RELAÇÕES DE TRABALHO
CGU vê irregularidades na administração do Sistema S
Senado investiga 'falso escravo'
Fiscal afirma não ter visto
"trabalho escravo" no Pará
Ministério do Trabalho vai retomar a fiscalização de
fazendas
01/10/2007
Sistema S
|
Caio Guatelli -
13.fev.07/Folha Imagem |
Aluna do Senai, que ajuda na capacitação de profissionais, em SP |
JULIANNA
SOFIA
DA
SUCURSAL DE BRASÍLIA
Relatório
da CGU (Controladoria Geral da União) com base em 370 ações fiscais realizadas
no Sistema S mostra que praticamente 90% das entidades não conseguem passar no
pente-fino do órgão de controle. O levantamento, obtido pela Folha, detalha as
auditorias feitas em 172 unidades do sistema, das quais só 21 tiveram suas
contas consideradas regulares.
Em três
unidades do sistema, a CGU conclui que houve gestão irregular, enquanto em
outras 148 foram constatados problemas e a fiscalização indicou ressalvas na
avaliação das contas. O sistema é composto por nove entidades bancadas a partir
de recursos da folha de salário das empresas.
No
diagnóstico da controladoria, as principais falhas estão localizadas nas
compras de produtos e serviços e na contratação de pessoal -"conseqüência
de controles internos administrativos deficientes".
A partir
de denúncias encaminhadas à CGU, as auditorias também confirmaram
irregularidades no gerenciamento dos recursos em quatro unidades do Sistema S.
Nelas, os auditores apuraram sobrepreço em contratos de obras e serviços e
conflitos de interesse em licitações. Havia casos em que o contratante era
sócio na empresa contratada.
Nesse
grupo, a fiscalização ainda levantou pagamento de serviços em duplicidade,
prestação de serviços sem contratos, compra de produtos com dispensa de
licitação e por preços acima de mercado, além de desrespeito a prazos para
manutenção de documentos que provam pagamentos feitos.
As três
unidades com contas irregulares, segundo a CGU, são: Senar (agricultura) de São
Paulo e o Senar e o Senai (indústria) de Sergipe. Para a controladoria, nesses
casos, houve malversação de recursos públicos e os casos aguardam julgamento do
TCU (Tribunal de Contas da União). Já as unidades auditadas por irregularidades
de gerenciamento são o Sesi de Santa Catarina e a unidade de Rondônia e o
Sesc/Senac (comércio) do Espírito Santo.
O
Sistema S vem sendo alvo reiterado de críticas. No Legislativo, parlamentares e
ministros do TCU afirmam que as contas das entidades são uma caixa-preta, já
que o sistema é bancado com recursos parafiscais. No Executivo, o Ministério da
Fazenda estuda "garfar" uma parcela da receita do setor na proposta
de desoneração da folha de salários das empresas.
O
acúmulo de cargos na alta direção das entidades também é apontado como motivo
de preocupação pela CGU. Não são raras as situações em que o presidente de uma
federação ou confederação acumula o cargo de presidente de conselho nacional de
uma unidade com a de diretor de outra. Embora a sobreposição de funções não
seja ilegal, isso acaba dando superpoderes a dirigentes.
"Isso
tem contribuído sensivelmente para decisões que mais traduzem atos unilaterais
de interesse pessoal", afirma a CGU. A Folha apurou com técnicos que
atuaram nas auditorias que denúncias de uso da máquina do sistema em campanhas
eleitorais chegaram a ser investigadas, mas a controladoria não conseguiu
encontrar provas concretas. A lista de falhas e irregularidades do relatório
foi apurada em 2006. Neste ano, já foram feitas mais 200 ações nas entidades,
de acordo com a CGU.
As
entidades fiscalizadas foram as ligadas à indústria (Sesi e Senai), ao comércio
(Sesc e Senac), à Agricultura (Senar), ao transporte (Senat e Sest) e às
cooperativas (Sescoop).
A
controladoria afirma que 44% das ressalvas apontadas no relatório de 2006
referem-se a impropriedades na compra de bens e serviços. Nessa área,
destacam-se os problemas de formalização de contratos (30%) e contratos sem licitação
(27%). Na gestão e contratação de pessoal está a segunda área com maior índice
de ressalvas.
"Nem
o Congresso nem o Executivo exercem um acompanhamento dos recursos do Sistema
S, pois essa é a única receita pública que não transita pelo Orçamento",
diz o deputado federal e relator do PPA (Plano Plurianual) 2008-2011, Cláudio
Vignatti (PT-SC). Na votação da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), ele
chegou a apresentar uma proposta para incluir no Orçamento essas receitas, mas
sem sucesso.
Segundo
ele, houve lobby de setores do sistema para barrar a proposta. Já o ministro
Marcos Bemquerer, do TCU, diz que a caixa-preta reside principalmente nas
entidades em que o recolhimento da contribuição sobre a folha ocorre sem passar
pela Receita Federal.
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Com IURI
DANTAS, da Sucursal de Brasília
01/10/2007
Sistema S
DA
SUCURSAL DE BRASÍLIA
A Folha
tentou ouvir representantes de peso político do Sistema S sobre o relatório da
CGU, mas a cúpula das entidades evitou dar entrevistas sobre o assunto. O
presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), deputado Armando
Monteiro (PTB-PE), que também é presidente do conselho nacional do Senai,
alegou problemas de agenda e delegou a tarefa a terceiros.
O
sindicalista Jair Meneguelli, escolhido pelo presidente Lula para ocupar a
presidência do conselho nacional do Sesi, foi procurado pela reportagem duas
vezes e não se manifestou sobre o assunto. O diretor-superintendente do Sesi,
Antonio Maciel, afirmou por e-mail que, na análise da prestação de contas de
2006, não foi detectada nenhuma irregularidade em qualquer unidade do Sesi ou
do Senai que pudesse "importar dano ao erário".
Ressalvas,
acrescenta ele, "podem advir de diferenças interpretativas de uma dada
situação. Raramente contas são aprovadas sem que haja, pelo menos, recomendações
ou ressalvas de ordem formal", disse Maciel. Ele contestou que tenha
havido malversação de recursos públicos no Senai de Sergipe, conforme aponta o
relatório da CGU.
"O
atual modelo de prestação de contas é altamente transparente e participativo, o
que não quer dizer que o modelo atual não esteja sujeito a
aprimoramentos", afirmou.
Na CNA
(Confederação Nacional da Agricultura), a escalada para responder à Folha foi a
representante do departamento jurídico, Letícia Tamer, que afirmou que as falhas
apontadas pelos auditores da CGU costumam ser esclarecidas antes do julgamento
administrativo dos relatórios pelo TCU (Tribunal de Contas da União).
Tamer
afirmou que não dispunha de dados específicos sobre as suspeitas de malversação
de recursos identificadas nas unidades de São Paulo e de Sergipe do Senar. Mas
ressaltou que indícios localizados pela CGU não constituem culpa, uma vez que o
julgamento cabe ao TCU e, "na maioria das vezes", o que são
irregulares nas auditorias terminam virando ressalvas do tribunal na aprovação
das contas.
O Senar
de SP foi procurado, mas não respondeu à reportagem. O Senai de Sergipe e o
Sesc/Senac do Espírito também não responderam. No Sesi de Rondônia, ninguém foi
localizado. Com relação às contas do Sesi de Santa Catarina, a assessoria da
entidade informou, por e-mail, que o parecer da CGU é pela regularidade. A
única ressalva encaminhada ao TCU refere-se à recomendação de implantação de um
cadastro de pesquisa de preços para embasar as compras. A entidade concordou
com a recomendação e toma as providências.
A
assessoria de imprensa do Sest e do Senat afirmou que as entidades foram
citadas no relatório como pendentes de ressalvas, o que de forma nenhuma conota
irregularidade.
O
auditor-chefe do conselho fiscal do Senac, Claudecir Silva, afirmou que as
unidades do Senac são as que têm os maiores índice de aprovação por parte dos
órgãos de controle. Com relação ao Sesc/Senac do Espírito Santo, afirmou que a
controladoria busca comparar a gestão das entidades com o setor público.
Afirmou
ainda que as avaliações dos auditores representam apenas "um ponto de
vista", não impedindo que as contas sejam aprovadas pelo TCU.
(JULIANNA
SOFIA)
03/10/2007
Relações do Trabalho
Cley
Scholz
O caso
de um trabalhador com salário de R$ 2 mil mensais "libertado" como
escravo pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Trabalho Escravo do
Ministério do Trabalho será discutido hoje a tarde na Comissão de Trabalho
escravo do Senado e pode dar origem a uma investigação sobre os motivos que
levaram a fiscalização a autuar a empresa Pagrisa, que funciona há 40 anos em
Ulianópolis, no Pará. Os donos acusam os fiscais do Ministério do Trabalho de
terem feito uma falsa denúncia, apresentada como a maior autuação contra o
trabalho escravo no País, para tentar prorrogar um acordo com a Organização
Internacional do Trabalho (OIT), que financia programas de fiscalização. O
chefe da fiscalização e os donos da empresa serão ouvidos hoje às 15 horas no
Senado.
Todos os
1.108 libertados em junho e julho tinham carteira assinada. "Uma
investigação isenta vai mostrar que a Pagrisa jamais utilizou mão-de-obra
escrava, temos um largo histórico de responsabilidade social e bom
relacionamento com nossos funcionários", diz Marcos Vilella Zancaner,
presidente da Pagrisa, que vai depor hoje. Entre os trabalhadores citados como
escravos havia cortadores de cana, motoristas, operadores de máquinas pesadas,
técnicos de laboratório, jardineiros e porteiros.
A média
salarial era acima de R$ 600. Um mecânico ganhava cerca de R$ 2 mil e um analista
de laboratório de controle de qualidade havia voltado de um treinamento na
Escola Superior de Agricultura da USP, no interior de São Paulo, que custou R$
4 mil. Dirigentes sindicais da Federação dos Trabalhadores da Agricultura
fizeram uma investigação paralela à pedido da Contag e avaliaram que as
condições de trabalho não eram degradantes e as demissões determinadas pelo
Ministério do Trabalho não seriam necessárias.
03/10/2007
Relações do Trabalho
HUDSON
CORRÊA
DA
AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE
THIAGO
REIS
DA
AGÊNCIA FOLHA
Antes de
o grupo móvel do Ministério do Trabalho libertar, em julho, 1.064 trabalhadores
da Pagrisa por julgar que eles estavam em condição análoga à de escravos, a DRT
(Delegacia Regional do Trabalho) do Pará, do mesmo ministério, fez três blitze
na usina, mas afirmou que não encontrou esse tipo de situação.
Fiscais
da DRT do Pará -subordinada ao órgão de Brasília- estiveram na fazenda, em Ulianópolis
(417 km de Belém), em outubro e dezembro de 2006 e em fevereiro deste ano.
Encontraram irregularidades que, segundo eles, não configuravam trabalho
escravo.
O chefe
de fiscalização da DRT, José Ribamar Miranda da Cruz, diz que em outubro a empresa
foi apenas notificada para resolver a falta de água potável e de refeições em
condições higiênicas, ausência de banheiros (eram usados buracos) e de
equipamentos de segurança, além de um espaço inferior a um metro entre as redes
de dormir nos alojamentos. Na fiscalização feita de 23 a 28 de outubro havia,
segundo Cruz, 1.458 funcionários no local. Na do dia 4 de dezembro, a empresa
tinha 1.495 trabalhadores.
Na nova
fiscalização, foi constatado que a Pagrisa não recolhia o FGTS de 151
trabalhadores, atrasava salários e mantinha funcionários em turnos além do
horário legal (12 horas por 36 de descanso). A falta de banheiros, a
superlotação de alojamentos e a ausência de higiene com alimentos e água já
estavam resolvidos, segundo a DRT. Em fevereiro deste ano, os fiscais voltaram
à Pagrisa e encontraram apenas 559 trabalhadores, dos quais 43 estavam sem
registro.
Em
julho, porém, o grupo móvel encontrou irregularidades similares e as considerou
"flagrantes violações a normas trabalhistas, tipificadas no artigo 149 do
Código Penal", que condena quem "reduz alguém a condição análoga à de
escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer
sujeitando-o a condições degradantes de trabalho".
Entre as
semelhanças encontradas nas ações da DRT e do grupo móvel estão a ausência do
fornecimento de água potável, as precárias instalações sanitárias, a má
conservação das refeições, não-permissão de descanso e a superlotação.
"Nossa
fiscalização encontrou uma situação que não caracterizava [trabalho] degradante
e escravo porque era um momento diferente do que a equipe móvel encontrou em
julho. Não estava no período de safra", diz Cruz, que também não considera
que as irregularidades encontradas em 2006 -e similares às vistas em julho-
configuram trabalho escravo.
Para a
secretária de Inspeção do trabalho, Ruth Vilela, há diferenças entre as
fiscalizações locais, que são de rotina, e as do grupo móvel. Ela diz que a
visita da DRT de dezembro se deu apenas na usina, e não no campo. Quanto à do
grupo móvel, em julho, afirma que os fiscais perceberam "retenção de
salário por dívida", o que caracteriza cerceamento de liberdade.
Vilela
diz que a criação dos grupos móveis ocorreu justamente porque havia "uma
crítica de que a fiscalização local não se encontrava estruturada e
preparada" por temer represálias. "O que ainda existe é a indicação
política nesses locais. No grupo móvel não existe compromisso partidário."
03/10/2007
Relações do Trabalho
DA
AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE
DA
AGÊNCIA FOLHA
Quase dois
meses antes de o Senado criar uma comissão para fiscalizar a Pagrisa, os
senadores Flexa Ribeiro (PSDB-PA) e Kátia Abreu (DEM-TO), em discursos no
plenário da Casa, em 10 de julho, já inocentavam a empresa produtora de álcool
e açúcar de manter trabalho análogo à escravidão.
Ribeiro
pediu a criação da comissão e Kátia tornou-se relatora dos trabalhos. A
comissão, formada por oito senadores, esteve na Pagrisa em 20 de setembro e
afirma ter constatado que a empresa oferece condições adequadas de trabalho.
A
interferência dos senadores levou a Secretaria de Inspeção do Trabalho a
suspender as ações federais de combate ao trabalho escravo.
Os
discursos dos senadores ocorreram três dias antes de ficar pronto o relatório
do Ministério do Trabalho com dados sobre a fiscalização na Pagrisa, ocorrida
em julho.
"Não
podemos instalar no Brasil um tribunal de exceção, como está acontecendo
durante a vistoria do Ministério do Trabalho e Emprego", afirmou Kátia no
discurso. (HC e TR)
03/10/2007
Relações do Trabalho
Ullisses
Campbell
Da
equipe do Correio
Dois
vídeos apresentados ontem na comissão externa do Senado que investiga o uso de
mão-de-obra escrava na empresa Pagrisa, no Pará, aumentou a polêmica da
libertação de 1.064 trabalhadores ocorrida há dois meses. O primeiro vídeo,
apresentado pelo auditor do Ministério do Trabalho Humberto Célio Pereira,
mostra com detalhes as condições degradantes em que os funcionários da empresa
foram flagrados pelo grupo móvel do Ministério do Trabalho. As imagens revelam
dezenas de trabalhadores almoçando carne estragada e alojados sob um caminhão
para se protegerem do sol. O vídeo mostrou ainda esgotos a céu aberto e
alojamentos precários.
Para se
defender das acusações, os proprietários da Pagrisa apresentaram aos senadores
um vídeo institucional, feito em formato de telejornal, mostrando que a empresa
possui alojamentos com padrão de hotelaria. Uma das cenas arrancou risos dos
presentes: uma mulher não identificada perguntava aos funcionários da Pagrisa
se eles trabalhavam acorrentados ou sob a mira de metralhadoras.
O procurador
Antônio Luiz Fernandes, do Ministério do Trabalho, explicou que, para
caracterizar trabalho escravo, basta constatar os seguintes fatores: jornada
diária superior a 10 horas, servidão por dívida, trabalho degradante e
privacidade de liberdade. “Apenas essa última não foi encontrada na Pagrisa”,
disse Fernandes. O procurador explicou que, como o conceito de “trabalho
degradante” é amplo, os auditores geralmente atestam se a água usada pelos
trabalhadores é potável e se o alojamento é decente. “No caso da Pagrisa, os
funcionários dormiam amontoados e bebiam uma água escura”, denunciou Fernandes.
Ao depor
na comissão externa do Senado, Fernão Vilela Zancaner, sócio-proprietário da
Pagrisa, acusou o grupo móvel do Ministério do Trabalho de “libertar” mais de
100 funcionários que ganhavam até R$ 2 mil e que nada têm a ver com o campo.
Nesse rol estariam o porteiro da empresa, operadores de máquinas, técnicos de
laboratórios e um funcionário que acabara de chegar de São Paulo, onde fez um
curso técnico na Universidade de São Paulo (USP), cujas despesas foram
custeadas pela empresa. “Não há dúvida de que o grupo móvel cometeu excessos”,
disse Zancaner, que é réu em processo na Justiça Federal por manter
funcionários em regime análogo ao de escravidão.
