CLIPPING RURAL-CNA

 REFORMA -AGRÁRIA

 

Ainda a reforma agrária

 

R$ 10 bilhões, a conta da reforma agrária    

 

Invasão na universidade

 

Milícia chega à Baixada e ameaça agricultores

 

Sem-terra invadem usina de PE em débito com Previdência 

 

Incra afirma que pode desapropriar imóvel produtivo

 

Federação de Rainha administra verba federal para sem-terra; para MST, líder 'vende ilusão'

 

Pará promete atacar miséria no campo

 

 

  Presidente do Incra entrega certificados em assentamento

 

 

  Dirigente do Incra nega irregularidade e acusa fazendeiros

 

 

  Incra vai expulsar sem-terra que derruba mata

 

 

  Governo Lula desmobilizou movimentos dos sem-terra

 

  Quilombolas, Marambaia e ONGs: Denis Lerrer Rosenfield   

 

 

 

  Estado de Minas

31/08/2007

Opinião

Ainda a reforma agrária

 

 Eloy Alves Filho - Doutor em história econômica (USP), pesquisador do Departamento de Economia da Universidade Federal de Viçosa

 

 

Em 1º de agosto, li, nesta seção, o artigo “Reforma invisível”, de Augusto Marzagão, no qual o jornalista levanta uma série de questionamentos sobre a reforma agrária em curso no país. Ressalta, entre outros aspectos, que as ações implementadas, até então, não garantiram melhorias na qualidade de vida das populações rurais. É notória a falta de consenso entre estudiosos dedicados à análise de resultados de medidas adotadas tanto no 1º Plano Nacional de Reforma Agrária, regulador das ações governamentais por quase duas décadas, quanto no 2º Plano, em vigor desde 2003. A constatação estimula o diálogo e suscita a emergência de diferentes posições a respeito do tema. À opinião pública importa conhecer diferentes matizes que caracterizam as políticas públicas governamentais voltadas à resolução de problemas que, de algum modo, afetam não só a vida de parcelas da população diretamente beneficiadas (no caso, os trabalhadores rurais), mas também da sociedade brasileira como um todo.

 

Criou-se uma grande expectativa na sociedade brasileira e nos movimentos sociais do campo quando, entre as principais metas do 2º Plano, destacaram-se a ampliação nos investimentos em favor da recuperação e da consolidação econômica dos assentamentos já existentes, no sentido de “não reproduzir um modelo de abandono e exclusão dos assentamentos rurais” e, também, de “tornar o meio RURAL, definitivamente, um espaço de paz, produção e justiça social, propiciando qualidade de vida a essa parcela da população”. Condições fundamentais, conforme o discurso oficial, “para a retomada do crescimento econômico e para a construção de uma nação moderna e soberana”. Passados pouco mais de três anos do lançamento do 2º Plano, talvez seja oportuno verificar em que medida essas promessas puderam ser cumpridas, especificamente no caso dos assentamentos rurais em Minas. Minha finalidade é apresentar dados de estudo recém-concluído, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), que teve entre outros objetivos, conhecer e analisar a opinião dos beneficiários sobre o programa de reforma agrária no estado.

 

Em 2002, estivemos à frente de uma pesquisa desenvolvida para contribuir para a geração de informações que pudessem pautar os atuais debates, ressaltando o item grau de satisfação dos assentados com o programa de reforma agrária, no que diz respeito à assistência técnica e ao acesso a serviços de infra-estrutura. Foram coletadas as opiniões de beneficiários residentes em assentamentos rurais, criados há pelo menos cinco anos, situados em quatro regiões: Triângulo Mineiro, Oeste, Centro e da Mata. Comparativamente, foi possível verificar que, se em 2002, cerca de 81,90% dos assentados em Minas se ocupavam do trabalho na terra, antes mesmo de se tornarem beneficiários da reforma agrária; em 2007, apenas pouco mais de 50% indicaram anterior envolvimento com esse tipo de atividade. Quanto à melhoria das condições de vida a partir da posse da terra, naquele ano, 92,98% dos assentados revelaram-se satisfeitos com as condições de vida em que se encontravam. Sobre esse mesmo aspecto, este ano, 74,77% ressaltaram ter obtido melhorias nas condições de moradia e 63,96% na alimentação. Acredito ser fundamental destacar que 79,28% apontaram que hoje têm melhores perspectivas para garantir um futuro para si e para suas famílias, uma vez que o maior acesso a serviços e assistência técnica tem viabilizado ampliar a produção e sua possibilidade de comercialização. É com base nesses dados que me inscrevo entre aqueles que problematizam, sim, os limites de investimentos capazes de promover as prometidas e esperadas mudanças no atendimento pleno aos anseios das comunidades rurais, mas que acreditam também, na pertinência do reconhecimento de avanços que evidenciam a centralidade do tema da reforma agrária entre as preocupações de governantes, especialmente desta última década. 

