiros Estados.
Kyprianou
está sob pressão dos produtores há meses, e enviou uma missão vista como
decisiva em novembro. Os inspetores constataram que o controle sanitário
brasileiro está longe do ideal. E que várias medidas não estão funcionando,
pelo menos não como o governo brasileiro tinha prometido a Bruxelas. Uma das
maiores queixas é em relação ao sistema de rastreabilidade do gado (Sisbov).
Para os europeus, o Brasil não cumpriu o que prometera, colocando em risco uma
parte do comércio superior a US$ 1 bilhão por ano.
Quem
conhece a situação brasileira, sabe que a carne nacional não apresenta
problemas para o consumo. Isso, porém, não é facilmente compreendido na UE. E
há limites para o próprio comissário de Saúde, Kyprianou, continuar postergando
um parecer.
Depois
que a comissão tomar sua decisão, a medida será submetida aos 27
países-membros, divididos entre protecionistas como Irlanda e Inglaterra, e
outros que querem continuar importando os mesmos volumes de carne do Brasil,
como Itália e Alemanha.
12/12/2007
Grãos
São
Paulo, 12 de Dezembro de 2007 - O relatório do Departamento de Agricultura dos
Estados Unidos (Usda) não trouxe surpresas ao mercado de grãos. Boa parte dos
números divulgados ontem veio em linha com o que analistas esperavam.
Tradicionalmente, o levantamento de dezembro é considerado "morno".
Segundo
o Usda, a safra mundial de grãos será de 2,07 bilhões de toneladas, 4,27%
superior à 2006/07. Em relação ao relatório de novembro, houve uma leve
redução, registrada, principalmente, no trigo e no algodão.
"A
produção veio um pouco mais baixa em função de queda na Argentina, Canadá e
União Européia", afirma Élcio Bento, analista da Safras & Mercado. O
departamento projetou uma colheita mundial de 602,3 milhões de toneladas, 1,45%
acima da anterior, mas 99 mil toneladas abaixo do estimado em novembro. Bento
acredita que a menor oferta argentina se deva à geada ocorrida em novembro
naquele país. O analista não concordou, no entanto, com as projeções para o
Brasil, consideradas subestimadas. O Usda prevê uma colheita de 3,4 milhões de
toneladas, enquanto a consultoria projeta 3,8 milhões de toneladas.
Ontem,
os contratos futuros do grão encerraram o pregão em baixa na Bolsa de Chicago
(CBOT). O papel para março foi avaliado em 910,50 centavos de dólar por bushel,
2,05% abaixo do pregão anterior.
Para o
algodão, segundo Miguel Biegai Júnior, da Safras & Mercado, o relatório foi
um pouco baixista, mas dentro do esperado. "Normalmente é bem morninho em
dezembro", diz. O Usda projetou 118,76 milhões de fardos de algodão, 2,72%
abaixo da safra anterior.
A
"maior surpresa" do relatório foi a redução dos estoques de soja dos
Estados Unidos. Segundo Renato Sayeg, da Tetras Corretora, o mercado esperava
um estoque final de 5,35 milhões de toneladas - ficou em 5,03 milhões de
toneladas. "Por conta disso, ele é levemente altista", afirma. Ontem,
os contratos futuros de soja na CBOT encerraram o pregão avaliados em 1154,50
centavos de dólar o bushel para março, 0,89% acima de segunda-feira.
O Usda
projetou uma colheita mundial de soja de 221,59 milhões de toneladas, 5,94%
inferior à passada, mas 78 mil toneladas acima da estimativa de novembro. Outro
fato de destaque, segundo Sayeg, é a redução do destino de óleo de soja para a
produção de biodiesel nos Estados Unidos, que passa de 20,2% da safra para
18,3%. Segundo ele, isso pode ser um reflexo dos preços mais altos.
(Gazeta
Mercantil/Caderno C - Pág. 5)(Neila Baldi)