O
auditor do trabalho Humberto Pereira disse que a equipe do grupo móvel passou
12 dias na empresa até concluir a demissão dos mais de 1 mil funcionários que
pediram para ser libertados. “Quando a gente encontra funcionários em condições
degradantes, mesmo que eles queiram continuar no trabalho, somos obrigados a
libertá-los”, disse Pereira. O procurador Luiz Fernandes completou, dizendo que
a liberdade do trabalhador é um bem indispensável.
Ontem, o
senador Paulo Paim (PT-RS) defendeu que a comissão que investiga se o grupo
móvel do Ministério do Trabalho cometeu excessos na Pagrisa seja extinta. Ele
argumentou que já existe uma subcomissão no Senado especialmente para isso,
presidida pelo senador José Nery (PSOL-PA). Paim considera “absurdo” instituir
uma comissão externa para tratar apenas de uma empresa.
Hoje, o
Ministério do Trabalho fará uma reunião para definir a data em que o grupo
móvel volta a atuar. Desde que os auditores ficaram sob a suspeita de cometer
excessos na Pagrisa, as atividades da equipe foram suspensas.
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No
caso da Pagrisa, os funcionários dormiam amontoados e bebiam uma água
escura
Antônio
Luiz Fernandes, procurador do Ministério do Trabalho
Não
há dúvida de que o grupo móvel do Ministério do Trabalho cometeu excessos
Fernão
Vilela Zancaner, sócio da Pagrisa
09/10/07
Relações do Trabalho
Ministério do Trabalho vai retomar a
fiscalização de fazendas
Secretária
Ruth Vilela deve pedir ajuda ao serviço de inteligência para dar segurança aos
fiscais; senador do PSOL afirma que Casa errou ao criar comissão.
JULIANNA
SOFIA
DA SUCURSAL
DE BRASÍLIA
O
Ministério do Trabalho deverá retomar na próxima semana as ações dos grupos
móveis de combate ao trabalho escravo. Segundo a secretária de Inspeção do
Trabalho, Ruth Vilela, a fiscalização poderá pedir ajuda do serviço de inteligência
do governo federal para realizar as operações em campo e garantir a segurança
dos fiscais.
A
fiscalização está suspensa desde o início da semana passada, quando a
Secretaria de Inspeção do trabalho decidiu paralisar as atividades depois que
um grupo de senadores contestou a atuação dos fiscais em uma empresa que produz
álcool no Pará, a Pagrisa.
Ontem,
depois de reunião extraordinária da Conatrae (Comissão Nacional de Erradicação
do Trabalho Escravo), Ruth Vilela afirmou que hoje e amanhã se encontrará com
os coordenadores dos oito grupos móveis para discutir a retomada dos trabalhos:
"No mais tardar na próxima semana voltaremos aos trabalhos aos
poucos".
A
secretária quer que sejam garantidos os direitos já previstos por lei de
autonomia e independência dos fiscais em suas ações. A principal reclamação de
Vilela é que, durante a ação fiscal ocorrida na Pagrisa, em que foram
libertados 1.064 trabalhadores, houve interferência de autoridades para tentar
impedir a autuação da empresa: o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) teria chegado
ao local com outras pessoas em um avião da própria Pagrisa.
Na
reunião da Conatrae, o senador José Nery (PSOL-PA), presidente da subcomissão
de combate ao trabalho escravo, disse que vai propor a extinção da comissão externa
do Senado que trata sobre o caso Pagrisa. Segundo ele, foi "um
equívoco" a formação da comissão externa e, depois de fechado o relatório
sobre a visita dos senadores à empresa, os trabalhos deveriam ser encerrados.
Nery
acrescentou que, na audiência da comissão especial em que auditores fiscais e
os donos da empresa ficaram frente a frente, representantes da Pagrisa não
apresentaram as provas esperadas de que houve abuso por parte da fiscalização
do Ministério do Trabalho. "Foram apenas insinuações e falácia. As provas
que esperávamos para contestar o relatório da fiscalização não foram
apresentadas", afirmou o senador.
Durante
a reunião do Conatrae, o ministro Paulo Vannuchi (Direito Humanos) disse que o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva sugeriu que o episódio da Pagrisa seja
usado para uma contra-ofensiva dos órgãos e entidades que combatem o trabalho
escravo. Segundo o ministro, o presidente propôs a realização de uma campanha
nacional sobre o tema.
09/10/07
Relações do Trabalho
Ullisses
Campbell
Da
equipe do Correio
O
ministro do trabalho, Carlos Lupi, anunciou ontem que o Grupo de Fiscalização
Móvel vai retomar na semana que vem as blitzes que libertam trabalhadores
escravos em propriedades rurais. Em uma reunião realizada ontem, a secretária de
Inspeção do trabalho, Ruth Vilela, pediu proteção e garantia aos auditores, que
estão com receio de trabalhar na Amazônia. O Grupo Móvel suspendeu as
atividades desde que a libertação de, aproximadamente, mil trabalhadores na
fazenda Pagrisa, no Pará, em julho, passou a ser investigada por uma comissão
mista do Senado.
Segundo
Ruth, a interferência de senadores nas atividades dos auditores fiscais poderá
abrir precedentes “perigosos” no interior do Pará, onde é comum prefeitos e
empresários desqualificarem as atividades do Grupo Móvel. “Os auditores só
voltarão a trabalhar se houver garantia de segurança e se não houver
interferências externas”, sentenciou Ruth.
Ontem, o
Sindicato Nacional dos Auditores e Fiscais do Trabalho (Sinait) entregou uma carta
ao ministro Lupi pedindo a demissão do delegado regional do trabalho do Pará,
Fernando Antônio Coimbra. O sindicato acusa Coimbra de ter dado apoio aos donos
da Pagrisa no dia em que a empresa foi autuada pelo Grupo Móvel. Na carta,
assinada pela presidente do Sinait, Rosa Maria Jorge, a entidade acusa o
delegado de ter viajado de Belém para Ulianópolis, sede da empresa, num avião
fretado pelos donos da Pagrisa. No mesmo vôo, estava uma comissão de
empresários da região, dois senadores e três deputados federais. “Entendemos
que esse grupo de empresários e políticos foi até a empresa intimidar os
auditores fiscais, que estavam libertando os funcionários”, disse Rosa Maria.
Desde
que os donos da Pagrisa questionaram no Senado a atuação do Grupo Móvel, uma
queda de braço entre o Ministério do Trabalho e empresários do setor produtivo
do Pará foi travada. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que
haja no estado pelo menos 25 mil trabalhadores escravos. Ontem, o Ministério
Público Federal no Pará convidou o auditor fiscal Humberto Célio Pereira da
Silva a prestar esclarecimentos sobre a autuação feita na Pagrisa. Até o início
da noite, o auditor ainda não havia recebido a notificação.
Segundo o ministro Carlos Lupi, o maior problema que envolve a prática de trabalho análogo à escravidão é conceitual. Segundo ele, muita gente ainda não sabe como definir esse tipo de mão-de-obra. A organização não-governamental Humanos Direitos se dispôs a fazer uma campanha nacional para esclarecer a sociedade o que é, de fato, trabalho escravo contemporâneo. A campanha teria à frente três atrizes de renome nacional que são fundadoras da ONG: Camila Pitanga, Letícia Sabatella e Dira Paes.
09/10/2007
Relações do Trabalho
A maior
incidência de trabalho escravo ocorre nas áreas de expansão agrícola da
Amazônia legal e do cerrado. Pará e Mato Grosso são líderes em libertações,
enquanto Piauí e Maranhão são os principais "fornecedores" de
trabalhadores, que rumam ao oeste fugindo da seca em suas cidades e deixando
para trás, por meses, suas famílias. Após o aliciamento pelos
"gatos", intermediadores que os "contratam", são levados às
grandes propriedades, derrubam a mata e preparam a terra em geral para a
prática da pecuária e para a produção de carvão vegetal, muito utilizado por
siderúrgicas paraenses para a produção de ferro-gusa e aço. Mais recentemente,
esses trabalhadores passaram a ser utilizados para o cultivo e colheita da
cana.
Mas o
produto do trabalho escravo não fica circunscrito a essas áreas. Um
levantamento feito pela ONG Repórter Brasil com base na chamada "lista
suja", traçou a cadeia produtiva de 80 dessas empresas. A constatação foi
de que há muito mais gente relacionada ao trabalho escravo do que se divulga.
Viu-se, por exemplo, que a soja de algumas fazendas autuadas era comprada por
empresas do porte de Cargill, Bunge e Coimbra, gigantes do setor. A carne em
alguns casos tinha como destino final supermercados do Sul e Sudeste de grandes
redes varejistas, como Carrefour e Wall-Mart. O estudo levou o Instituto Ethos
a firmar um pacto voluntário para que empresas e instituições cortem vínculos
em sua cadeia produtiva com empresas presentes na lista. Em pouco mais de dois
anos, quase 200 organizações de grande porte e de diversos setores aderiram,
inclusive as acima mencionadas.
17/10/2007
Relações do Trabalho
Niza
Souza, Fernanda Yoneya
Dois
anos e meio após a publicação da Portaria 86, do Ministério do Trabalho e
Emprego (MTE), ainda há dúvidas sobre a sua aplicação. A portaria tem tudo a
ver com as atividades rurais, pois aprova a norma regulamentadora (NR) de
segurança e saúde no trabalho em agricultura, pecuária, silvicultura,
exploração florestal e aqüicultura. É a NR 31. Alguns itens até tiveram
prorrogados seus prazos para entrar em vigor e ainda há pedidos para mudança de
texto.
A NR 31
é dividida em 23 itens, que definem desde os campos de aplicação das normas,
incluindo atividades industriais desenvolvidas em estabelecimentos agrários
(como beneficiamento de hortaliças, frutas e legumes), até especificação de
como devem ser os alojamentos de empregados (ter cama com colchões, armários
individuais, portas e janelas, entre outros) e os locais para preparo de refeições.
A norma
é considerada histórica, pois concretiza a Lei 5.889, de 1973, que dispõe sobre
saúde e segurança do trabalho rural. 'Em 1988, 15 anos depois, surgiram as NRs
1, 2, 3, 4 e 5, que hoje estão revogadas. Agora, a NR 31 substitui as
anteriores, prevendo todas as medidas de prevenção à saúde e à segurança do
trabalhador rural', explica o diretor do Departamento de Segurança e Saúde no
Trabalho do MTE, Rinaldo Marinho Costa Lima.
A NR 31
atinge todos os empregadores e trabalhadores rurais, sem exceção. Mas existem
faixas claras quanto às exigências. O item que trata da gestão de segurança,
saúde e meio ambiente de trabalho rural, por exemplo, prevê ações diferentes,
conforme o número de empregados. De acordo com a NR 31, todo estabelecimento
rural deve ser equipado com material de primeiros socorros, mas, no caso de
propriedades com dez ou mais funcionários, é necessário também ter uma pessoa
treinada.
Para
propriedades com até nove empregados, é dispensada a obrigatoriedade do item
que determina a criação de Serviço Especializado em Segurança e Saúde no
Trabalho Rural, (SESTR), que deve ser composto por engenheiro de segurança do
trabalho, médico do trabalho, enfermeiro do trabalho, técnico de segurança e
auxiliar de enfermagem.
17/10/2007
Relações do Trabalho
Ainda
sobre o SESTR, em estabelecimentos com de 10 a 50 trabalhadores a
obrigatoriedade também é dispensada, porém o empregador deve ter a formação
exigida ou contratar um técnico de segurança ou um SESTR externo. Já para
propriedades com mais de 51 trabalhadores, é obrigatória a constituição do
serviço (com exigência de 1 até 8 profissionais habilitados).
O
empregador rural com 20 ou mais empregados é obrigado a manter em funcionamento
uma comissão interna de prevenção de acidentes do trabalho rural, a Cipa Rural
(31.7). O número de membros na comissão varia de 2 a 12, conforme o número de
trabalhadores (31.7.3).
O presidente
da Comissão Nacional de Relações de Trabalho da Confederação Nacional de
Agricultura (CNA), Rodolfo Tavares, destaca que a norma se refere aos números
de empregados permanentes. E destaca que, em caso de contrato por período
determinado, os empregados safristas, o empregador deve estender a eles a
garantia das normas.
Para
ajudar os empregados rurais, a CNA dispõe, em seu site (www.cna.org.br) cópia
da NR 31 nas versões oficial e comentada, além de um lista de verificações, que
serve de referência para aplicação. 'O empregador rural também pode pedir
assistência ao sindicato rural de seu município', destaca Tavares.
17/10/2007
Relações do Trabalho
Desde a
adoção da NR 31, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) já fiscalizou quase
25 mil estabelecimentos rurais. Em 2005, ano de publicação da norma, foram
fiscalizados 7.954. Em 2006, foram 9.198. De janeiro a setembro deste ano,
7.818. Segundo o diretor do MTE, Rinaldo Marinho Costa Lima, os dados da
fiscalização mostram que a maioria das autuações se dá em razão da ausência de
condições básicas, e não das medidas mais complexas exigidas pela norma. As
irregularidades mais freqüentes são as de simples solução: trabalhadores
descalços, falta de local adequado para refeição, não-fornecimento de água
potável, falta de instalações sanitárias e alojamentos inadequados. 'Se os
empregadores oferecessem locais adequados para alojamento e alimentação,
instalações sanitárias, água potável em condições higiênicas, equipamentos de
proteção individual (calçados, bonés, etc), exames médicos admissionais e
material de primeiros socorros, teriam evitado mais da metade das autuações
efetuadas em 2007', diz ele.
Em 2006,
houve 4.477 multas por descumprimento de normas de segurança e saúde no
trabalho rural, dos quais 4.177 por infração à NR 31. 'Isso em um universo de
mais de 50 mil situações irregulares verificadas pelos fiscais, o que demonstra
que a inspeção do trabalho torna viável, na maioria dos casos, a chance de
regularização das infrações.' De janeiro a setembro, foram 4.569 autos, sendo
4.361 capitulados na NR 31. O infrator está sujeito a multa entre R$ 680 e R$
6.800 por infração e até à interdição de máquina, edificação ou
estabelecimento.
17/10/2007
Opinião
A
discussão é a seguinte: o governo federal está elaborando um zoneamento
agroecológico e a partir dele, e com base no aprimoramento do zoneamento
agropecuário tradicional, vai elaborar ações para que a ocupação do território
brasileiro, por meio da produção agropecuária, se dê em bases ambientalmente
mais sustentáveis. Embora seja prematuro julgar o que vem por aí como
resultado, o momento ainda permite discussões de cunho conceitual sobre
implementação de políticas que emergirão a partir desse trabalho.
A
motivação central para a preparação desse zoneamento é a constatação de que a
preservação de florestas, matas e áreas ambientalmente mais frágeis não vai
ocorrer da forma como o governo espera se o Estado brasileiro não interferir na
expansão da produção agropecuária. A percepção aqui é de que as exigências
ambientais já impostas sobre a agricultura pela legislação brasileira não
seriam suficientes para garantir os objetivos de conservação e preservação a
serem definidos, ou já definidos, por nosso atual governo.
Este
artigo não visa a julgar esses objetivos. É importante, no entanto, avaliar as
alternativas de políticas que podem ser utilizadas para que eles sejam
atingidos. Existem duas alternativas mutuamente excludentes que precisam ser
cotejadas: desenvolvimento de um conjunto de incentivos que levem os produtores
a se alinhar com os objetivos de conservação e preservação, ou seguir pelo
caminho do “certo” e do “errado” e buscar a implementação do “certo”, de acordo
com o desejo de algum mágico formulador de política de Brasília, pela via da
punição. Já posso afirmar que, avaliando os discursos de autoridades, a segunda
alternativa é a preferida pelo governo brasileiro. O problema, e o governo
precisa reconhecer isto antes de criar políticas que venham restringir o uso da
terra pelos produtores, é que a alternativa da punição não vai funcionar.
O dilema
entre uso de incentivos e do poder de coerção do Estado - neste artigo, chamado
de punição - é um debate antigo na economia e no direito. Simplificando,
economistas preferem a primeira opção e juristas tendem a preferir a segunda. O
Estado brasileiro tem, por tradição, optado pelo caminho da coerção. Temos uma
enorme dificuldade de formular políticas que estimulem a sociedade a buscar seu
próprio equilíbrio. No Brasil, muito em função da nossa escassa tradição
liberal, existe a percepção de que quem deve definir esse equilíbrio é o
Estado. Quando o objeto de política é um bem público - no caso, florestas,
matas e outros ecossistemas -, é aceito como dogma que apenas o Estado sabe
dizer o que é “certo” ou “errado” e a sociedade, sendo incapaz de preservar os
recursos naturais por auto-regulação, precisa ser guiada por leis e sistemas
rígidos de punição.