 

Jornal do Brasil                       <Voltar>

30/09/2007

 

Política Fundiária

R$ 10 bilhões, a conta da reforma agrária    

 

Leandro Mazzini

 

 Brasília. A ocupação de sete sedes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), na segunda-feira, com o objetivo de protestar contra a morosidade da reforma agrária, jogou luz a uma realidade ainda desanimadora para as famílias. Pelo que afirma o próprio presidente do Incra, Rolf Hackbart, o maior desafio do governo não é dar terras, mas infra-estrutura aos cerca de 7.700 assentamentos existentes no país.

 

Hackbart ressalta que o órgão, uma autarquia do Ministério do Desenvolvimento Agrário, precisa de no mínimo R$ 10 bilhões para levar água, luz e saneamento às comunidades, para que os lavradores e suas famílias assentadas tenham mais argumentos para ficarem no campo. Cobra apoio dos Estados e municípios na questão.

 

- Tudo cai no colo do Incra - lamenta Hackbart.

 

 

E lembra que, apesar de o órgão acompanhar de perto os assentamentos, falta ainda a inclusão oficial desses lavradores nas políticas sociais do governo. O Bolsa Família, por exemplo, não chega a essas comunidades.

 

- Temos uma política tímida. Precisamos de "programas de reconversão", ou seja, tem que haver uma política pública de forma sustentável, economicamente e socialmente - enfatiza Hackbart.

 

Atualmente, nem um terço dos 7.700 assentamentos tem eletrificação, o que dificulta a vida dos lavradores. O governo estima em 748 mil as famílias que ainda vivem à base de lampiões ou velas - de acordo com os dados da fiscalização cadastral do Incra. O presidente do órgão, há décadas estudioso do assunto, vê no avanço da tecnologia no campo a principal causa do incremento do movimento social.

 

- A principal origem do problema vem do modelo de agricultura. Dou um exemplo: um prefeito de uma cidade de Goiás, que também é fazendeiro, comprou 12 colheitadeiras e desempregou 2.500 pessoas.

 

Segundo Hackbart, esse é um dos fenômenos que reforçam o MST e incham as periferias da cidade. Daí o fato de grande parte do movimento acolher pessoas dos subúrbios das capitais. Hackbart defende a urgência na implantação de políticas de aperfeiçoamento profissional para esses lavradores. Inclusive nos assentamentos. Isso diminuiria em muito o número de famílias que deixam as comunidades - cerca de 10% dos assentados. Esse índice oculta outro motivo preocupante para o Incra, e que ainda não tem controle. O órgão não tem como separar o joio do trigo na questão da reforma agrária. Entrelinhas, saber quem de fato quer a terra para a subsistência e quem a deseja para negociatas.

 

- É difícil controlar a venda de terrenos - admite Hackbart. - Mas muitas pessoas vão embora mesmo é por falta de créditos.

 

Nesse cenário, lembra o presidente do Incra, seria fundamental a ajuda do governo nos programas sociais dentro dos assentamentos. Por ironia do destino, o objetivo esbarra, no entanto, nas regras da concessão de benefícios como o Bolsa Família. Pela lei, só pode receber a família que ganha até dois salários mínimos. A partir do momento em que o lavrador recebe sua gleba para plantar no assentamento, já figura como pequeno produtor rural, dono de posses, e ainda tem o crédito de R$ 17.400 - em repasses gradativos - para investir. O que, na visão do Incra, é um grande avanço da reforma agrária, acaba por dificultar a inclusão social do cidadão como beneficiário de um programa que pode lhe ajudar no sustento. Soma-se a isso o fato de a maioria dos assentamentos não possuírem a infra-estrutura necessária para o plantio, como irrigação e energia.

 

O Brasil tem 850 milhões de hectares e os projetos de assentamentos do Incra abrangem, hoje, cerca de 72 milhões de hectares, com 800 mil famílias - metade delas assentadas desde o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enfatiza Hackbart. O custo de uma família assentada gira em torno de R$ 41 mil. O Incra calcula que pelo menos 200 mil famílias - algo em torno de 1 milhão de pessoas - ainda estão acampadas em terras da União, beira de estradas, propriedades improdutivas e fazendas ocupadas por grileiros.

 

Hackbart destaca que houve avanços, e há planos otimistas para a reforma agrária, apesar de não dispor ainda do bilionário recurso para a infra-estrutura. O Incra tinha orçamento de R$ 950 milhões em 2003, primeiro ano do governo Lula, e para este ano foram destinados à autarquia nada menos que R$ 3,5 bilhões.

 

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Veja

29/09/2007

 

Movimentos Rurais

Invasão na universidade

A última do MST: cursos exclusivos em faculdades públicas – com o patrocínio do governo

 

 

Camila Pereira

 

 

Sebastião Moreira/AE

Assentados na sala de aula: o objetivo do MST é formar quadros para "fazer a revolução"

 

Eis algumas das diferenças entre um curso universitário feito sob medida para assentados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os demais. As aulas, sejam elas da faculdade de geografia ou pedagogia, começam com uma espécie de encenação teatral durante a qual os sem-terra fazem conclamações à luta contra as classes dominantes. As disciplinas são definidas em assembléias nas quais os alunos têm cadeira e direito a voto. Foi numa dessas reuniões que se decidiu incluir o espanhol no currículo de um curso de letras na Bahia. Os assentados reivindicavam aprender o idioma a pretexto de melhorar a comunicação com os "companheiros" dos países da América Latina. Entre as matérias que só eles têm, uma das descritas com maior entusiasmo é história dos movimentos sociais, que "narra a luta pela terra" desde o Brasil colônia. O calendário local também segue uma lógica própria. O 7 de Setembro, em que se celebra a independência do Brasil, foi transformado no "dia dos excluídos". Adoram-se – dentro e fora da sala de aula – Che Guevara e Karl Marx. Por tudo isso, esses cursos de ensino superior, exclusivos dos sem-terra, se distinguem dos oferecidos no restante do país.

 

Há, no entanto, dois fatos surpreendentes que os tornam semelhantes aos demais. Eles ocorrem em algumas das melhores universidades públicas do país, entre elas a Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Estadual Paulista (Unesp). E, como qualquer outro curso de ensino superior, também concedem aos estudantes diploma de graduação reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC). Um novo levantamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que patrocina os cursos, concluiu que o governo federal nunca investiu tanto na formação universitária dos sem-terra: 6,3 milhões de reais só em 2006 (veja o quadro abaixo). Já são dezesseis universidades públicas que oferecem graduação exclusiva aos assentados. É isso mesmo: elas aceitam apenas sem-terra. Segundo o ministério, o governo patrocina cursos do gênero nas áreas de pedagogia, geografia, letras, história e direito.

 

Eber Faioli/Cedecom/UFMG

Curso de pedagogia da terra da UFMG

 

Não é exatamente uma novidade o fato de o MST receber verbas do governo para educar seus integrantes. Na década de 80, o movimento pleiteou – e conseguiu – tornar públicas as escolas dos assentamentos, até então improvisadas sob lonas. Na década de 90, firmou convênios com faculdades públicas para cursos eventuais. Há dois anos, o MST criou a Escola Nacional Florestan Fernandes, espécie de universidade do movimento. O maior avanço, sem dúvida, veio com os novos cursos superiores. Com eles, os sem-terra estudam nas melhores faculdades do país, têm o privilégio da reserva de vagas e ainda por cima impõem um regime paralelo. No vestibular, são testados conhecimentos da cartilha do MST (veja alguns exemplos acima). Os assentados só entram na disputa por uma vaga com o aval dos líderes. Em sala de aula, onde se ensina um currículo aparentemente convencional, predomina o discurso anticapitalista e de ódio ao agronegócio. Dele, comungam os professores. Diz Gelcivânia Mota, do curso de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia: "Os professores acreditam nas propostas dos movimentos sociais do campo".

 

Ensinar aos sem-terra uma visão dogmática do mundo já é por si só um problema, mas o quadro piora porque a catequese marxista se dá em universidades públicas – com patrocínio do governo. A meta do MST ao levar assentados à academia, afinal, é preparar gente para combater "o sistema" (aquele mesmo que os está bancando), e eles tratam abertamente do assunto. Segundo o livro A Política de Formação de Quadros, febre literária nos assentamentos do movimento, "quem não forma quadros dificilmente atinge seus objetivos estratégicos na revolução". É sempre bom saber que mais gente chega à universidade no Brasil. O problema, neste caso, é que ela está servindo a uma causa anacrônica – e não se presta ao papel fundamental de preparar jovens para atuar numa sociedade moderna.

 

  O AVANÇO DO MST NO ENSINO SUPERIOR

 

Um novo levantamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário mostra que o governo federal destina a cada ano mais verbas para cursos universitários exclusivos aos sem-terra. Eis os números:

 

 

 

Conclusão: o investimento do governo nesse tipo de curso cresceu 270% em quatro anos

 

 

O diploma é o mesmo.

Já o vestibular...

 

Para entrarem numa universidade pública, os sem-terra prestam um vestibular próprio. Eis algumas das questões extraídas da prova de múltipla escolha do curso de direito para assentados da Universidade Federal de Goiás

 

1 A relação entre estrutura fundiária e fome no Brasil decorre da...

A evolução tecnológica das pequenas propriedades nas áreas de fronteira

B modernização da agricultura, que gerou desemprego no campo

C concentração de latifúndios em regiões de solos mais pobres

D ineficiência do gerenciamento empresarial agrícola nas médias propriedades

 

2 Sob a lógica dos movimentos sociais no campo...

A a agricultura brasileira é latifundiária, sendo necessária sua modernização para que a terra cumpra sua função social

B o agronegócio é a forma de integração da agricultura familiar ao mercado capitalista

C a agricultura brasileira é latifundiária, sendo necessária sua superação pela agricultura de caráter familiar

D a agricultura brasileira tem caráter empresarial, portanto não há necessidade de reforma agrária

 

3 O "campo goiano" é representado por inúmeras manifestações culturais que desenvolvem uma diversidade de símbolos, dos quais...