Para dar
um exemplo pertinente a este artigo, basta olhar o Código Florestal. Parece
impressionante, mas, se existe um consenso que é propalado em unívoco entre
produtores e ambientalistas, no Brasil e no mundo, é o fato de que a legislação
florestal brasileira é uma das mais modernas da atualidade. Isso porque não se
encontram por aí países que exijam que seus produtores preservem 20%, 35% ou
80% de sua propriedade com a vegetação florestal original da região onde ela
está localizada. Estrangeiros tendem a se surpreender com isso e,
freqüentemente, nos perguntam: que tipos de instrumentos o governo utiliza para
incentivar o produtor a cumpri-la? A verdade é que não há incentivo algum para
o produtor cumprir as exigências de conservação. Ele deve cumprir simplesmente
porque está previsto em lei.
O que
interessa aqui é que o Brasil optou pela alternativa da punição na definição do
papel do setor agrícola na conservação florestal. O que defendo neste artigo é
que, se o governo optar pelo caminho da punição nas ações que emergirão a
partir do zoneamento agroecológico, vai fracassar. Nem os objetivos de
estimular uma produção agropecuária mais amigável ambientalmente serão
atingidos, nem o governo verá o setor produtivo engajado nesse processo. Se a
punição funcionasse, o zoneamento agroecológico não seria necessário, porque o
próprio Código Florestal estaria garantindo o equilíbrio entre produção e
conservação.
Se, até
hoje, o papel de conservação florestal do setor agropecuário foi imposto pelo
Estado e, mais recentemente, pela ação das ONGs, essa experiência mostra que um
equilíbrio balanceado só será alcançado se o agronegócio participar ativamente
do processo. Coerção e punição, portanto, não são a saída. Incentivos são a
única estratégia de política com alguma chance de sucesso.
Está em
curso um processo de mudança no agronegócio: conservação de ecossistemas e
redução de emissões de gases efeito estufa não são mais, necessariamente,
entendidos como imposições exógenas. Ainda que lentamente, e circunscritos às
cabeças das boas lideranças e dos pensadores do setor, ambos os itens estão se
transformando em papéis naturais da atividade agropecuária. Se eu estivesse no
papel de formulador de políticas, procuraria entender esse processo e tirar
proveito dele.
O
governo tem à sua disposição um leque de mecanismos de incentivos que podem ser
utilizados para transformar o zoneamento agroecológico num objetivo do setor,
em vez de uma imposição de Estado. Esses incentivos, no entanto, pressupõem um
novo conceito de política agrícola, incluindo aí aquelas voltadas para produtores
comerciais e familiares. Mais do que isso, esses instrumentos exigem um longo e
transparente processo de negociação, que, na ótica do governo, pode não ser bem
aceito. As políticas que nascerão do zoneamento agroecológico vão dizer-nos se
o Estado brasileiro evoluiu o suficiente para aceitar a via dos incentivos como
forma mais eficiente de buscar os objetivos de conservação e preservação no
meio rural.
André
Meloni Nassar é diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações
Internacionais (Icone). E-mail: amnassar@iconebrasil.org.br
17/10/2007
Editorial
O
agronegócio brasileiro pouco terá a ganhar com a conclusão da Rodada Doha de
negociações comerciais, afirmou o ministro da agricultura, Reinhold Stephanes,
em entrevista publicada segunda-feira no Estado. Foi uma declaração
surpreendente. Para o governo brasileiro, a reforma do comércio agrícola é a
meta principal da rodada. Essa tem sido a posição oficial desde o lançamento
das conversações, em 2001. Essa mesma bandeira inspirou a formação do Grupo dos
20. Se a diplomacia nacional insiste em evitar o colapso final da rodada, é
porque não desistiu, pelo menos explicitamente, de alcançar pelo menos em parte
aquele objetivo.
O acordo
possível neste momento, como já se admite abertamente, ficará abaixo do
ambicionado na fase inicial das negociações, mas ainda poderá valer a pena,
segundo avaliam os diplomatas. Mas não haverá pelo menos um grão de bom senso
nos comentários do ministro da agricultura?
Ele
manifestou ceticismo em relação a dois pontos. Em primeiro lugar, na sua
opinião é altamente improvável a conclusão da rodada. Em segundo lugar, as
concessões oferecidas pelo mundo rico, se houver algum acerto final, não
produzirão efeito concreto. A primeira dúvida é pertinente neste momento.
Quanto mais se alonga a discussão, piores se tornam as condições políticas para
um acordo final. Nos Estados Unidos, será uma enorme surpresa se algum
candidato à presidência defender maiores concessões comerciais. Do lado
europeu, não haverá novas ofertas se os americanos não se mexerem. O governo
brasileiro não cederá mais um palmo, se as economias mais avançadas não
emitirem sinais encorajadores.
Já a
segunda tese é bastante discutível. O Itamaraty saberá discernir se uma oferta
- por exemplo, de redução de subsídio - será efetiva ou se, ao contrário, não
será mais que um conto-do-vigário. “Concessões” desse tipo serão recusadas e
não haverá acordo. A questão relevante é outra: se houver concessões de fato,
valerá a pena obtê-las em troca dos benefícios pedidos pelos negociadores do
mundo rico? Ou, ainda: será equilibrada a distribuição de encargos entre países
desenvolvidos e países em desenvolvimento?
Mas o
ministro da agricultura parece ter razão pelo menos quanto a um ponto: as
condições do mercado internacional serão determinadas nos próximos anos, em
grande parte, pela evolução da demanda, agora influenciada pelo rápido
crescimento econômico da China, da Índia e de outros países dependentes da
importação de alimentos e matérias-primas. Esses países recorrerão aos
produtores eficientes, para evitar inflação, e o Brasil será um dos mais
qualificados para atender à procura crescente.
Em vez
de dar tanta ênfase à Rodada Doha, acrescentou o ministro, o Brasil deveria ter
procurado acordos específicos com diferentes mercados - sem se dar conta de que
estava fazendo uma crítica ao presidente da República, que ainda ontem insistia
na importância de Doha. Mas teria sentido buscar acordos apenas para o comércio
agrícola? Certamente não, no caso dos mercados mais desenvolvidos. Com
Washington e Bruxelas teria sido necessário negociar acordos mais amplos de
comércio.
Mas o
governo brasileiro decidiu em 2003 torpedear a Alca. Os americanos podem ter
contribuído para o fracasso da iniciativa, mas o principal esforço para impedir
o acordo partiu de brasileiros e argentinos. Além disso, Brasília jamais
conseguiu combinar com os sócios do Mercosul uma estratégia eficiente de
negociação com os europeus.
O ministro da agricultura parece haver esquecido esses pontos. Depois, americanos e europeus sempre hesitaram em discutir isoladamente concessões no comércio agrícola com os sul-americanos. Nos dois casos, no entanto, teria provavelmente valido a pena levar adiante as conversações com uma pauta mais ampla de interesses. Parte da indústria teria sem dúvida apoiado iniciativas desse tipo. Teria sido preciso convencer e mobilizar a outra parte. Outros países em desenvolvimento ganharam com acordos desse tipo, menos tímidos e mais amplos quanto aos objetivos, e o Brasil com certeza poderia ganhar
17/10/2007
Relações do Trabalho
MÁRCIA
BRASIL
DA
SUCURSAL DO RIO
Três
homens acusados de integrar uma quadrilha que explora trabalho escravo na
Baixada Fluminense foram presos ontem durante uma operação conjunta entre a
Polícia Federal e o Ministério Público. O quarto integrante está foragido. A
quadrilha é acusada de manter 60 vendedores ambulantes, trazidos de Pombal (PB)
com promessas de empregos para vender redes, tapetes e panelas no Rio, em troca
de moradia.
As
investigações começaram há uma semana, depois que um dos empregados fez
denúncia à Delegacia Regional do Trabalho. O delegado da PF de Nova Iguaçu,
Laior Pina, que fez as prisões, afirmou que o dinheiro ganho pelos empregados
seria repassado aos patrões para cobrir moradia e alimentação.
18/10/2007
Relações do Trabalho
DA
SUCURSAL DE BRASÍLIA
A Câmara
aprovou ontem à noite o projeto de lei do governo que legaliza as centrais
sindicais e garante às entidades uma fatia do imposto sindical. A partir de
2008, as centrais passarão a receber 10% do valor arrecadado com a cobrança do
imposto pago pelos trabalhadores.
Na
votação, a oposição conseguiu aprovar uma mudança que poderá dificultar o
recolhimento do imposto, que hoje é descontado direto na folha de pagamento.
Uma
emenda do deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) incluiu no texto que a partir de
agora será necessária a autorização do trabalhador para o desconto do imposto
sindical na folha.
Para
sindicalistas, isso tornou optativo o pagamento do imposto. O deputado federal
Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), que é presidente da Força Sindical, disse que
isso acabará com os sindicatos, que perderão sua maior forma de financiamento.
Com a
legalização das centrais, a estimativa é que as entidades ganhem um reforço de
caixa de R$ 50 milhões a R$ 125 milhões por ano.
Pelas
regras atuais, do total arrecadado com o imposto sindical (um dia de salário do
trabalhador) 20% vão para o governo.
18/10/2007
Relações do Trabalho
Arnaldo
Galvão
Ruy
Baron/Valor DF

Carlos Lupi, ministro do Trabalho: qualificação profissional pode reduzir despesas com seguro-desemprego
O
aumento dos gastos com seguro-desemprego e abono salarial está deteriorando as
contas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). O Ministério do Trabalho
calcula que, neste ano, serão desembolsados R$ 12,74 bilhões com o
seguro-desemprego, o que significa crescimento de mais de 16%, em valores
nominais, sobre o gasto do ano passado. No caso do abono salarial, o governo
prevê gastar R$ 5,89 bilhões este ano, o que representa elevação de 20%. E as
receitas vão crescer apenas 2,4%.
As
projeções para os próximos três anos, feitas pelo Conselho Deliberativo do FAT
(Codefat), são alarmantes. Elas consideram aumentos de até 28% nessas despesas,
o que acaba comprometendo também a capacidade de financiamento do BNDES, já que
o FAT é uma de suas fontes, e apontam para déficit tanto operacional (total das
receitas) quanto primário (que inclui só as receitas líquidas do PIS/Pasep) já
em 2009.
O
presidente do Codefat, Luiz Fernando Emediato, está preocupado com a corrosão
dos recursos do FAT e disse que o BNDES já comunicou ao conselho que, em 2008,
para projetos aprovados no valor de R$ 90 bilhões, apenas R$ 60 bilhões são
recursos garantidos e qualquer perda de receita do FAT fará diferença.
Ele acha
que o aumento das despesas com o pagamento de benefícios decorre do crescimento
da rotatividade no mercado de trabalho, apesar do expressivo aumento do emprego
formal. O Codefat encomendou uma auditoria para investigar denúncias de
demissões simuladas, principalmente em pequenas e micro-empresas. São acordos
cujo objetivo é dar renda extra aos empregados, com trabalho informal durante
algum tempo e promessa de posterior contratação.

Além da
elevação das despesas, há, ainda, a perspectiva de redução de uma das fontes do
FAT. A cota do imposto sindical que fica com a União (20% do total) pode cair
pela metade se o Congresso aprovar projeto que reconhece as centrais sindicais
e dá a essas entidades 10% da arrecadação do tributo, que equivale a um dia de
salário de todos os trabalhadores.
O fluxo
de receitas e despesas elaborado pelo Codefat, com projeções até 2010, mostra
uma trajetória preocupante. Neste ano, apesar da previsão de superávit
operacional de R$ 2,9 bilhões, vai haver déficit primário de R$ 5,7 bilhões. O
resultado operacional considera outras receitas do fundo. O resultado primário
contabiliza apenas a receita líquida das contribuições do PIS/Pasep deduzidas
da Desvinculação de Receitas da União (DRU).
O
cenário previsto pelo conselho para 2008 indica superávit operacional de R$
1,58 bilhão, apesar de o déficit primário crescer para R$ 7,8 bilhões. Para
2009, porém, as projeções são de déficit operacional de R$ 866,3 milhões e
resultado primário também negativo em R$ 10,98 bilhões. O pior quadro é o de
2010, com déficits de R$ 2,29 bilhões (operacional) e R$ 12,97 bilhões
(primário).
O FAT é
alimentado, principalmente, pelas contribuições ao PIS/Pasep, cuja alíquota no
regime não-cumulativo é de 1,65% sobre o faturamento das empresas. Boa parte
dessa arrecadação (40%) tem de lastrear as linhas de financiamento do BNDES. O
banco também usa dinheiro do fundo - remuneração dos depósitos especiais - para
apoiar as empresas com capital de giro e financiamento de investimentos. Em
2006 foram emprestados R$ 16 bilhões a partir dessa fonte. Neste ano o volume
caiu pela metade. Os mais pessimistas acreditam que 2008 ficará com apenas R$ 3
bilhões.
O
ministro do Trabalho, Carlos Lupi, acredita que poderá reduzir os gastos com
seguro-desemprego com a ampliação da qualificação profissional. Ele informou ao
Valor que, em 2006, 5,7 milhões de pessoas receberam seguro-desemprego, ao
custo de R$ 10,9 bilhões. Neste ano, de janeiro a setembro, 4,5 milhões de
pessoas já foram beneficiados, com despesa de R$ 9,37 bilhões para o governo. A
previsão é chegar ao fim do ano com um gasto total de R$ 12,74 bilhões, com 6,1
milhões de trabalhadores.
"Em
seis meses, dobrei os recursos para qualificação e acredito que teremos verbas
extraordinárias", disse o ministro. O volume de recursos para essa
finalidade em 2007 era de R$ 110 milhões, correspondente a 40 mil beneficiados.
Segundo Lupi, o orçamento para qualificação de trabalhadores cresceu para R$
220 milhões neste ano, mas já está garantido quase R$ 1 bilhão para 2008. A
aprovação de emendas de bancada no Congresso ainda pode agregar R$ 600
milhões.
O
ministro usa os números do Sistema Nacional de Emprego (Sine) para defender sua
principal bandeira. Em 2006, 900 mil vagas - metade do total - não puderam ser
preenchidas por falta de profissionais qualificados. Neste ano, de janeiro a
setembro, esse volume saltou para 1,3 milhão de vagas que permanecem abertas. A
construção é um setor que já tem dificuldade para contratar
trabalhadores.
O
ministro também revelou que está negociando com o Sistema S (CNI, CNC, CNA e
CNT) convênios para usar a estrutura dessas entidades para qualificar
trabalhadores. O governo bancaria metade do custo. Ele espera que as parcerias
comecem no início de 2008. O grande desafio é evitar a fraude, mas Lupi deseja
que o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial
(Inmetro) controle a qualidade dos cursos. "Vamos negociar os valores,
porque o Sistema S tem cerca de 30% de ociosidade", disse.
Quanto
ao polêmico projeto que reconhece as centrais sindicais e destina dinheiro
público a elas, Lupi sugere que a discussão não se limite à perda de uma
oportunidade para reduzir a carga tributária. Argumenta que não há sindicato
sem receita ou subsídios do governo, prática comum em todo o mundo. "Os
20% do imposto sindical iam para o FAT e metade dessa arrecadação irá para as
centrais sindicais se o projeto for aprovado", diz.
Para
ele, se é para acabar com o imposto sindical, também seria justo dar fim à contribuição
ao Sistema S sobre a folha de pagamento das empresas. O ministro disse que o
projeto das centrais foi amplamente negociado e isso deve garantir aprovação
rápida no Congresso. Por outro lado, alerta que uma proposta para acabar com o
imposto sindical ou com o tributo que financia o Sistema S "simplesmente
não passaria".
Apesar
dos seus argumentos favoráveis ao projeto das centrais, o ministro diz que
melhor seria ter uma fórmula que prejudicasse menos o trabalhador. Como
exemplo, cita algo parecido com a contribuição negocial. Ela representaria uma
espécie de pagamento dos trabalhadores pela representação das entidades
sindicais nas negociações com os empregadores.
18/10/2007
Mauro Zanatta
Ruy
Baron/Valor

"Os mercados futuros são um dever de casa", afirma Ricardo Cotta, da CNA
A
Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) começa neste mês a colocar em
prática um programa que tentará profissionalizar a classe média rural das
principais regiões produtoras de grãos, café e gado do país. Batizado como
"Campo Futuro", o projeto-piloto busca disseminar o uso de
instrumentos de gestão de riscos na atividade agropecuária, além de garantir
níveis mínimos de rentabilidade ao produtor e contribuir para o crescimento de
longo prazo do setor rural.
Gestado
em meio à dura crise de renda que golpeou os produtores de grãos nas últimas
duas safras, o programa terá duas linhas: treinamento de produtores para
realizar operações em mercados futuros e criação de um sistema de informação
para estabelecer referências regionais sobre custos de produção. O "Campo
Futuro" terá foco em 500 produtores classificados como "médio-grandes",
cujo tamanho da propriedade varia de 500 a 5 mil hectares no Centro-Oeste e de
100 a 1 mil hectares no Sul do país.