A as festas são ritos provenientes da cultura cristã ocidental

B os causos de assombração e demônios desenvolvem o controle social através do medo

C as simpatias e as rezas justificam a distância dessa cultura com o mundo liberal

D a marca, o mutirão e o adjutório aumentam a renda fundiária.

 

Respostas: 1.b; 2.c; 3.b

 

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  O Globo

29/09/2007

 Movimentos Rurais

Milícia chega à Baixada e ameaça agricultores

Grupo destrói plantações de projeto patrocinado pela Petrobras em comunidade, e exige dinheiro em troca de "proteção"

Alessandro Soler

 

Agricultores da área rural de Nova Iguaçu, integrantes de um projeto de hortas comunitárias patrocinado pela Petrobras, estão sofrendo ameaças de uma milícia que se articula na região da Posse. A situação é motivo de preocupação na estatal e foi tema de reunião ontem. O projeto de agricultura orgânica, na comunidade Gerard Danom, é desenvolvido às margens de dutos de combustível. Segundo a polícia, o grupo miliciano poderia ter também agentes de segurança do estado. Seus membros exigem dinheiro em troca de "proteção" e, só esta semana, destruíram duas vezes plantações e instalações da comunidade.

 

De acordo com o titular da 58ª DP (Posse), delegado Fabio Pacífico, grupos de extermínio da Baixada Fluminense ganham nova roupagem e já se configuram como milícias similares às que atuam no Rio. As práticas são as mesmas: extorsões a comerciantes, e retaliações em caso de não haver acordo. Em abril, um grupo foi preso. Outro, segundo Pacífico, estaria à beira de ser desmantelado.

 

Delegado diz que precisa de nomes para poder agir

 

A investigação na Posse esbarra num aspecto comum nesses casos: o medo das vítimas. Mesmo depois da destruição das frentes de trabalho, ninguém quis dar os nomes dos responsáveis. O delegado disse que, para agir mais efetivamente, precisa de informações aprofundadas:

 

- Não tenho base legal para pedir mandado de prisão ou de busca e apreensão. É preciso ter dados concretos. O Disque-Denúncia é um instrumento excelente. Tudo o que sabemos é que as hortas foram destruídas. Se os moradores não derem nomes, fica um ciclo vicioso do medo. O caso tem tudo para ser extorsão. Se tiver os nomes, não vou titubear em prender. Não quero saber se tem policial, bombeiro ou ex-policial.

 

Pacífico contou que os indícios da atuação de milícias já aparecem com freqüência em investigações na sua área. Em abril, a apreensão de fardas novas na casa de um ex-PM em Santa Eugênia, suspeito de envolvimento com grupos de extermínio, deu a pista. O delegado diz ter encontrado ligações entre o ex-policial e milícias armadas de Nova Iguaçu.

 

- São os velhos grupos de extermínio que invadem outras esferas. Eles têm ameaçado o comércio. Estamos à beira de desmantelar um grupo, que começamos a investigar, a partir de informações fornecidas por uma testemunha.

 

Na região da Posse, cerca de 20 hortas comunitárias foram destruídas no domingo e anteontem. Instalações hidráulicas e elétricas, além de cercas, também vieram abaixo. Cada família recebe mensalmente R$500, em média, pela venda de produtos para a merenda, e outros R$150 de participação na comercialização em feiras livres. Diante das ameaças, quase todos pensaram em abandonar o projeto.

 

Em nota, a Petrobras disse acompanhar "com atenção" a situação envolvendo o projeto Agricultura Familiar na Região de Dutos. Segundo a estatal, na reunião de ontem foram reunidos dados sobre os incidentes. A Petrobras afirmou que esse foi o único caso de ação predatória nas hortas desenvolvidas em Nova Iguaçu.

 

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Folha de S. Paulo

09/10/2007

 

Política Fundiária

Sem-terra invadem usina de PE em débito com Previdência

 

MLST alega problemas trabalhistas e ambientais para justificar desapropriação

Usineiros negam existência de problemas ambientais e trabalhistas; Judiciário já concedeu a reintegração de posse e notificou invasores

 

Rodrigo Lôbo/JC Imagem

Trabalhadores rurais invadem a usina Salgado, em Ipojuca (PE), para exigir sua desapropriação

 

 

FÁBIO GUIBU

DA AGÊNCIA FOLHA, EM IPOJUCA (PE)

 

 

Agricultores de quatro movimentos de apoio aos sem-terra invadiram ontem, em Ipojuca (a 70 km de Recife), uma usina de cana-de-açúcar em plena produção. O grupo exige a desapropriação da empresa com base em um "novo conceito" de reforma agrária que desejam ver implantado pelo governo.

 

Os sem-terra usam o conceito de função social da terra para reivindicar a desapropriação de áreas produtivas com problemas trabalhistas, ambientais ou dívidas com a União. A usina Salgado, uma das maiores do Estado, foi invadida porque "deve R$ 85 milhões à Previdência, tem problemas ambientais e trabalhistas", disse o dirigente nacional do MLST (Movimento de Libertação dos Sem-Terra), Josival Oliveira. "Se o governo não cobra, nós executamos a dívida", afirmou.

 

Chamado para intermediar a crise, o superintendente do Incra em Recife, Abelardo Siqueira, apoiou os sem-terra: "Se a usina deve realmente R$ 85 milhões, eles fizeram a ação correta. Se for verdade, vamos trabalhar para concretizar a primeira desapropriação por dívidas ao governo no Estado." Em Brasília, o Incra informou que a União já usa critérios ambientais, trabalhistas e relativos a dívidas nas desapropriações.

 

Além do MLST, também estão na área militantes da CPT (Comissão Pastoral da Terra), da Fetraf (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar) e da Fetape (Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco). Segundo os organizadores da invasão, participaram da ação 1.500 lavradores. De acordo com a usina, foram 700 os invasores.

 

Eles tomaram a propriedade às 4h e paralisaram a usina, que processa 6.000 toneladas de cana por dia e deve produzir na atual safra 15 milhões de litros de álcool e 1,5 milhão de sacas de açúcar de 50 kg. O prejuízo é de R$ 600 mil por dia, segundo os proprietários, integrantes da família do ex-deputado federal Marcos Queiroz (PSB).

 

Os usineiros negam a existência de problemas ambientais e trabalhistas. Dizem que há débitos com a Previdência, mas dizem que também há créditos e que o processo de acerto de contas está em negociação.

 

À tarde, a empresa, que emprega 3.500 pessoas na safra, entrou com pedido de reintegração de posse. Foi atendida. Os invasores foram notificados.

 

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Jornal do Comércio

09/10/2007

 

Política Fundiária

Incra afirma que pode desapropriar imóvel produtivo

 

 

O superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária em Pernambuco, Abelardo Siqueira, assegurou, na tarde de ontem, que, se as denúncias dos trabalhadores forem comprovadas, o órgão vai dar início ao processo de desapropriação das terras. “Os imóveis que não cumprem a função social devem ser desapropriados para fins de reforma agrária. Não lembro, no Brasil, um caso de desapropriação de terra produtiva, mas a Constituição Federal garante”, afirmou Abelardo.

 

De acordo com o superintendente, é preciso uma normatização para que as terras produtivas que não cumprem a função social sejam desapropriadas. No fim da manhã, ele chegou à Usina Salgado.

 

Após uma rápida reunião com os quatro movimentos sociais, assegurou que marcaria reunião com representantes do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente, Banco do Brasil, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Secretaria Estadual de Agricultura, Secretaria Estadual de Articulação Social, Ministério Público Federal e Ministério Público Estadual.

 

“Vamos tentar marcar o encontro para amanhã (hoje). O objetivo do Incra é encontrar uma saída pacífica para o problema. Precisamos verificar se essas dívidas e crimes ambientais existem para tentarmos desapropriar o imóvel”, declarou Abelardo Siqueira. A Justiça chegou a marcar o leilão das terras, mas uma ação judicial impediu a realização.

 

 

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O Estado de S. Paulo

01/09/2007

 

Política Fundiária

Federação de Rainha administra verba federal para sem-terra; para MST, líder 'vende ilusão' 

 

José Maria Tomazela

 

 

O assentado Antonio Paiva dos Santos não vê a hora de deixar o casebre de madeira e mudar para a nova casa, no assentamento Che Guevara, no Pontal do Paranapanema (SP). O dinheiro veio a fundo perdido, da União, pelas mãos de José Rainha Júnior, líder alijado do MST. Ele é um dos 1.200 assentados da região beneficiados por programa de moradia popular do governo, administrado pela Federação das Associações dos Assentados da Agricultura Familiar, criada por Rainha. A verba total, de R$ 7,2 milhões, não precisa ser devolvida. “É para estimular a permanência no lote”, diz Rainha. O projeto do biodiesel na região deve consumir, em 10 anos, R$ 50 milhões. “O biodiesel é coisa de grande produtor, não é para pequeno. O Zé está vendendo ilusão”, acusa Manoel Duda, do MST, lembrando o caso Cocamp, que prestaria serviços a assentados, mas que nunca funcionou. Processo apura se houve crime contra o sistema financeiro. Rainha nega.