A
extensa base de dados resultante do projeto também servirá à ação política da
CNA. O objetivo é usar os dados, recolhidos em 200 painéis regionais promovidos
até julho de 2008, para contrapor estatísticas e argumentos usados pela
agroindústria em negociações de preços, além de reforçar as demandas do setor
junto aos governos e de servir como orientação à base parlamentar ruralista no Congresso
Nacional para a proposição de projetos de lei.
"Os
mercados futuros são um dever de casa dos produtores para compreender
instrumentos já disponíveis", afirma o superintendente técnico da CNA,
Ricardo Cotta. "E o levantamento de custo permitirá saber com clareza o
menor custo e a maior rentabilidade em cada Estado, em cada região". O
projeto-piloto será aplicado aos produtores de soja, milho e pecuária de corte.
Em 2008, será estendido aos produtores de algodão, arroz, trigo, café e
pecuária de leite.
O
sistema de informações, a ser atualizado mensalmente, permitirá à CNA monitorar
e acompanhar os detalhes dos custos de produção desde a variação dos preços dos
insumos (sementes, fertilizantes, defensivos, ração animal, sal mineral,
vacinas, máquinas e equipamentos agrícolas) até indicadores de desempenho
(produtividade) e competitividade de cada região específica.
"Chegaremos
a uma fotografia da propriedade típica de cada região", afirma Cotta.
"Vamos saber onde o produtor compra, quanto paga, para quem vende, como
vende, o grau de utilização de tecnologia e o tamanho das propriedades".
Revendas de insumos e cooperativas entram, segundo ele, como colaboradores do
sistema.
As
equipes da CNA já começaram a ir a campo para realizar os levantamentos dos
dados. Os principais pólos agrícolas dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso
do Sul são os primeiras a receber os especialistas. Na parte de treinamento, a
CNA começa nesta semana o processo de formação dos chamados multiplicadores das
informações sobre mercados futuros. São os técnicos das federações e dos
sindicatos rurais, além dos professores do Senar, que vão capacitar os
produtores no campo.
O braço
educacional do "Campo Futuro" será desenvolvido em convênio com o
Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo
(Cepea-USP), a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) e o Serviço Nacional
de Aprendizagem Rural (Senar). No levantamento de custos, também entram as
federações estaduais de agricultura e a Universidade Federal de Lavras
(UFLA).
19/10/2007
Contribuição Sindical
Thiago
Vitale Jayme
Roberto Stuckert Filho/Agência O Globo - 17/10/2007

Paulinho, com o pé imobilizado: "Quero avisar que esta votação praticamente quebra todos os sindicatos do país. Agora, patrão tem dinheiro, peão não tem"
Ao
aprovar, na noite de quarta-feira, o projeto de lei 1990, de 2007, que
regulamenta e legitima o funcionamento das centrais sindicais, elaborado no
governo para agradar os sindicalistas e lhes dar poderes para fechar acordos
nacionais e ajuizar ações diretas de inconstitucionalidade, a Câmara incorporou
também emenda que determina o fim da obrigatoriedade de recolhimento da
contribuição sindical. Esta contribuição passou a ser facultativa.
O texto
do projeto não previa qualquer alteração nas contribuições sindicais. Mas uma
emenda proposta pelo deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) foi aprovada por
pequena margem de votos e incluída no texto contra a vontade do relator da
proposta, deputado Vicentinho (PT-SP), ex-dirigente da Central Única dos
Trabalhadores (CUT).
O
petista se diz ideologicamente contrário ao imposto sindical obrigatório, mas
havia um acordo do governo com as centrais para não tratar do tema neste
momento. O relator e o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da
Força Sindical e maior articulador da tramitação do texto, dizem que a emenda
do PPS poderá gerar uma distorção no setor.
"A
emenda tornou facultativo apenas o imposto pago pelos trabalhadores. Os
sindicatos patronais continuarão recebendo a contribuição dos empregadores, que
continua obrigatória", explica Vicentinho. Ele diz esperar que o Senado
arrume a questão. "Ou retorna ao que era antes ou torna facultativo também
para os patrões. Como está, não dá", completa.
Paulinho
criticou a alteração e mostrou como os dirigentes são dependentes desta verba:
"Quero falar apenas para avisar aos deputados que votaram a favor que esta
votação praticamente quebra todos os sindicatos do Brasil em âmbito nacional.
Agora, patrão tem dinheiro, peão não tem", criticou. Segundo ele, as federações
e as confederações sindicais vivem do imposto sindical anual.
O
projeto recebeu oposição do PSDB. Segundo o partido, o texto retirará 50% dos
recursos repassados hoje para a Conta Especial Emprego e Salário e o repassará
às centrais. Hoje, a divisão da arrecadação de toda a contribuição sindical do
país é assim dividida: 60% para os sindicatos, 15% para as federações, 5% para
as confederações e 20% para a conta especial. Segundo o PSDB, 10% ficariam com
a conta especial e 10% iriam para as centrais.
"É
dinheiro para líder sindical fazer política", protesta o líder do PSDB na
Câmara, Antonio Carlos Pannunzio (SP).
Para o
tucano, haveria forte redução da força do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT),
que financia o seguro-desemprego, o abono salarial, e programas de
desenvolvimento econômico e das ações de geração de trabalho, emprego e
renda.
Como a
emenda não regulamenta a questão, Paulinho argumenta que haverá um impasse em
torno do caráter facultativo do recolhimento, principalmente quando o
trabalhador autorizar o recolhimento. O texto desobriga as empresas a
repassarem o dinheiro sindical. "A pessoa teria de pagar um boleto no
banco ou precisaria procurar o sindicato e pagar o imposto".
Outra
alteração mal recebida pelo relator Vicentinho foi a proposta do PSDB de
incluir a obrigatoriedade de o Tribunal de Contas da União (TCU) fiscalizar
todos os recursos repassados às centrais. "Trata-se de dinheiro que não é
fruto de ação entre duas pessoas independentes. Deve-se prestar contas da
utilização deste dinheiro que estaria sendo repassado a quem de direito, ou
seja, aos trabalhadores, à sociedade. E é evidente que, se não houver controle
do Tribunal de Contas da União, que publica relatórios e cobra providências,
milhões de trabalhadores não terão como exercer esse controle", defendeu
Pannunzio.
A emenda
foi aprovada. "Eu acho que, hoje, o TCU já precisa investigar todos esses
recursos sindicais. Foi uma emenda redundante, sem efeito. Não há necessidade
de explicitar isso no texto", disse Vicentinho.
Folha
de S. Paulo
19/10/2007
Contribuição Sindical
CLAUDIA
ROLLI
DA
REPORTAGEM LOCAL
Os
sindicatos de trabalhadores podem perder receita de até R$ 754 milhões por ano
se o imposto sindical deixar de ser compulsório, como prevê emenda incluída no
projeto de lei aprovado anteontem na Câmara que reconhece juridicamente as
centrais sindicais.
Com a
perda desses recursos, sindicalistas e centrais sindicais estimam que 70% dos
cerca de 15 mil sindicatos que existem no país perderiam a capacidade de se
articular para combater a informalidade no país, o desemprego e a precarização
do mercado de trabalho.
O cálculo
da perda de receita foi feito com base no valor do imposto sindical arrecadado
neste ano entre os trabalhadores. O imposto é cobrado de forma compulsória
desde a Era Vargas. Os trabalhadores pagam o equivalente a um dia de trabalho.
Entre as empresas, o percentual de desconto varia conforme o capital social.
O total
arrecadado neste ano foi de R$ 1,308 bilhão -sendo R$ 754 milhões arrecadados
dos trabalhadores, R$ 50 milhões dos autônomos e R$ 504 milhões das empresas,
segundo a ONG Contas Abertas.
Para o
imposto ser facultativo, o projeto de lei precisa ser aprovado no Senado e
sancionado pelo presidente Lula.
A reação
das centrais sindicais foi imediata e a partir de hoje começa uma operação para
"derrubar" a emenda, apresentada pelo deputado Augusto Carvalho
(PPS-DF), segundo sindicalistas de várias centrais.
"Sem
esses recursos, os sindicatos vão deixar de prestar uma série de serviços. Ou o
deputado que aprovou a emenda é alienado ou queria os seus 15 minutos de
fama", afirma Ricardo Patah, presidente da UGT e do Sindicato dos
Comerciários de São Paulo. "O fato é que 70% dos sindicatos que existem
hoje vão sofrer o impacto desse corte de receita."
Para a
CUT, que historicamente diz defender o fim do imposto sindical, é estranho que
a contribuição seja facultativa apenas entre os trabalhadores. "Se o
imposto acabar do lado dos trabalhadores, também tem de acabar entre os
sindicatos patronais", diz Arthur Henrique, presidente da CUT.
"Foi
oportunismo rasteiro da oposição, que na calada da noite aprovou a
emenda", diz Antonio Neto, da CGTB.
Para o
autor da emenda, o imposto "é dinheiro fácil que entra no caixa dos
sindicatos que se proliferam no país". Ele diz que irá propor ao Senado
para ampliar a emenda para que atinja as contribuições também do lado patronal.
Os
sindicalistas reclamam que havia acordo com o governo federal para que o
imposto acabasse de forma gradual.
19/10/2007
Contribuição Sindical
Geralda
Doca e Isabel Braga
As
centrais sindicais se surpreenderam com a aprovação na Câmara, na noite de
quarta-feira, do fim da cobrança do imposto sindical obrigatório, criado em
1943 pelo governo de Getúlio Vargas e que hoje financia, às custas de um dia de
salário de empregados formais e autônomos por ano, mais de 7.500 sindicatos,
federações e confederações de trabalhadores. Com a base dividida, a emenda ao
projeto que reconhece a existência das centrais passou com ampla maioria. Os
dirigentes das principais entidades se reúnem hoje em São Paulo para traçar uma
ação conjunta que garanta a derrubada do texto no Senado e para cobrar do
ministro do Trabalho, Carlos Lupi, o cumprimento do acordo feito entre
sindicalistas e governo para a manutenção da contribuição - que este ano já
arrecadou R$754 milhões.
Pelo
projeto acertado entre Executivo e Centrais, as entidades passariam a receber
metade do dinheiro que hoje vai para o governo (20% da arrecadação), o que
daria R$81 milhões em 2008 e R$94 milhões no ano seguinte, segundo estimativas
da Comissão de Finanças da Câmara. As centrais, agora, poderão ficar sem esse
dinheiro - mas temem ainda mais pelas entidades que já recebem os repasses e
podem, de um dia para o outro, fechar as portas.
O
presidente da Força Sindical, o deputado Paulo Pereira da Silva (o Paulinho),
afirmou que se encontrará hoje com o ministro Carlos Lupi para discutir uma
saída para o problema:
- A
emenda prejudica todos os sindicatos que não poderão mais contar com a fonte de
recursos.
Autor da
emenda, o deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) rebateu:
- As
entidades verdadeiras devem esperar o fim desse imposto, que é um dinheiro sujo
e ilegítimo.
Idéia é
derrubar emenda no Senado
Representantes
das centrais garantem que vão lutar.
- Nós
temos um acordo com o governo. A idéia era reconhecer as centrais e garantir
parte da contribuição. Nós nos comprometemos a encontrar, em 12 meses, uma
fonte alternativa de custeio, uma contribuição negociada a ser aprovada em
assembléia - disse o presidente da CUT, Artur Henrique.
- Deram
um golpe na gente. Mas isso não vai ficar assim. Vamos trabalhar no Senado para
retirar a emenda e vamos pedir ajuda do governo, porque houve um acordo com o
presidente da República - disse Jose Calixto Ramos, presidente da Nova Central
Sindical.
As
centrais e Lupi estranharam ainda o fato de a emenda só acabar com o
recolhimento compulsório dos trabalhadores, deixando intocado o imposto
sindical das entidades patronais. Em nota, a CUT informou que não admitirá o
fim do imposto obrigatório somente para os sindicatos dos trabalhadores. "Seriam
dois pesos e duas medidas", diz o texto. E afirmou ser contrária ao
imposto sindical, defendendo a elaboração de uma fonte alternativa de
financiamento do sistema, a ser discutida entre trabalhadores, governo e
empregadores.
Participaram
do acerto com o governo cinco centrais sindicais: Força Sindical, CUT, Nova
Central Sindical, União Geral dos Trabalhadores (UGT) e Central Geral dos
Trabalhadores do Brasil (CGTB). O acerto foi fechado em maio. No ano passado, o
Executivo chegou a enviar uma medida provisória para legitimar as centrais, sem
citar a fonte de financiamento, mas a proposta perdeu a validade.
A
orientação do governo é derrubar a emenda no Senado, pois o texto não foi
negociado dentro da base aliada. No entanto, não há pressa, pois a prioridade é
a votação da CPMF. Especialistas avaliam que os sindicalistas precisarão do
apoio dos governistas para rejeitar o texto, pois não teriam poder de
articulação para convencer os senadores - especialmente se for repetida na Casa
a forte divisão interna vista na Câmara.
Na
quarta-feira, o PT votou dividido, pois a maioria do partido, nascido nos
sindicatos, sempre foi contrária ao imposto obrigatório, que considera uma
tutela do Estado - o empregador que não recolhe o recurso ao ministério, por
exemplo, é multado. Só a oposição (PSDB, DEM, PPS e PSOL) votou unida, pela
aprovação.
A emenda
foi aprovada pela Câmara pouco antes da meia-noite de quarta-feira, por 215
votos a 161. No microfone, o líder do PT, Luiz Sérgio (RJ), expressou seu constrangimento:
- O que
era um projeto para legalizar as centrais sindicais vai acabar perpetuando o
imposto sindical. Eu sempre lutei contra. Se fosse bom, não seria obrigatório.
- Eu
nasci lutando contra o imposto sindical e vou morrer contra - emendou o
ex-presidente da CUT Jair Meneghelli.
Para o
especialista em legislação trabalhista e consultor da Câmara Leonardo Rolim, o
imposto sindical obrigatório favorece a proliferação dos sindicatos de fachada,
criados apenas para receber o dinheiro dos trabalhadores. Há no Ministério do
Trabalho 10.865 sindicatos registrados, sendo 7.253 de trabalhadores. Ele
garantiu que a emenda não é inconstitucional, já que o imposto pode ser
alterado por projeto de lei.
23/10/2007
Editorial
Organizações
não-governamentais e setores do próprio governo receiam que o crescimento da
bancada ruralista dificulte a aprovação de leis que promoveriam o combate ao
trabalho em condições análogas à escravidão. A Organização Internacional do
trabalho (OIT) estima que, no Brasil, existam 25 mil pessoas trabalhando sob
esse regime.
A
representação de fazendeiros e do agronegócio de fato cresceu em relação à
legislatura anterior. Nas contas da ONG Inesc (Instituto de Estudos
Socioeconômicos), os deputados ligados ao setor são hoje 116 (22,6% do total)
contra 73 no período 2003-2007. Estão parados no Congresso 11 projetos que
prevêem algum tipo de punição a fazendeiros acusados de fomentar o trabalho
análogo à escravidão.
A
principal dessas peças é a proposta de emenda constitucional (PEC) 438/2001,
que permite a expropriação de fazendas onde ocorra o chamado trabalho escravo.
O diploma já foi aprovado no Senado e, em 2004, passou por uma primeira votação
na Câmara. Desde então, não retornou à pauta. Certamente o governo não
considera a PEC tão importante a ponto de confrontar os 116 deputados
ruralistas, 68 deles da base aliada.
Toda e
qualquer iniciativa legislativa que ajude o Brasil a livrar-se da chaga do
trabalho equivalente à escravidão é bem-vinda. A PEC 438 é uma delas. Deve-se
reparar, porém, que não é despropositada a objeção dos parlamentares que alegam
ser necessária uma definição legal de trabalho escravo, sem a qual a norma se torna
fonte potencial de arbítrio.
É
preciso lembrar, contudo, que dificuldades no front legislativo não isentam o
poder público de prosseguir no trabalho de fiscalização. Já há leis que
permitem punir com rigor fazendeiros faltosos. É o caso de aplicá-las.
01/11/2007
Contribuição Sindical
Maria
Lima
BRASÍLIA.
O Senado está a um passo de derrubar o fim da obrigatoriedade da contribuição
sindical, aprovado na Câmara na votação do projeto que legaliza as centrais
sindicais. O lobby dos sindicalistas, que pressionam abertamente os senadores
com o apoio do governo, tem conseguido convencer parlamentares governistas e de
oposição.
Em
miniassembléias realizadas ontem em gabinetes e auditórios do Senado, cerca de
cem líderes sindicais, comandados pelo deputado Paulo Pereira da Silva
(PDT-SP), o Paulinho, presidente da Força Sindical, pediram a derrubada das
emendas que tornam a contribuição facultativa e permitem ao Tribunal de Contas
da União (TCU) fiscalizar os sindicatos. Os sindicalistas esperam convencer o
relator, senador Paulo Paim (PT-SP), durante o embate que acontecerá hoje na
audiência pública da Comissão de Assuntos Sociais (CAS).