 

 

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O Liberal

02/09/2007

 

Política Fundiária

Pará promete atacar miséria no campo

 

Estado tenta retomar programa de US$ 60 milhões barrado pela União com processo

 

 

CARLOS MENDES

 

Da Redação

 

O maior inimigo do programa de reforma agrária e redução da pobreza no campo, conhecido por Pará Rural, é o tempo. A pobreza e a miséria, parteiras da violência, também não querem esperar por muito tempo o aparecimento de soluções. É um poderoso exército silencioso, mas muito inquieto, de 2,7 milhões de pessoas no Estado - 44% da população. O Banco Mundial aprovou, no final do ano passado, o empréstimo de U$$ 60 milhões (R$ 120 milhões) para o programa. A União resolveu melar o negócio, processando judicialmente o Estado por pendências financeiras de suas secretarias ainda na gestão do tucano Simão Jatene.

 

O processo tramita a passos de tartaruga no Supremo Tribunal Federal (STF), onde algumas pendências foram derrubadas pelos advogados do Estado à espera do julgamento do mérito. A governadora Ana Júlia Carepa anda impaciente com a possibilidade, ainda que remota, de o empréstimo naufragar. Colocou um time de advogados em busca da vitória.

 

"O Pará conta com enormes recursos sociais e naturais, e enfrenta o desafio de desenvolver esse patrimônio de forma sustentável e benéfica para a sua população, hoje e no futuro", contorna o diretor do Banco Mundial para o Brasil, John Briscoe. E salienta: "O Pará Rural é um primeiro passo significativo para coordenar ações em geração sustentável de renda, regularização fundiária e zoneamento ecológico e econômico".

 

O Banco Mundial é bonzinho na hora de fechar negócio, mas muito rígido na obediência de prazos. Já prorrogou por duas vezes a validade do financiamento e poderá cancelar tudo se a demora do STF em decidir o caso persistir. O Pará Rural é uma esperança de resolução de graves e antigos conflitos fundiários, ordenamento ambiental e imobiliário em regiões onde a violência pela posse da terra já matou mais de 800 pessoas nos últimos vinte anos.

 

 

Técnicos

 

 

O programa se propõe a criar oportunidade de trabalho e renda para 30 mil famílias e benefícios indiretos para outras 90 mil. Além disso, há 140 projetos de apoio financeiro a investimentos produtivos, assistência técnica, capacitação e investimentos em infra-estrutura de apoio à produção.

 

Enquanto o programa não sai, o Estado, responsável por U$$ 40 milhões (R$ 80 milhões) de sua contrapartida no projeto total de R$ 200 milhões, investe recursos na qualificação e treinamento de técnicos que irão atuar, na primeira etapa, em 39 municípios. Na quinta-feira, por exemplo, o Instituto de Terras do Pará (Iterpa), responsável pelo ordenamento fundiário do Pará Rural, participou de uma solenidade, na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), de diplomação de 30 técnicos em georreferenciamento.

 

O presidente do Iterpa, José Benatti, que estava na solenidade com outros diretores do órgão, pretende aproveitar os 30 técnicos já formados e engajar no programa outros 90. "Vamos ter muito trabalho pela frente", adianta o diretor do departamento Jurídico do Iterpa, Flávio Manso. Ele explica que, além de fazer uma varredura nos 56 mil imóveis inicialmente previstos, a tarefa dos técnicos será construir uma relação estadual em cada município percorrido.

 

 

Cartórios

 

 

As estatísticas hoje existentes nos arquivos do Iterpa são falhas e precisarão ser atualizadas pelo trabalho de campo. Ainda há casos de muitas propriedades rurais não terem registro no órgão, o que dificulta um diagnóstico preciso de cada região. A existência de milhares de títulos falsos ainda é um problema a ser resolvido. "Nós ainda trabalhamos com demandas individuais", acrescenta Manso, que prevê uma acumulação de experiências positivas com a varredura fundiária do Pará Rural. No trabalho de identificação das propriedades, muitas falcatruas certamente serão descobertas. A parceria com os cartórios será fundamental. Afinal, em pelo menos 40 cartórios do Estado há sérios problemas, como registros em duplicidade, posse transformada em domínio e, em alguns casos, até falsificação de escrituras.

 

Sem a ajuda dos cartórios, reconhece Manso, o programa terá dificuldades para decolar. Uma das missões do Iterpa será colocar dentro dos cartórios digitadores que auxiliarão os funcionários a copiar as informações dos livros de posse e de propriedade. Manso afirma que o papel do órgão não se limitará à mera expedição de títulos aos pequenos e médios agricultores. Também atuará, em parceria com Secretaria de Meio Ambiente (Sema), no licenciamento ambiental. Na terra onde não houver mais floresta, o trabalho será de reflorestamento.

 

A Pobreza no Estado

 

O mapa da pobreza no Pará acompanha o dos problemas fundiários, com a concentração de terras, o trabalho escravo, a falta de sustentabilidade dos projetos de assentamento e a falta de estrutura governamental para efetivação de políticas públicas

 

Governo tenta convencer ministro a conceder aval para empréstimo

 

A União insiste no processo contra o Estado e se nega a conceder o aval para que o empréstimo deferido pelo Banco Mundial tenha o contrato assinado. Nem as duas manifestações favoráveis ao Estado do ministro César Peluso, relator do processo no STF - ele entende que as pendências das secretarias estaduais não podem impedir o financiamento, já que o governo federal não tem qualquer ingerência no Pará Rural -, serviram para mudar a posição da União.