Depois
da audiência, ainda haverá votação na CAS, na Comissão de Assuntos Econômicos
(CAE) e no plenário do Senado. A previsão é que a votação seja concluída este mês.
Centrais
dizem que vão lotar auditório com 600 sindicalistas
O
debate, previsto anteriormente para o plenário da CAS, teve de ser transferido
para o Auditório Petrônio Portela, com capacidade para cerca de 500 pessoas. As
centrais sindicais prometem lotar o lugar, com a mobilização de 600
sindicalistas.
Pelos
apoios recebidos publicamente ontem, será difícil manter o fim da contribuição
obrigatória e a fiscalização do TCU. Também está ameaçada a emenda apresentada
ontem pelo senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), que amplia o fim da obrigatoriedade
do imposto sindical para a classe patronal, e não apenas para os sindicatos de
trabalhadores, como foi aprovado na Câmara.
- O
setor sindical tem que mostrar serviço para convencer os trabalhadores a contribuírem
voluntariamente. Só os sindicatos que realmente são atuantes na defesa dos
trabalhadores vão se fortalecer. Hoje, somente 14% dos trabalhadores são
sindicalizados, mas uma minoria, ou a maioria da minoria, é quem decide por
eles. Essa representação é irreal - disse Flexa.
A reação
dos sindicalistas foi imediata.
- A
emenda do Flexa vai arrumar mais encrenca ainda. Vai unir trabalhadores e
empresários contra ele. Se acabarem as federações e confederações patronais,
quem vai defender os interesses do setor produtivo aqui no Congresso? Quem vai
defender a empresinha? Vamos derrubar as duas emendas da Câmara e impedir que a
do Flexa seja aceita - afirmou o deputado Paulinho.
Os
sindicalistas lobistas lotaram os corredores do Senado e passaram por vários
gabinetes, incluindo os de Marcelo Crivella (PRB-RJ), Jefferson Peres (PDT-AM)
e José Sarney (PMDB-AP). O encontro com os tucanos Sérgio Guerra (PE) e Papaléo
Paes (RR) teve de ser realizado no plenário 7 das comissões. Paulinho
argumentou com eles que a aprovação da contribuição facultativa foi um voto
errado dos deputados, que, envolvidos com o jogo do Brasil e Colômbia, não
sabiam direito o que estavam aprovando.
"O
cara que ficar contra lá está morto!"
Paulinho
disse ainda que, no acordo fechado com o governo, conseguiram até a proeza de
fazer a CUT defender o imposto sindical.
- Vocês
sabem que as centrais têm gente de todos os partidos. Se a contribuição cair,
isso destrói todos os sindicatos rurais e as confederações. Se isso acontecer,
quebra a espinha dorsal do movimento sindical - disse Paulinho aos senadores
tucanos.
A
resposta foi a que os sindicalistas esperavam ouvir.
- O PSDB
tem interesse e simpatia pela proposta - disse Sérgio Guerra, sendo aplaudido,
juntamente com Papaléo, que fez um discurso inflamado em defesa da derrubada da
mudança.
Antes,
Sérgio Guerra quis saber o que aconteceria com a emenda do líder do PSDB na
Câmara, Antonio Carlos Pannunzio, que instituiu a fiscalização pelo TCU.
Paulinho disse que estava propondo a criação de um Conselho Nacional do
Trabalho, composto por trabalhadores, empresários e governo para fiscalizar.
Guerra gostou.
- Os
tribunais não fiscalizam sindicatos nem em Cuba nem na China - disse o deputado
e líder sindical.
Paulinho
então convidou os dois a comparecerem à audiência pública hoje no Auditório
Petrônio Portela. Papaléo disse que viajaria. Guerra prevê o confronto:
- O cara
que ficar contra lá está morto!
Carvalho:
"Serão 20 defendendo o dinheirinho"
Autor da
emenda que acaba com a contribuição obrigatória, o deputado Augusto Carvalho
(PPS-DF) procurou o relator Paulo Paim para pedir equilíbrio no debate, e que
ele convidasse pesquisadores e estudiosos do assunto para fazer o contraponto
com os mais de 600 sindicalistas esperados hoje. Além dele, só o líder
Pannunzio deve comparecer para defender a mudança, num ambiente hostil.
- Avisei
ao Paim que não contrataria claque para me defender. Mas vou lá defender meu
ponto de vista. Seremos eu e o Panunzio e 20 do outro lado defendendo a
gordura, o dinheirinho - disse Augusto, que foi derrotado na proposta de
convidar os pesquisadores Maria Hermínia Tavares e Ricardo Antunes.
Segundo
Paulinho, o relator Paulo Paim prometeu fazer seu relatório com o consenso
resultante do debate da audiência pública.
01/11/2007
Contribuição Sindical
Silvia
Amorim
As
centrais sindicais prometem comparecer em peso hoje ao Senado para a audiência
pública que discutirá o projeto de lei que derruba a obrigatoriedade do pagamento
da contribuição sindical. Está marcado para as 10 horas o início do debate
sobre a proposta na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa.
O texto,
que regulamenta as centrais sindicais, foi aprovado no último dia 17 na Câmara
dos Deputados e agora segue para apreciação dos senadores. A maior polêmica
está em torno da emenda apresentada pelo deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) que
torna facultativo o pagamento da contribuição sindical. Atualmente o imposto é
descontado de forma automática do salário do trabalhador uma vez por ano - em
março. O valor é o equivalente a um dia de trabalho.
As
centrais resistem à mudança e tentam, agora, derrubar a emenda no Senado. Elas
alegam que o fim da obrigatoriedade vai enfraquecer os trabalhadores. A
preocupação, porém, é com uma eventual queda da arrecadação, que resultaria em
menos recursos transferidos pelo governo federal para as entidades.
Em
caráter obrigatório, o imposto deveria arrecadar, em 2008, R$ 1,25 bilhão. O
rateio, segundo o projeto, ficaria assim: 60% para os sindicatos, 15% para as
federações, 5% para as confederações e 20% para a conta emprego, que, pelo
projeto, perde a metade para suprir as centrais sindicais. Com a estimativa de
arrecadação, as centrais ficariam com R$ 125 milhões no próximo ano.
Entre as
entidades que encabeçam a campanha contrária à emenda do deputado estão a Força
Sindical, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a União Geral dos
Trabalhadores (UGT). “A legalização das centrais vai modernizar o sindicalismo
brasileiro”, defendeu o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da
Força Sindical.
Paulinho
e sindicalistas se reuniriam ainda ontem à noite com o senador José Sarney
(PMDB-AP). Eles pediriam ao parlamentar que sensibilize a bancada do PMDB para
votar a favor do projeto original, sem a emenda recebida na Câmara.
01/11/2007
Opinião
São
raríssimas as boas notícias do Congresso Nacional. Uma veio recentemente, no
meio de outras tradicionais, como a de que os deputados federais passarão a
contar com banheiras de hidromassagem em seus apartamentos “funcionais” e a de
que os senadores decidiram manter em segredo o destino que dão aos R$ 15 mil
que recebem mensalmente a título de “verba indenizatória”.
A boa
nova veio em manchetes do tipo Câmara acaba com imposto sindical, que trataram
de emenda do deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) incluída no projeto que
institucionaliza as centrais sindicais de trabalhadores, aprovado recentemente
pela Casa. Essa emenda estabelece como facultativa a tal “Contribuição
Sindical”, que hoje os trabalhadores formais recolhem obrigatória e anualmente
a seus sindicatos, na forma de um imposto.
Imediatamente
após a notícia, começou “o que é isso, companheiro?” por parte de “lideranças”
sindicais que perderiam o butim bilionário. Digo perderiam porque ainda há
muito chão pela frente antes de a emenda se aplicar, e é duvidoso se ela
sobreviverá ao tiroteio que enfrenta.
Inicialmente,
vieram interpretações jurídicas de que foi inadequadamente redigida, pois
altera artigo da CLT que trata do desconto em folha, mas não do que define a
“obrigatoriedade da contribuição”. Conforme seu autor, o texto poderá ser
corrigido no Senado. Se assim aprovado, contudo, voltará à Câmara para reexame,
tomando mais tempo, durante o qual as forças contrárias se organizarão ainda
mais e poderão derrotar a idéia, começando no próprio Senado.
Neste,
seu relator, Paulo Paim (PT-RS), já adiantou que mudará o texto. Disse ser
favorável à extinção do imposto, mas, em lugar de cada trabalhador se dispor a
fazer ou não uma autêntica contribuição sindical, pretende remeter o assunto a
assembléias em que isso seria decidido. Ou seja, a fóruns controlados por
“lideranças” e freqüentado por minorias. Disse também que poderá simplesmente
cortar a emenda e deixar o assunto para um futuro projeto de lei (Valor,
23/10). O que disse tem tudo de armação em sentido contrário ao da emenda.
De
“lideranças” sindicais veio a choradeira usual de que o fim do imposto
inviabilizará financeiramente milhares de sindicatos. Ora, isso apenas
explicita um dos problemas que a emenda procura resolver. Muitos deles só
existem porque há o imposto. Por que sustentar assim os que não se
viabilizariam com a contribuição voluntária de seus associados? Que valor estes
estariam atribuindo aos serviços dessas entidades se não se interessassem em
pagar voluntariamente por eles? Alguns sindicalistas dizem que atuam como
fiscais das condições de trabalho, mas esse é um papel do governo, e é para
custeá-lo que existem os impostos tradicionais.
Ressalte-se
que o autor da emenda não serve como alvo dos que têm como hábito rotular
interlocutores como neoliberais ou de direita sem discutir a lógica e o mérito
de suas idéias. Pertence ao PPS e foi presidente do Sindicato dos Bancários de
Brasília. Tem origem num grupo de sindicalistas, em que também há gente do PT e
da CUT, que sempre se manifestou contra o imposto. Como levou seu discurso à
prática, gerou um grande rebuliço.
Outra
questão levantada pelos opositores é que a emenda não se aplica aos sindicatos
patronais. É verdade, mas isso não implica rejeitá-la, mas sim reformulá-la
para acabar também com a tal “contribuição patronal”. Aí virá a reação de
“lideranças” empresariais cujas entidades também se sustentam com o imposto.
Desse lado, será preciso que prevaleça o discurso dos que defendem o fim dele,
pelas mesmas razões que norteiam o autor da emenda, a de assegurar entidades de
classe legítimas na sua representatividade e independentes do governo, como
cabe numa democracia autêntica em suas instituições.
Fui
alfabetizado e passei a ler jornais ainda na era Vargas, que criou esse
sindicalismo atrelado ao Estado, o qual procura controlar trabalhadores e
empregadores com o objetivo de evitar conflitos que possam comprometer os fins
buscados pelo aparato estatal fortalecido e autoritário no seu desenho. Aprendi
então o significado do peleguismo, que vem de pelego, pedaço de pele de
carneiro colocado em cima da sela para tornar mais macio o cavalgar. O termo
passou a ser atribuído a sindicalistas que vicejam em torno do Estado para
assegurar e tornar mais confortável o poder que governantes procuraram exercer
autoritariamente sobre cidadãos dirigidos. Ou “cavalgados”.
Não há
como negar que hoje a taxa de peleguismo é bem menor, pois há grupos
significativos de sindicalistas que procuram ser independentes, em meio aos que
atuam na velha tradição e a pelegos sem nenhuma utilidade que não seu próprio
conforto assegurado pelo velho imposto. Os primeiros precisam reafirmar sua
independência abdicando dele, e aproveitar a extinção para se sobreporem aos
segundos. Quanto aos terceiros, poderão retornar aos empregos que tinham quando
assumiram posições nos sindicatos, conforme dispõe legislação que a emenda não
revoga.
Ainda
que enfraquecida, a sobrevivência dos termos pelego e peleguismo demonstra a
utilidade que seus usuários viram neles. Olhando o quadro sindical atual,
recordo-me também de outra comparação, aprendida com um carioca, a de um
carnaval com carros alegóricos não-motorizados, em que uns os empurram com a
força de seu imposto sindical, enquanto outros folgadamente cantam e dançam em
cima, alguns até como destaques.
Depois
que veio a emenda, o som dominante é o desse carnaval ainda ininterrupto.
Espero estar errado - e me alegrarei por isso -, mas temo que ele irá
sobreviver à emenda do deputado Carvalho.
*
Roberto Macedo, economista (USP), com doutorado pela Universidade Harvard
(EUA), pesquisador da Fipe-USP e professor associado à Faap, foi secretário de
Política Econômica do Ministério da Fazenda
04/11/2007
Contribuição Sindical
IMPOSTO
POLÊMICO
Contribuição
sindical obrigatória ajuda a patrocinar mordomias para dirigentes
Ricardo
Galhardo
Criado
na década de 40 para alavancar o então imberbe movimento sindical brasileiro, o
imposto sindical obrigatório hoje ajuda a manter mordomias de dirigentes
sindicais. Enquanto trabalhadores mal remunerados, como peões da construção
civil e padeiros, são obrigados a pagar um dia de salário por ano aos
sindicatos, dirigentes das entidades empregam parentes, andam em carros
importados, viajam em helicópteros e aviões particulares e moram em casas
suntuosas.
No dia
19, a Câmara aprovou uma emenda ao projeto de lei 1990/07, que regulamenta as
centrais sindicais, acabando com a obrigatoriedade do imposto. A decisão
provocou rebuliço no meio sindical, ameaçado de perder R$490 milhões ao ano e,
com o apoio do governo, as centrais pressionam o Senado para derrubar a emenda.
Enquanto
isso, alguns dirigentes têm padrão de vida inimaginável para os trabalhadores
que representam.
Entronizado
há 18 anos no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil Pesada, que
representa peões de obra, Antonio Bekeredjian, o Toninho, leva uma vida de
rico.
Segundo
funcionários do estacionamento em frente ao sindicato, Toninho costuma chegar
ao trabalho a bordo de um Mercedes-Benz. Em seu nome estão registrados
telefones em diversos imóveis luxuosos.
Um deles
fica no Condomínio Velden Village, em Campos do Jordão, destino dos milionários
paulistanos nas temporadas de inverno. Trata-se de um apartamento de 190 metros
quadrados, em estilo alemão, com lareira e quatro dormitórios, localizado numa
área com quadra de tênis, churrasqueira, playground e avaliado em R$500 mil.
Segundo funcionários do condomínio, Toninho raramente aparece no local, mas a
taxa de condomínio (R$1.091) mensal está em dia.
Outro
telefone de Toninho fica na Omega Factoring, empresa localizada em Santos. Uma
funcionária disse, em conversa gravada, que Toninho é um dos sócios. Um
terceiro telefone em nome do sindicalista fica em um apartamento na badalada
Avenida Presidente Wilson, de frente para a Praia do Gonzaga, a mais nobre de
Santos.
"Quero
ver alguém provar que é meu"
O
sindicalista, que mora no Campo Belo, bairro da classe média alta paulistana,
nega tudo:
- Quero
ver alguém provar que isso aí está no meu nome. É tudo dos meus filhos. Os
telefones são presentes que dei a eles. Tenho um carro simples, um Golf 2002 -
justificou.
Outro
exemplo é Almir Macedo Pereira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em
Transporte de Carga Própria de São Paulo, que representa parte dos
caminhoneiros. Almir está construindo uma casa na Serra da Cantareira, Zona
Norte de São Paulo, reduto de endinheirados paulistanos em busca de sossego e
natureza.
Localizada
numa encosta da serra, em meio à mata nativa, a casa de três pavimentos e
piscina vale pelo menos R$300 mil, segundo imobiliárias da região. Na fachada
da obra, uma placa indica que o material foi fornecido pela fábrica de ferro
K&FER, empresa que emprega boa parte dos trabalhadores representados pelo
sindicato.
-
Trabalho há 30 anos e juntei dinheiro para construir a casa, que nem está
pronta. Qual o problema em ter material da K&FER? Comprei e paguei tudo.
Tenho as notas - disse Almir.
Em 2003,
ele, o tesoureiro Heleno de Lima e o empresário Henry Maksoud foram denunciados
por fraude pelo Ministério Público Federal. Eles convenceram trabalhadores
demitidos do Hotel Maksoud Plaza a abrirem mão do pagamento integral das
indenizações no ato da homologação, prejudicando 51 trabalhadores.
- Isso
foi arquivado por falta de provas lá no tribunal do Lalau (o Tribunal Regional
do Trabalho, cuja obra levou à prisão o juiz aposentado Nicolau dos Santos
Neto) - defendeu-se Almir.
Além de
mansões em lugares badalados, alguns dirigentes sindicais têm predileção por
carrões blindados, de preferência Volkswagen Golf ou Toyota Corolla.
Presidente
do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de São Paulo, que representa
outra parte dos peões de obra, Antonio de Sousa Ramalho só anda a bordo de um
Corolla blindado com motorista.
- Se não
for em carro blindado, só saio de casa com pelo menos três seguranças. Vivo
recebendo ameaças de morte, tanto de patrões como das divisões no sindicato -
justificou Ramalho.
O Ômega
azul metálico, também blindado, de uso exclusivo do presidente do Sindicato dos
Trabalhadores em Empresas de Transporte Rodoviário de Cargas Secas e Molhadas
de São Paulo e Itapecerica da Serra, José Carlos de Sena, deve causar inveja na
estrada aos caminhoneiros representados pela entidade.
No
Sindicato dos Padeiros, nepotismo
Ele tem
bons motivos para usar carro blindado. Sena foi preso em 2003 acusado de
participar do assassinato do presidente do Sindicato dos Motoristas de
Guarulhos, Maurício Alves Cordeiro. Ex-vice presidente da Força Sindical, Sena
foi solto por ordem judicial e retornou à vida sindical.
O
Sindicato dos Aposentados e Pensionistas da Força Sindical também comprou um
Corolla para uso exclusivo do presidente, João Inocentini, o João Feio. Uma de
suas filhas e seu genro trabalham no sindicato.
O presidente
do Sindicato dos Padeiros de São Paulo, Francisco Pereira de Sousa, compartilha
o gosto por carros blindados e contratação de parentes. Ele roda a cidade em um
Golf prateado, equipado com aparelho de DVD no banco traseiro e pilotado por um
sobrinho, Eduardo. O vice-presidente do sindicato é Pedro Pereira de Sousa e o
secretário-adjunto de Finanças, Geraldo Pereira de Sousa. Ambos são irmãos de
Francisco. A lista de dirigentes do Sindicato dos Padeiros inclui ainda Marcela
Pereira de Sousa, outra sobrinha de Francisco.
Sena, João Feio e Francisco Pereira de Sousa foram procurados na última quinta-feira em seus respectivos sindicatos, mas não responderam aos telefonemas. A assessoria de imprensa do Sindicato dos Aposentados confirmou as informações do GLOBO, mas informou que o único autorizado a responder é João Feio, que não foi localizado em seu telefone celular
06/11/2007
Opinião
O procurador
Lucas Furtado, do TCU (Tribunal de Contas da União), disse que as mordomias
para líderes sindicais custeadas com dinheiro do imposto sindical obrigatório
são "caso de polícia". Para o deputado Augusto Carvalho, são "a
ponta do iceberg".
Procurador
do TCU e parlamentares defendem investigação de uso de imposto sindical para
sustentar vida de luxo
Maria
Lima
BRASÍLIA.
O representante do Ministério Público no Tribunal de Contas da União (TCU),
procurador Lucas Furtado, disse ontem que as mordomias de líderes sindicais
custeadas com dinheiro dos trabalhadores, como mostrou reportagem do GLOBO
domingo, são um caso de polícia. Ele disse que esse tipo de abuso tem de ser
investigado pela Polícia Federal, que tem os instrumentos necessários, como
pedir a quebra de sigilo bancário e fiscal.
O
deputado Augusto Carvalho (PPS-DF), autor da emenda que acaba com a
obrigatoriedade da contribuição sindical - que hoje dá às entidades R$460
milhões por ano -, disse que as mordomias mostradas na reportagem são apenas a
ponta do iceberg.
Para
Carvalho, há muito mais do que mansões, aviões, carros importados blindados e
barcos detectados no patrimônio de dirigentes de sindicatos de trabalhadores de
São Paulo e Rio.
O
procurador Lucas Furtado defendeu a apuração:
- Isso é
um caso de polícia. Se esses dirigentes estão comprando carros de luxo, casas e
helicópteros, esses abusos devem ser investigados pela Polícia Federal. Para
que o TCU entre nesse tipo de investigação, o Congresso tem que nos dar a
contrapartida, o poder de acessar as contas desses sindicalistas por meio da
quebra de sigilo - disse Furtado. - O TCU esgotou seu limite. Outorgar mais uma
atribuição sem esses instrumentos é inócuo.
Mesmo
com as barreiras citadas por Furtado, Carvalho e o líder do PSDB, deputado
Antônio Carlos Pannunzio (SP), autor da emenda que dá ao TCU poderes para
fiscalizar o uso da contribuição sindical, insistem que é preciso haver
controle externo.
- A
reportagem publicada no GLOBO pode ser apenas a ponta do iceberg das
irregularidades praticadas com o bolo bilionário que é anualmente arrecadado
pelo Ministério do Trabalho e repassado às entidades sindicais - afirmou
Carvalho.
Falta de
controle leva a abusos, diz tucano
Segundo
Carvalho, alvo de ataques de sindicalistas, o imposto - criado na década de 40
pelo governo Getulio Vargas e cobrado do trabalhador sindicalizado ou não - é
usado como fonte permanente de "esbanjamento de luxo" por dirigentes
sindicais:
- Depois
da matéria "Sindicalistas levam vida de rico", descortinam-se para a
população os motivos da gritaria contrária ao fim do imposto obrigatório. Essa
fortuna é gasta sem qualquer conhecimento dos trabalhadores associados ou mesmo
daqueles que sequer foram filiados algum dia.
- É deplorável
ver como o dinheiro do trabalhador é desviado por essas lideranças sindicais,
com mordomias, aumento patrimonial e apropriação de um dinheiro que não é seu.
O fato de não haver um controle do TCU ou outro órgão tem levado a esses
abusos. Não cola esse argumento de que o TCU não pode fiscalizar o dinheiro do
trabalhador. Se é arrecadado e repassado via governo, pode sim - cobrou
Pannunzio.
O tucano
reconhece que será difícil sua emenda ser aprovada no Senado, onde tramita o projeto
que legaliza as centrais sindicais. A votação conjunta nas comissões de
Constituição e Justiça (CCJ), Assuntos Sociais (CAS) e Assuntos Econômicos
(CAE) está prevista para amanhã. O relator da matéria na CAS, Paulo Paim
(PT-RS), avisou que manterá a contribuição sindical obrigatória.
07/11/2007
Contribuição Sindical
JULIANNA
SOFIA
DA
SUCURSAL DE BRASÍLIA
O
movimento sindical ganhou novo aliado no lobby para manter a contribuição que
equivale a um dia de salário do trabalhador no ano, o imposto sindical. Ontem,
o senador Francisco Dornelles (PP-RJ), relator do assunto na CAE (Comissão de
Assuntos Econômicos), sinalizou que é contra o fim do imposto em 2008.
"Tenho
que examinar a proposta do governo, as mudanças feitas na Câmara, para depois
tomar minha decisão, procurando sempre o entendimento e o consenso. Agora, não
pode, no mês de novembro, tirar uma receita a partir do ano que vem. Todos os
sindicatos já fizeram suas previsões", afirmou o ex-ministro do Trabalho.
No mês
passado, ao apreciar o projeto de lei do governo que regulariza as centrais
sindicais, a Câmara aprovou uma mudança no texto, que, na interpretação dos
deputados, acabou com a obrigatoriedade do recolhimento do imposto sindical. A
alteração foi atacada pelo movimento sindical e pelo governo, que perderão uma
arrecadação anual de aproximadamente R$ 500 milhões, segundo dados de 2006.
Hoje, o imposto
sindical é rateado entre sindicatos, que ficam com 60% do valor arrecadado dos
trabalhadores, federações (15%) e confederações (5%). O governo fica com 20%.
No projeto de lei, as entidades passariam a receber metade do que atualmente
vai para os cofres do governo.
Apesar
do entendimento geral de que as modificações feitas pelos deputados acabaram
com o imposto sindical, há dúvidas sobre essa avaliação. Para os juízes do
trabalho, por exemplo, a mudança acabou com o desconto obrigatório na folha de
salário, mas não isentou o trabalhador de recolher o imposto aos sindicatos.
O autor
da emenda na Câmara, Augusto Carvalho (PPS-DF), argumenta, porém, que a
intenção do legislador ao aprovar a mudança foi tornar o imposto facultativo.
Ele afirma ainda que o Senado deve aperfeiçoar o texto, acabando também com a
contribuição que vai para os sindicatos dos patrões.
Dornelles
afirmou que recebeu o projeto para relatar na segunda-feira e só deve
apresentar seu parecer na próxima semana. A proposta tramita simultaneamente em
duas outras comissões do Senado: CAS (Comissão de Assuntos Sociais) e CCJ
(Comissão de Constituição e Justiça).
O
relator na CAS, Paulo Paim (PT-RS), afirmou que os três relatores nas comissões
poderão fechar um relatório único, para ser votado direto no plenário da Casa
para acelerar a tramitação. Lúcia Vânia (PSDB-GO) é a relatora na CCJ. Os três
defendem a manutenção do imposto por ora. Paim afirma que a mudança aprovada
pelos deputados não acaba com o imposto. Segundo ele, a emenda apenas dificulta
a vida do trabalhador, que ainda está obrigado a contribuir para a estrutura
sindical. Na avaliação dele, além de manter a contribuição, é preciso
"apontar um caminho" para o médio prazo.
07/11/2007
Contribuição Sindical
Desde o
advento do novo sindicalismo, no final da década de 70, o debate sobre a
estrutura sindical herdada da era Vargas, corporativista e atrelada ao Estado,
tornou-se público. Em plena ditadura, a conclusão de que a autonomia sindical
era a bandeira de luta por excelência do sindicalismo combativo moveu as lutas
sindicais na direção de conquistar os sindicatos aparelhados pelos
"pelegos". Nesse debate, havia um consenso de que a autonomia
sindical dependia não apenas da desvinculação do movimento sindical do governo
mas também do fim da contribuição sindical obrigatória, que enchia as entidades
de dinheiro independentemente de suas representatividades.
De lá
para cá muita água correu, o novo sindicalismo ficou velho, o avanço
tecnológico produziu desemprego estrutural, um longo período de recessão
reduziu ainda mais os postos de trabalho - e os sindicatos foram perdendo poder
de barganha e se enfraquecendo nas negociações coletivas.
Não foi
apenas isso que mudou em quase 30 anos. As novas lideranças sindicais, que
tiveram um papel importante na transição democrática, tomaram as máquinas
sindicais e envelheceram lá dentro. Em regra, formou-se uma nova classe bem
melhor remunerada que os seus representados e sustentada pela mesma estrutura
corporativa - e pelo mesmo imposto sindical que, nos períodos ditatoriais,
pagou a ação assistencial dentro dos sindicatos e desobrigou os representantes
das categorias da luta sindical. Essa classe forjou-se em estruturas que
recebem muito dinheiro para representar não raro categorias de trabalhadores
mal remunerados. Como a riqueza independe de suas representatividades, não é
necessário nenhum esforço para conquistar filiados e, assim, fortalecer
categorias enfraquecidas pela conjuntura. E como os filiados foram se afastando
da vida sindical, abre-se espaço para alguns sindicalistas usarem o dinheiro
que jorra da contribuição em favor próprio, como mostra reportagem publicada
pelo jornal "O Globo" ("Sindicalistas levam vida de rico",
4/11). O sindicalismo carrega presidentes de sindicatos de peões - construção
civil, construção civil pesada, transporte de carga e motoristas - que acumulam
patrimônios inexplicáveis para quem veio de categorias onde o salário mínimo
ainda é a média da remuneração.
Na
medida em que o movimento sindical foi se esvaziando e se afastando dos comuns
mortais, o movimento sindicalista passou a conversar consigo próprio e criou
uma linguagem hermética, de difícil assimilação. É complicado para quem está de
fora entender a movimentação dos sindicalistas, do governo petista e do
ministro do Trabalho, Carlos Luppi, do PDT, para derrubar no Senado emenda que
acaba com a contribuição obrigatória, que foi contrabandeada num projeto
legalizando as centrais sindicais aprovado na Câmara. O argumento das centrais,
do PT e do governo é o de que essa atitude não é mudança de posição, mas um
adiamento. A CUT e o PT dizem que continuam querendo acabar com a contribuição
obrigatória e a unicidade sindical, mas que a legalização das centrais seria
apenas o aperitivo de uma reforma que seria feita no futuro, depois que os
movimentos sindicais se entendessem sobre a forma de financiar as entidades, ao
fim da contribuição obrigatória. O fim abrupto do chamado imposto sindical, sem
que o mesmo aconteça com as contribuições patronais ao Sistema "S"
(Sesc, Sesi, Senac e Senai), enfraqueceria os trabalhadores financeiramente,
enquanto se manteria o poder econômico das entidades empresariais, segundo os
sindicalistas.
Se o
problema é apenas mais tempo para que as centrais se entendam em torno da
reforma sindical, não seria necessário antecipar, nesse projeto que não obteve
acordo, apenas a legalização das centrais. O projeto aprovado pela Câmara, que
o Senado tende a aprovar sem o fim do imposto sindical, tornará as centrais
beneficiárias de parte do dia de trabalho recolhido de todo trabalhador
contratado. Não existe justificativa aceitável para que o financiamento das
centrais sindicais seja tão urgente - e mais urgente - do que o fim do imposto
sindical e da unicidade sindical, historicamente defendida pelo novo
sindicalismo que já ficou velho.
07/11/2007
Contribuição Sindical
Foi
tamanha a intensidade com que o lobby sindicalista avançou e “tomou conta” do
Senado, na quinta-feira, para manter a cobrança compulsória do imposto sindical
- que havia sido derrubada na Câmara dos Deputados, por emenda do deputado
Augusto Carvalho (PPS-DF), no bojo do Projeto de Lei 1990/07, que regulamenta
as centrais sindicais -, que o senador Paulo Paim (PT-RS), relator do projeto
na Comissão de Assuntos Sociais, cometeu o ato falho de chamar aquela reunião
de “assembléia” (como se estivesse numa assembléia sindical), quando bradou:
“Não vamos aceitar uma única vírgula que prejudique a organização dos
trabalhadores.” Certamente o senador gaúcho aí se esqueceu de que seu partido,
além das principais centrais sindicais - a CUT e a Força Sindical -, sempre
usou carradas de vírgulas para condenar a “contribuição” que tunga um dia de
salário por ano de cada trabalhador, mesmo contra sua vontade.
Os
outros dois relatores - Lucia Vânia (PSDB-GO), da Comissão de Constituição e
Justiça, e Francisco Dornelles, da Comissão de Assuntos Econômicos - também
prometeram fazer um relatório conjunto e “em defesa dos trabalhadores”,
ressuscitando a obrigatoriedade da cobrança do imposto sindical. Nas mais de
três horas de debate sobre o projeto que extingue a obrigatoriedade do imposto
sindical, os sindicalistas lotaram o auditório Petrônio Portela, do Senado, e
fizeram um lobby aberto, como nunca se vira na Câmara Alta, para reverter a
decisão da Câmara dos Deputados.
Como não
poderia deixar de ser, os líderes das principais centrais sindicais - que não
se conformam em perder a “boquinha” que só no próximo ano lhes renderá R$ 125
milhões, se o imposto sindical for ressuscitado - foram os mais enfáticos
defensores de suas rendas.
A
representante da CUT, sua secretária nacional de organização, Denise Motta Dau,
apesar de defender posição contrária à histórica da entidade e propugnar a
manutenção do imposto, até que demonstrou mais ponderação e equilíbrio em suas
palavras, limitando-se a dizer que “retirar a contribuição sem que haja um
período de transição é acabar com os sindicatos” (é claro que não explicou se
esse período de transição deveria ser de 1 ou de 100 anos). O presidente da
UGT, Francisco Canindé Pegado, não revelou muito respeito à representatividade
da Casa Legislativa, quando afirmou: “Não tenho dúvidas de que nós vamos impor
aqui no Senado a derrubada da emenda” (grifo nosso).
Mas foi
o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), que
tem desempenhado, nos últimos dias, o lobismo mais intenso para derrubar no
Senado o fim do imposto sindical obrigatório, o que usou verdadeiro terrorismo
em defesa da contribuição, falando despropósitos do tipo: “Querem tirar da
gente as conquistas que muitos de nós morreram defendendo”, e insinuando que o
fim da obrigatoriedade do imposto sindical pode significar também o fim das
férias ou o da licença-maternidade! É lamentável que um sindicalista, tendo se
tornado representante com mandato popular perante a Casa Legislativa federal,
tenha adquirido um dos piores vícios da classe política cabocla, que é a
demagogia desbragada, que parece zombar da inteligência do distinto público
eleitoral.
Aliás,
numa demonstração do “espírito democrático” daquela “assembléia”
síndico-legislativa, os circunstantes reagiram com vaias e gritos de “traidor”,
de “farsante”, de “inimigo do trabalhador” contra o único parlamentar que,
junto com 20 servidores federais, ali estava para apoiar a emenda que derrogara
o imposto sindical obrigatório - o mesmo deputado Augusto Carvalho.
Completamente avessos a qualquer diálogo, os sindicalistas tentaram, mas não
conseguiram calar o deputado, que dizia, convicto: “Esse imposto é ilegítimo.