 

A governadora Ana Júlia Carepa jogou uma cartada mais alta: apelou diretamente ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, tentando resolver o problema. Recebeu uma tímida resposta. Seria melhor aguardar a decisão judicial. É a mesma posição da Secretaria do Tesouro Nacional, para onde o pedido foi remetido.

 

O Pará tem trabalhado para regularizar eventuais pendências, segundo explicou Ana Júlia no pedido a Mantega. Ela argumenta que as pendências não impedem a concessão do aval porque o contrato com o programa não prevê a transferência de recursos da União para o Estado. Além disso, o Pará oferecerá garantias à União.

 

Ana Júlia diz que o programa trará enormes benefícios para as famílias pobres que vivem em assentamentos nas regiões mais povoadas do Estado. Com o programa, as famílias teriam condições de produzir renda e melhorar seu padrão de vida. Os agricultores seriam orientados para o uso sustentável dos recursos naturais e preservação ambiental. (C. M.)

 

Faepa quer cadastro de sem-terra e invasor

 

O presidente da Federação da Agricultura do Estado do Pará (Faepa), Carlos Xavier declara ser muito realista em relação ao Pará Rural. Se for para separar o verdadeiro sem-terra do invasor, ele aplaudirá a iniciativa. "É preciso cadastrar o sem-terra e definir critérios para assentá-lo", recomenda Xavier. É necessário capacitar o sem-terra e dar a ele instrumentos para que possa produzir.

 

Somente isto, não basta. É preciso construir estradas, escolas, postos de saúde, comunicação, crédito para plantar e justiça. "Não há sequer um cartório perto dessas áreas existentes hoje no Pará", lamenta o líder da Faepa, enfatizando que o Pará Rural será muito benvindo se levar para os agricultores aquilo que o Incra não dá.

 

Caso nada disso seja feito, na opinião de Xavier, será a mesma coisa que pegar o dinheiro público e atirá-lo pelo ralo, como ocorre hoje País afora com outros projetos. O resultado, no caso paraense, será o agravamento dos conflitos fundiários. Não é o que ele espera. Potencial de recursos para mexer na estrutura do campo, entende o presidente da Faepa, o Pará possui de sobra.

 

"Qualquer trabalho que traga desenvolvimento para o Estado terá sempre o meu apoio. O índice de desenvolvimento humano da sociedade paraense é baixíssimo, vergonhoso, e tudo que vier para melhorar esse índice terá que merecer incentivo", observa Xavier. Para ele, quando se trata da questão fundiária, matar ou morrer no Estado seria "falta de inteligência". Não respeitar a lei e deixar de cumprir mandado de reintegração de posse é "burrice, falta de respeito e ameaça à democracia".

 

O que deve ser feito? Xavier responde: "O meio rural do Estado deve ser dinamizado com assentamentos produtivos e com o agronegócio em benefício. Este é caminho do desenvolvimento". Para exemplificar o que diz, conta que na quarta-feira, durante visita ao Ministério da Agricultura, conseguir ver atendido um pedido feito à área técnica do órgão. Esse pedido se refere à diferença entre a Amazônia Legal e a Amazônia florestal.

 

Na Amazônia florestal, onde já há registro da presença humana, Xavier defende a implantação de outras culturas, que tenham sustentabilidade ambiental mais forte do que a pastagem. "Defendo a soja e a cana-de-açúcar, porque quero produzir alimentos para gerar emprego e renda", arremata. (C. M.)

 

Programa prevê crédito para famílias pobres

 

O secretário de Projetos Estratégicos, Marcílio Monteiro, disse que o Pará Rural está vencendo as etapas judiciais, mas lembra que isso ocorre por conta de pesada herança deixada pelo governo passado. "Um dos nossos argumentos no Supremo é de que, por culpa de maus administradores públicos, a população rural situada abaixo da linha da pobreza não deve ser prejudicada", declarou Monteiro.

 

O programa almeja um ordenamento fundiário e ambiental integrado, segundo o secretário, para que as famílias de agricultores recebam o crédito para produzir. Produtores rurais, sejam grandes ou pequenos, têm historicamente explorado os recursos naturais do Estado de forma inadequada e insustentável. A busca frenética por retorno econômico de curto prazo na transformação de florestas em pasto produziu um rastro de degradação.

 

Consertar tantos defeitos é um desafio. Uma das ferramentas aponta para o apoio a atividades de pequenas e médias associações de produtores em áreas degradadas. O objetivo, na recuperação dessas áreas, é permitir o acesso ao mercado para os produtos agrícolas e não-agrícolas. As famílias com renda mensal menor que R$ 400 serão diretamente beneficiadas. A expectativa é de que a renda dessas famílias cresça pelo menos 30%.