Os sindicalistas precisam dele para meter a mão no bolso do trabalhador. O
imposto é uma excrescência.”
Como
efeito, não será, mesmo, uma excrescência, essa herança tipicamente peleguista
do Estado Novo? Numa coisa, porém, os sindicalistas têm razão: não tem sentido
acabar-se apenas com a contribuição obrigatória dos empregados, mantendo-se a
contribuição obrigatória dos patrões. As duas obrigatoriedades são
excrescências.
09/11/2007
Organização Sindical
JULIANNA
SOFIA
DA
SUCURSAL DE BRASÍLIA
O governo
e as centrais sindicais querem uma regra de transição para a nova fonte de
custeio dos sindicatos. O Ministério do Trabalho publicou ontem portaria
criando um grupo para discutir o assunto e no texto já estabeleceu que o atual
imposto sindical será substituído por uma "contribuição negocial". O
grupo também terá a tarefa de definir uma regra de transição para as mudanças.
Na
prática, isso quer dizer que o fim do imposto sindical está longe. Primeiro,
porque o grupo de trabalho elaborará proposta legislativa que ainda passará
pelo crivo da Casa Civil da Presidência da República. Depois de avalizado pelo
Planalto, o projeto ainda precisará ser aprovado pelo Congresso.
Segundo,
a existência de uma regra de transição de um modelo para outro significa que o
imposto sindical levará alguns anos para ser completamente extinto. De acordo
com a portaria, a proposta a ser elaborada pelo grupo deverá contemplar
alternativa definitiva para o custeio da organização sindical.
A
contribuição negocial deverá ser vinculada ao exercício efetivo de negociação
coletiva. Ou seja, somente as entidades sindicais que participarem de
negociações com patrões terão direito à nova contribuição. Além disso, a
portaria estabelece que a contribuição precisa passar por aprovação de
assembléia geral da categoria.
Hoje, o
imposto sindical é obrigatório, sendo cobrado de todos os trabalhadores.
Equivale a um dia de salário no ano. Neste ano, foram arrecadados R$ 690
milhões dos trabalhadores. A receita é dividida entre sindicatos (60%),
federações (15%), confederações (5%). Os 20% restantes vão para o governo. No
projeto que legaliza as centrais, ficou estabelecido que metade do valor
destinado ao governo irá para as centrais.
Foi na
votação desse projeto, no mês passado, que os deputados aprovaram uma emenda
que acabou com a obrigatoriedade do imposto sindical, na interpretação de
governo e sindicalistas. A proposta agora está nas mãos do Senado.
A
primeira reunião do grupo de trabalho que discutirá as mudanças está marcada para
terça. Serão dez sindicalistas, sendo dois representantes de cada central
sindical que, em maio, assinaram acordo com o governo para fazer reforma na
estrutura sindical.
09/11/2007
Entidade Sindical
A
Polícia Federal de Chapecó (SC) apreendeu ontem, na sede da Federação dos
Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul), entidade
sindical suspeita de desviar verbas repassadas pela União, 120 caixas com
documentos e 48 discos rígidos de computadores.
Segundo
o delegado Misael Mazzetti, os documentos podem auxiliar a PF a
"vincular" as supostas fraudes cometidas pela Fetraf-Sul com a
campanha do deputado estadual Dirceu Dresch (PT-SC), que é coordenador-adjunto
para SC na entidade.
- Já há
prova testemunhal robusta e outros elementos e irregularidades que levam a crer
(que houve caixa dois direcionado à campanha do petista) - disse o delegado.
No
inquérito, há planilhas sobre os cursos que apresentam itens como "gasto
real" (com valores mais baixos do que o recebido em recursos) e
"saldo Fetraf" (com a diferença entre "gasto real" e o que
foi recebido). Uma das planilhas tem o nome de "Cx II". Os dados
aparecem em DVDs.
A Fetraf
nega as suspeitas e não reconhece como seus os documentos gravados nos DVDs,
que foram obtidos pelo Ministério Público Federal e repassados à PF. A
federação afirma que documentos foram furtados de sua sede e que as planilhas
podem ser versões adulteradas das originais.
Segundo a investigação da PF, as fraudes podem chegar a R$ 6,4 milhões, com dinheiro dos ministérios do Trabalho e do Desenvolvimento Agrário e de outros órgãos federais
20/11/2007
Organização Sindical
Laycer
Tomaz

Manoel
dos Santos (E) disse que responsáveis por abusos devem ser punidos.
O
presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Manoel
José dos Santos, afirmou nesta terça-feira que 42 mil produtores rurais estão
sendo processados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)
no Rio Grande do Sul, por causa de dívidas de R$ 200 a R$ 9 mil com
contribuições sindicais. Segundo ele, muitos agricultores estão vendendo suas
terras para quitar os débitos. O assunto foi abordado em audiência pública na
Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural.
Em Santa
Catarina, as denúncias são em sentido contrário, ou seja, contra a própria
Contag: o deputado Adão Pretto (PT-RS) apresentou boletim de ocorrência
policial registrando abusos por parte da Contag contra os produtores rurais em
dívida com o imposto sindical. Segundo o documento, representantes dos
sindicatos têm ameaçado trabalhadores inadimplentes inclusive de hipoteca das
propriedades, caso não quitem seus débitos.
As
acusações sobre abusos nas cobranças foram rebatidas tanto pela Contag quanto
pela CNA. De acordo com o presidente da CNA, Rodolfo Tavares, o maior valor
pago à entidade é de R$ 8.890 mil, relativo a propriedades avaliadas em mais de
R$ 9 milhões. Manoel dos Santos, da Contag, alegou desconhecer as reclamações e
disse que, caso os problemas estejam realmente ocorrendo, trata-se da ação de
"gangues" e os responsáveis devem ser punidos.
Novos
critérios
A
discussão ocorreu durante audiência proposta pelo deputado Celso Maldaner
(PMDB-SC) para debater o Projeto de Lei 751/03, do deputado Assis do Couto
(PT-PR), que muda os critérios de definição de proprietários e trabalhadores
rurais para efeitos de contribuição sindical. Atualmente, quem possui
propriedade de até dois módulos fiscais é considerado como trabalhador e paga o
imposto sindical para a Contag. Os produtores rurais que possuem terras acima
desses dois módulos contribuem para a CNA.
A
proposta de Assis do Couto redefine como trabalhadores todos aqueles que tenham
propriedades de até quatro módulos fiscais e não possuam empregados. Na nova
categoria, vão vincular-se também à Contag, e não mais à CNA como ocorre
atualmente. O projeto enquadra como empregadores os proprietários de mais de
quadro módulos ou que possuam empregados, ainda que sua propriedade
constitua-se de apenas um módulo.
De
acordo com Assis do Couto, a lei atual provoca contradição no ordenamento
jurídico e causa problemas para os agricultores familiares. "O problema é
que, para fins de política agrícola, o governo federal define como trabalhador
rural aquele que explora imóvel de até quatro módulos", afirma. A mesma
definição, segundo ele, consta da Lei Agrária, que caracteriza como pequena
propriedade o imóvel rural com área entre um e quatro módulos fiscais.
Crédito
rural
Pelo
projeto, o proprietário que, em virtude de redução da produtividade, não conseguir
pagar suas contribuições sindicais como empregador poderá fazê-lo na condição
de trabalhador. Com isso, não terá seu nome inscrito em cadastros de
inadimplentes e continuará apto a receber crédito rural.
Segundo o
deputado Anselmo de Jesus (PT-RO), atualmente mais de 100 mil pequenos
agricultores não conseguem se beneficiar do Programa Nacional de Fortalecimento
da Agricultura Familiar (Pronaf) pelo fato de serem considerados como
devedores.
Produtividade
Na opinião
de Rodolfo Tavares, a proposta de Assis do Couto é uma "temeridade",
pois, dependendo da localização da terra e do tipo de atividade econômica, a
medida permitirá que proprietários de até 480 hectares fiquem isentos de
contribuição.
Manoel
dos Santos, porém, disse que não se pode considerar apenas o tamanho da
propriedade. No Nordeste, conforme exemplificou, quem tem entre 200 e 300
hectares não consegue garantir a sua subsistência. "O tamanho do módulo
fiscal depende da produtividade da região", explicou.
21/11/2007
Contribuição Sindical
Thiago
Vitale Jayme
Sérgio Lima/Folhaimagem

Dornelles, relator na CAE do Senado: proposta contempla fim da contribuição sindical em 2010
A
decisão final sobre o futuro do imposto sindical começa a tomar forma no
Senado. Os três relatores do projeto de lei de regulamentação das centrais
sindicais devem incluir em seus relatórios um período de transição entre o
modelo atual e a adoção da contribuição negocial, por meio da qual a assembléia
de cada setor poderá decidir sobre o imposto (inclusive com a opção de
extingui-lo).
Se os
três relatores pensam da mesma forma sobre a transição, há divergências em relação
à forma de incluir o imposto no projeto e sobre o período da transição. O
senador Francisco Dornelles (PP-RJ), relator da proposta na Comissão de
Assuntos Econômicos (CAE), vê duas possibilidades. "Ou mantemos o modelo
atual sem alterações e esperamos o projeto prometido pelo governo e pelas
centrais, ou incluímos uma emenda que extingue o imposto sindical em 2010 caso
não seja aprovado um projeto de contribuição negocial", explica
Dornelles.
Há um acordo
entre o Ministério do Trabalho e centrais sindicais de elaboração de um projeto
de lei a ser enviado ao Congresso até fevereiro. O texto implementaria a
contribuição negocial. Até lá, os dois lados pedem aos senadores que mantenham
o sistema atual de imposto, que sustenta as cúpulas sindicais.
O
senador Paulo Paim (PT-RS), relator do texto na Comissão de Assuntos Sociais
(CAS), tem posição parecida. "Acho que a transição seria salutar",
afirmou. Mas Paim quer incluir a contribuição negocial já no projeto das
centrais, dispensando a necessidade de o governo enviar o texto prometido para
fevereiro. "São duas linhas a serem acrescentadas ao projeto. Podemos
fazer isso agora", diz Paim. Dornelles tem reservas quanto à inclusão do
tema agora. "É uma questão mais polêmica. Acho que deve ser tratada em
outro texto", afirma.
Paim tem
receio de que a proposta de Dornelles possa acabar com o imposto sem que o
Congresso delibere sobre o tema. "Se prevermos o fim do imposto em 2010
caso o governo não envie um projeto e o Congresso não aprova o texto? Fica
muito complicado para os sindicatos. Acho que devemos incluir no texto a
questão da contribuição negocial mesmo", diz o petista.
A
senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), relatora do texto na Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ), se reuniu ontem com a bancada tucana e afirmou que pretende
incluir o período de transição. Flexa Ribeiro (PSDB-PA), indicado para tratar
do assunto pela bancada, revela que a transição pode ser de três anos. Não há
definição da bancada sobre a inclusão da contribuição negocial no texto ou
não.
20/11/2007
- 16h12
Contribuição Sindical
A pedido
do senador Francisco Dornelles (PP-RJ), a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE)
adiou para a semana que vem a votação do projeto que trata da contribuição
sindical. Dornelles, relator da matéria no âmbito dessa comissão, disse que não
apresentou seu relatório final nesta terça-feira (20) porque quer conhecer o
posicionamento dos outros senadores. O assunto é considerado polêmico, pois as
centrais sindicais de trabalhadores não querem o fim da obrigatoriedade da
contribuição e pressionam os parlamentares para que a proposição seja
rejeitada.
Dornelles,
no entanto, declarou que o projeto, da forma como foi aprovado na Câmara dos
Deputados, na verdade não extingue o tributo, mas faz com que as empresas
deixem de recolhê-lo - o que, segundo o relator, deixaria os empregados em
situação de inadimplência frente à contribuição. O senador também argumentou
que "não se pode acabar com esse imposto sem antes criar uma contribuição
negocial, para que não haja um lapso e os sindicatos se encontrem em uma
situação difícil".
Por
outro lado, o relator considerou positivo o item, incluído na Câmara, que prevê
a prerrogativa do Tribunal de Contas da União (TCU) de fiscalizar os recursos
obtidos pelas centrais sindicais com essa contribuição.
Já o
presidente da CAE, senador Aloizio Mercadante (PT-SP), apoiou as centrais
sindicais e afirmou que "elas têm de ser ouvidas". Segundo ele, a
emenda aprovada na Câmara, que torna facultativa a contribuição, de autoria do
deputado Augusto Carvalho (PPS-DF), "é inoportuna e vai trazer um tumulto
brutal para a vida dos trabalhadores e das centrais sindicais".
- Não
podemos patrocinar essa emenda no Senado - declarou Mercadante.
O
projeto tramita em regime de urgência, simultaneamente, em três comissões - além
da CAE, nas Comissões de Assuntos Sociais (CAS) e de Constituição, Justiça e
Cidadania (CCJ). Essa matéria foi aprovada na Câmara dos Deputados como PL
1.990/07 e, no Senado, está sendo analisada sob a forma do PLC 88/07.
23/11/2007
Opinião
O DEBATE
sobre a contribuição sindical envolve duas questões importantes nem sempre
devidamente distinguidas pelos debatedores. Uma delas é a compulsoriedade da
contribuição, a outra é a sua cobrança. Embora o debate tenha se concentrado na
primeira, a segunda deveria ser igualmente abordada. Vamos às duas, então.
Comecemos
pela compulsoriedade. Para mim, a contribuição sindical deveria ser
obrigatória, mesmo para os não-associados. Explico.
Quando
um sindicato consegue uma melhoria para os empregados de uma empresa, a
conquista é estendida a todos os trabalhadores. Por exemplo, quando o sindicato
negocia aumento salarial, a empresa não paga o novo salário só aos associados.
Seria ato discriminatório (portanto, infração à norma constitucional), além de
uma política de gestão bastante questionável (pois criaria insatisfação entre
os que não fossem beneficiados).
Para não
incorrer nos dois erros, a empresa estende a todos o benefício que o sindicato
conquistou. Essa situação cria um incentivo ao "caronismo": muitos
trabalhadores prefeririam desfrutar dos serviços oferecidos pelo sindicato sem
pagar por eles.
Como
cidadãos, vivemos situações parecidas o tempo todo. Todos querem que o Estado
ofereça segurança pública, Justiça, iluminação pública, saúde pública, defesa
nacional e assim por diante. Para financiar esses serviços, o Estado impõe
impostos a todos. Se os impostos não fossem compulsórios, muitos cidadãos
pegariam carona nos serviços do Estado.
Os
economistas chamam esses tipos de serviço de "bens públicos". E dizem
que a única maneira de pagar pela oferta de um bem público é cobrar
compulsoriamente de todos os beneficiários potenciais.
Como a
representação coletiva de interesses que o sindicato oferece é um bem público,
a cobrança compulsória da contribuição sindical seria perfeitamente
justificada.
Vamos à
segunda questão: quem deveria cobrar a contribuição sindical compulsória? O
importante é lembrar que a compulsoriedade não implica necessariamente que o
Estado seja o cobrador.
A compulsoriedade
é direito do sindicato, e não obrigação do Estado. Desde que foi instituída por
Getúlio Vargas, a contribuição sindical tem sido cobrada pelo Ministério do
Trabalho, que fica com 20% da receita. O resto é dividido entre três níveis de
representação: o sindicato fica com 60%, a federação estadual, com 15%, e a
confederação nacional, com 5%.
O
governo Lula acaba de firmar um acordo pelo qual o Estado vai abrir mão de
metade da sua parcela para destiná-la às centrais sindicais, que ainda não
participavam da divisão e que agora ficarão com 10% do bolo.
Claro
que esse não é um bom modelo. Os sindicatos e as entidades superiores desfrutam
da receita sem exigências de contrapartida. Como conciliar a obrigatoriedade da
contribuição com a prestação de serviços e a efetiva representatividade?
O
caminho seria desvincular a compulsoriedade da contribuição (que é
perfeitamente defensável) da garantia do recolhimento. O Estado deixaria de
garantir a coleta, só garantiria o direito do sindicato de cobrar. Ao sindicato
caberia a responsabilidade pela cobrança, o esforço de recolher as
contribuições dos trabalhadores, bem como a decisão de quanto e como repassar a
receita para as entidades superiores. Tendo que cobrar diretamente dos
trabalhadores, seria mais pressionado a prestar contas a eles.
O mesmo
ocorreria com as entidades superiores. Se quisessem recursos, teriam que
negociar com os sindicatos a forma da filiação destes às federações,
confederações e centrais. Parte do poder decisório nas estruturas sindicais
seria transferida às instâncias inferiores e o resultado muito provavelmente
seria melhor do que o que temos observado há sete décadas.
É
importante dizer que, quando Getúlio criou a contribuição sindical (na época
chamada de imposto sindical), estendeu o conceito aos sindicatos patronais
também. Portanto, a argumentação acima se aplica igualmente às entidades
patronais, que desfrutam do mesmo tratamento legal concedido aos sindicatos de
trabalhadores. A revisão do modelo proposta deve se estender às entidades
patronais por questão de eqüidade.
Se
quisermos uma sociedade democrática, precisaremos garantir o direito dos
trabalhadores de ter sua representação coletiva. Mas os trabalhadores devem
também ter o direito de controlar seus representantes, de saber a quem estão
pagando e o que estão fazendo com suas contribuições. Está na hora de
distinguir essas duas dimensões e dissociar a contribuição sindical da confusão
sindical.
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HÉLIO
ZYLBERSTAJN, 61, é professor da Faculdade de Economia, Administração e
Contabilidade da USP e presidente do Ibret (Instituto Brasileiro de Relações de
Emprego e Trabalho).
27/11/2007
Centrais Sindicais
Thiago
Vitale Jayme
O
senador Francisco Dornelles (PP-RJ) apresentará hoje seu relatório sobre o projeto
de lei de regulamentação das centrais sindicais na Comissão de Assuntos
Econômicos (CAE) do Senado. O texto a ser apresentado pelo parlamentar vai
manter o imposto sindical como é hoje, obrigatório. Dornelles incluirá na
proposta um artigo no qual a contribuição compulsória será mantida até que o
Congresso Nacional aprove projeto de remodelação do imposto, independentemente
do tempo que isso levar. O relatório desfigura todo o projeto e as mudanças
discutidas e aprovadas na Câmara, cedendo à pressão dos sindicalistas.
O
Ministério do Trabalho e os sindicatos criaram um grupo de trabalho que promete
enviar, até fevereiro do próximo ano, um texto exclusivamente sobre o imposto
sindical. O projeto a ser analisado hoje, na CAE, trataria exclusivamente sobre
a regulamentação das centrais. As duas partes elaboraram um documento público e
entregaram aos senadores como garantia do cumprimento do acordo e do
prazo.
"No
momento em que for aprovado esse projeto sobre o imposto sindical, a cobrança
obrigatória será extinta", diz Dornelles. As cúpulas das centrais
sindicais, e os sindicalistas-deputados, não querem acabar com o imposto. O
senador não acredita ser temerária a falta de um prazo fixo para o fim do
imposto, deixando a questão à mercê da vontade do governo e do moroso ritmo do
Poder Legislativo. "Estou confiando em um documento público do governo e
das centrais", diz.
Em seu
texto, Dornelles vai citar o documento e anexá-lo ao relatório. Fará menção à
promessa do governo de enviar a proposta sobre o imposto sindical até
fevereiro. O senador sabe que qualquer tentativa de alteração das regras do
imposto sindical no texto sobre as centrais poderia ter um futuro incerto. O
ministro do Trabalho, Carlos Luppi (PDT-RJ), já avisou à base aliada que, se o
texto sobre as centrais for alterado e o Congresso descumprir o acordo firmado
com os sindicatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetaria o
texto.
Há ainda
a possibilidade de Dornelles incluir uma data-limite para o Congresso aprovar a
modificação nas regras do imposto sindical. Alguns senadores poderão tentar
incluir 2010 como o último ano do imposto obrigatório. A fixação da data seria
uma forma de pressionar o governo, a Câmara e o Senado a legislar rapidamente
sobre o tema.
Apesar
de Dornelles apresentar seu relatório hoje, a base aliada vai pedir vista e
adiar a votação do texto. A idéia é esperar a votação do projeto na Comissão de
Assuntos Sociais (CAS), que deve acontecer na quarta-feira. Caberá a esse
colegiado a missão de discutir mais profundamente o conteúdo do texto, que é
relatado pelo senador Paulo Paim (PT-RS).
Os
partidos governistas querem que as três comissões (a de Constituição e Justiça
também analisará o tema) aprovem textos consensuais. Paim deverá acompanhar o entendimento
de Dornelles e esperar pelo projeto a ser enviado pelo governo e pelas
centrais.
O
consenso entre os relatórios das comissões será fundamental para os próximos
passos a serem dados pelo governo. Se o texto chegar muito polêmico ao
plenário, o governo poderá retirar a urgência do projeto e deixar sua votação
para 2008. A idéia é não melindrar ainda mais o já tenso clima dentro do
Senado: a ordem é não atrapalhar a aprovação da prorrogação da CPMF. O governo
não quer votar nenhum texto muito polêmico no plenário do Senado até garantir
os R$ 40 bilhões do imposto.
Hoje, na
CAE, um outro ponto do texto será abordado pela oposição. A senadora Kátia
Abreu (DEM-GO) quer alterar a definição das centrais contida no projeto. O
texto prevê que as centrais "representarão" os trabalhadores. A
democrata quer mudança para "coordenar a representação".
Com a
redação do texto original, a senadora prevê que as centrais sindicais
pretendem, a médio prazo, acabar com a representatividade de federações e confederações,
substituindo-as, inclusive, juridicamente. Segundo ela, a redação atual do
texto é flagrantemente inconstitucional.
27/11/2007
Editorial
A Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT) e legislação afim têm aspectos positivos e também
negativos. O mais positivo foi a criação, já nos longínquos anos 1930, de um
escudo de proteção ao trabalhador num momento em que se iniciava o processo de
industrialização do Brasil, mas ainda se mantinha a mentalidade escravagista
profundamente incrustada na cultura nacional. Um aspecto negativo que podemos
citar foi, e continua sendo, a instrumentalização do movimento trabalhista e
sindical pelo governo da vez. Getúlio Vargas, que criou as leis do trabalho
pós-feudal no nosso País, criou também, para respaldar sua eleição democrática
em 1950, o Partido Trabalhista Brasileiro (hoje pasteurizado, pós-regime
militar), com um programa moderno, para a época, e capaz de superar uma certa
inspiração ditatorial das leis produzidas no bojo da Revolução de 1930.
Há
atualmente uma tendência a adaptar a legislação do trabalho às peculiaridades e
necessidades do século 21. É uma tendência mundial. Também na Europa ocidental,
que tem movimentos sindicais fortes, seus impactos se fazem sentir. É nessa
direção que caminha a proposta que está sendo discutida no Congresso de
revogação da obrigatoriedade de pagamento do chamado Imposto Sindical (dentro
do projeto das centrais sindicais). Na verdade, trata-se de uma contribuição
criada pela Constituição fascistóide de 1937 (naquela época, o fascismo era
moda, até na civilizada Europa) e incorporada à CLT. O fato é que todo
trabalhador brasileiro é obrigado a financiar os sindicatos, mesmo que não seja
militante sindicalista ou simplesmente sindicalizado. Ele paga como
contribuição sindical o equivalente a um dia de seu salário por ano e não tem
condições de controlar esse montão de dinheiro.
No mês
passado, a Câmara dos Deputados derrubou esse caráter obrigatório da
contribuição. De acordo com o aprovado, ela torna-se facultativa, dependendo de
autorização do trabalhador para ser descontada na folha de pagamento da
empresa. Outra mudança qualitativa é que as centrais devem prestar contas do
dinheiro recebido ao Tribunal de Contas da União. O projeto ainda vai para o
Senado e o lóbi sindicalista já caiu em campo para tentar modificá-lo,
inclusive em concerto com o governo. Todos os governos, desde a criação da CLT,
buscam controlar e aparelhar o movimento sindical. Daí a aplicação do termo
“pelego” para caracterizar o sindicalista governista (pelego, palavra gaúcha, é
uma peça para amaciar a sela dando mais conforto ao cavaleiro, algo equivalente
ao capacho para os pés), também conhecido como sindicalista “de resultados”.
Para quem?
Na
realidade é antiga a cooptação de sindicalistas pelo governo em troca de
prestígio, cargos (até ministérios), perpetuação no poder, mordomias variadas
que incluem para muitos uma vida de luxo. Até dirigentes de categorias
profissionais mal-remuneradas moram em residências dignas de patrões muito
bem-sucedidos, têm carros de luxo blindados. Os beneficiários dessa
promiscuidade não querem entregar facilmente os pontos. Já surgem
interpretações de que a Câmara não tornou facultativa a contribuição. E
pretendem trocar seis por meia dúzia entregando a decisão sobre o assunto a
assembléias controladas pelas diretorias dos sindicatos. Mas o deputado Augusto
Carvalho (PPS-DF), autor da emenda na Câmara, afirma que a intenção do
legislador, ao aprovar a mudança, foi tornar a contribuição facultativa, e que
o Senado deve aperfeiçoar o texto, acabando também com a obrigatoriedade da
contribuição que vai para os sindicatos patronais, órgãos de classe do
empresariado.
Está aí
mais uma das reformas prometidas há tanto tempo por sucessivos governos. E mais
uma boa oportunidade para os parlamentares promoverem uma reforma séria que
acabe com a tutela dos trabalhadores pelo Estado através dos sindicatos. Desde
o período democrático que se seguiu ao Estado Novo, trabalhadores e
sindicalistas de espírito mais atualizado com a contemporaneidade procuram
sepultar o peleguismo e construir um movimento sindical forte e independente de
tutelas. Está na hora. Com a palavra o Congresso e o sindicalismo realmente
democrático. A mudança não é novidade e consta da Convenção 87 da Organização
Mundial do Trabalho, de quase 60 anos atrás.
27/11/2007
Seguro Rural
EDUARDO
SCOLESE
DA
SUCURSAL DE BRASÍLIA
Apesar
de o número de adesões ter dobrado na atual safra, metade dos agricultores do
semi-árido que perderam pelo menos 50% da produção por conta da estiagem ainda
não consegue acessar o seguro criado justamente para atendê-los.
Na safra
2007/8, 686,3 mil agricultores, segundo o governo federal, estão inscritos no
programa -alta de 98% ante a safra anterior (346,3 mil).
Apesar
disso, estimativa da Secretaria da Agricultura Familiar, do Ministério do
Desenvolvimento Agrário, aponta para cerca de outras 715 mil famílias do
semi-árido que se encaixam no perfil de atendimento do programa Garantia Safra
-com renda per capita de até um salário mínimo e meio (R$ 570) e que tenham
perdido na estiagem ao menos metade da produção de arroz, feijão, milho,
algodão ou mandioca.
"Trabalhamos
com a perspectiva em torno de 1,4 milhão de famílias que poderiam hoje estar
participando do programa", diz José Arnaldo Brito, coordenador do
programa.
O
Garantia Safra atende famílias do Nordeste e das regiões norte de Minas Gerais
e do Espírito Santo. Em sua maioria, são arrendatários, meeiros ou posseiros
com áreas em torno de um a dois hectares e que produzem, principalmente, milho
e feijão para a subsistência familiar.
Uma
série de burocracias precisa ser cumprida antes do acesso aos recursos
-procedimentos que não dependem só da vontade do agricultor, mas dos recursos
disponibilizados por Estados e municípios.
A
primeira etapa cabe ao próprio agricultor: pagamento da taxa de R$ 5,50, que
representa 1% do valor do seguro. Depois disso, é preciso que a prefeitura do
município banque 3% desse valor (R$ 16,50) e, em seguida, o governo do Estado
entre com outros 6% (R$ 33). O dinheiro segue ao fundo, no qual a União entra
com 20% (R$ 110).
Vencidas
essas etapas, a burocracia prossegue. Para acessar o recurso (cinco parcelas de
R$ 110), o agricultor precisa ainda que um laudo técnico assinado pelo governo
do Estado ratifique a perda de metade de sua produção e que o governo federal
reconheça a situação de emergência do município.
Para
Antoninho Rovaris, secretário de Política Agrícola da Contag (Confederação
Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), Estados e municípios deveriam ser
"obrigados" a aderir ao programa, diante de uma demanda dos
agricultores. Além disso, o pagamento do seguro não deveria ser atrelado à
decretação do estado de emergência no município. "O programa já nasceu
burocratizado. Hoje, há uma série de obstáculos ao agricultor", afirma.
Brito
admite a burocracia, mas destaca as diferentes responsabilidades. "É um
processo pensado em que existe uma co-responsabilidade dos agricultores, dos
municípios, dos Estados e do governo federal. Em vez de estar na porta de uma
prefeitura esperando uma cesta básica, o agricultor recebe no caixa um dinheiro
para aquilo que a família necessita."
No
primeiro ano do programa, na safra 2002/3, o seguro foi de R$ 475. A partir de
então, está em R$ 550. Por pressão dos próprios agricultores, o governo estuda
ampliá-lo na safra 2008/9 -há um limite de R$ 700, imposto pela lei que criou o
Garantia Safra. Em 2007, o governo federal reservou R$ 75 milhões para o
programa.
04/12/2007
Opinião
Nas
últimas décadas o meio rural brasileiro passou por significativas
transformações, muitas das quais em curso e com contornos ainda indefinidos. A
agricultura brasileira mudou, pode-se dizer radicalmente, sob o impulso de
novas tecnologias e do contexto institucional que se vem consolidando desde os
anos 90, marcado pela democratização, abertura comercial, estabilização
monetária, pressões sociais e maior peso da sociedade civil na dinâmica e nas
decisões econômicas, etc. Essas transformações têm impacto profundo no mercado
de trabalho rural e vêm modificando tanto o potencial de geração de novas
oportunidades quanto a estrutura ocupacional, o perfil dos trabalhadores, as
relações entre os próprios trabalhadores e entre o capital e o trabalho.
O
agronegócio brasileiro enfrenta hoje enormes oportunidades e desafios. Ao lado
da necessidade de dotar o País de infra-estrutura, logística, sistemas de
vigilância sanitária, destacam-se os seguintes desafios: 1) de acompanhar o
ritmo de inovação tecnológica; 2) de continuar crescendo com respeito ao meio
ambiente e, principalmente, preservando a biodiversidade, recurso estratégico
do País e para a humanidade; 3) de incluir os milhares de agricultores
familiares nos circuitos dinâmicos de geração de riqueza; e 4) de modernização
das relações de trabalho.
Apesar
da urbanização, a agropecuária responde por um conjunto importante de
atividades, o meio rural abriga uma população expressiva e milhões de
trabalhadores vivem de empregos gerados diretamente pela agropecuária. O
desafio aqui é o de assegurar os direitos e dar proteção aos trabalhadores rurais
sem introduzir um viés contra o trabalho que reduziria a própria geração de
empregos no meio rural. Não se trata de uma equação de fácil solução, em
particular por causa da tradição de estender ao meio rural mecanismos de
regulação típicos da realidade urbana, sem levar em conta as especificidades da
atividade agropecuária.
No
contexto atual, as relações e condições de trabalho adquirem uma renovada
importância. De um lado, o estágio de evolução da sociedade brasileira já não
permite a convivência com relações de exploração que não correspondem ao
próprio marco institucional em vigor no Brasil, a começar pela Constituição
Federal, que define os direitos e deveres básicos dos cidadãos. De outro lado,
as relações e condições de trabalho são condicionantes da competitividade e
sustentabilidade da agricultura brasileira. O uso insustentável de recursos
naturais e a superexploração da mão-de-obra barata e sem direitos já não
conseguem assegurar a competitividade do País, como se observava no passado
recente com a chamada competitividade espúria. Ao contrário, cada vez mais os
consumidores e a sociedade civil organizada exigem respeito ao meio ambiente e,
principalmente, a valorização do homem no processo de produção.
A
agricultura e o meio rural sempre foram o espaço da mão-de-obra desqualificada,
do trabalho braçal e mal pago, e a produtividade do trabalho estava mais
associada à mecanização, sementes e insumos que ao capital humano propriamente
dito. Isto começa a mudar e cada vez mais a rentabilidade da agropecuária está
associada às habilidades do trabalhador, seja a formação do gerente de produção
seja habilidade e cuidado na colheita, manual ou mecânica. O peão de uma
fazenda de nível médio já não tange boi “tucura”, mas um nelore de valor médio,
que precisa ser vacinado e tratado e cuja perda causa prejuízo; o operador de
máquina pilota um capital razoável, que não foi adquirido com subsídios e que
tem custo de manutenção elevado. A decisão da dose de químicos pode ser a
diferença entre lucro e prejuízo. Em muitas áreas os produtores já reportam
escassez de mão-de-obra qualificada, prejudicando a expansão.
É
inegável que a grande maioria dos agricultores, mesmo enfrentando uma
legislação que está longe de ser adequada, vem rapidamente se adequando às novas
exigências legais e institucionais no que se refere aos trabalhadores
permanentes e temporários. Mas ainda assim a sociedade toma conhecimento da
ocorrência de casos de trabalho humilhante, totalmente à margem da civilidade,
que não deveriam existir nem como exceção, e que contribuem para denegrir a
imagem do conjunto dos agricultores e do agronegócio em geral. É por isso que
os produtores e suas associações deveriam juntar-se aos fiscais do trabalho
para zelar e para impedir tais abusos que comprometem a todos.
*Antônio Márcio Buainain é professor assistente doutor do Instituto de Economia da Unicamp. E-mail: buainain@eco.unicamp.br