 

Outro aspecto do programa é o desenvolvimento do plano de macrozoneamento, priorizando áreas designadas como protegidas e as afetadas por rodovias existentes. O objetivo de longo prazo do zoneamento é pôr a economia do Estado em um rumo de desenvolvimento sustentável, atribuindo usos distintos a diversas áreas do Estado para reduzir, e eventualmente eliminar, a ocupação desregulada e muitas vezes ilegal de terras, assim como a sua conversão de uso. (C. M.)

 

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A Tarde

23/10/2007

 

Política Fundiária

Presidente do Incra entrega certificados em assentamento  

 

Vinte jovens com idades entre 12 e 17 anos que fazem parte de famílias de Projeto de Assentamento Eldorado, localizado no município de Santo Amaro (a 71 km de Salvador), receberam, na manhã de ontem, o certificado de um curso de informática promovido pelo 1º Centro de Inclusão Digital, que funciona dentro do acampamento.

 

Esta foi a primeira turma a receber os certificados, entregues pelo presidente do Incra, Rolf Hackbart, que destacou a iniciativa do curso como uma melhoria de vida para os assentados, pois proporciona o acesso à tecnologia e inclusão social. Rolf disse que na Bahia existem 36 mil famílias assentadas e 150 projetos de assentamento nesses últimos quatro anos e que o Incra tem como objetivo assentar famílias não só em terras de latifúndio como em imóveis de quem comete crimes ambiental e de trabalho escravo. Além de ser contra a grilagem e a monocultura. “Queremos acabar com a idéia de que os assentamentos são locais onde as famílias moram e plantam para a sua sobrevivência. Vamos lutar por infra-estrutura nesses assentamentos, pois só assim daremos a estas famílias a dignidade e cidadania que merecem”, destacou, acrescentando que estas são medidas emergenciais para combater os conflitos por terra que atualmente acontecem no extremo sul do Estado.

 

O Assentamento Eldorado existe há 11 anos e hoje possui 53 famílias assentadas que vieram de várias regiões do Estado, a exemplo de Feira de Santana, São Sebastião do Passé e Santo Amaro. A fazenda pertencia ao banqueiro Ângelo Calmon de Sá e foi invadida em 1994 por cerca de 150 famílias.

 

Em 97, foi desapropriada. As famílias sobrevivem da agricultura, principalmente o cacau e a banana.

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  O Estado de S. Paulo

05/11/2007

 Política Fundiária

Assentado usa criança em carvoaria

 

‘Estado’ flagra destruição de reserva e meninos trabalhando em fornos dentro de área cedida ao MST e à Fetagri  

José Maria Tomazela, NOVA ANDRADINA

 

Assentados da reforma agrária derrubam árvores e produzem carvão em uma área de 5,7 mil hectares de mata nativa no município de Nova Andradina, no sudeste de Mato Grosso do Sul, a 347 quilômetros de Campo Grande. E o pior: há crianças trabalhando nas carvoarias.

 

A floresta, com formações de cerrado denso e remanescentes de mata atlântica, constitui a reserva legal da Fazenda Teijin, de 28,5 mil hectares, desapropriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). No local, foram assentadas 1.067 famílias do Movimento dos Sem-Terra (MST) e da Federação dos Trabalhadores na agricultura (Fetagri).

 

É uma das poucas áreas de mata que restam numa região devastada pela atividade agrícola e pecuária. Isso não impediu que 187 famílias de sem-terra invadissem a reserva. Elas demarcaram os lotes, abriram clareiras para instalar seus barracos e, agora, queimam a madeira para produzir carvão. Muitas deixaram lotes no assentamento para se instalar na mata e explorar a nova atividade.

 

A reportagem do Estado flagrou crianças trabalhando numa carvoaria. O lote do assentado José Pedro de Jesus, de 54 anos, tem dois fornos em plena atividade. Os meninos Cristiano Lagos, de 11 anos, e Adanilson Alves Souza Jesus, de 14, retiram o carvão da fornalha e amontoam para esfriar. O produto será ensacado e vendido nas margens da BR-267, que corta a fazenda, por R$ 40 o metro cúbico. “Estamos esperando o preço melhorar”, disse Adanilson.

 

Na terça-feira, quando foram abordados pela reportagem, os dois garotos tinham faltado à aula para mexer com o carvão. Eles estudam na escola do Distrito de Casa Verde, o núcleo urbano mais próximo. Cristiano cursa a 3ª série e Adanilson está na 5ª.

 

ESTUDOS 

O avô reconhece que eles têm dificuldade com os estudos. Para a pergunta básica sobre quem descobriu o Brasil, Cristiano tinha resposta pronta: “Dom Pedro.” O assentado diz que os netos o ajudam porque ele, atingido por um raio, ficou com o corpo “bambo” e ainda não conseguiu se aposentar.

 

Ele conta que luta pela terra há cinco anos, migrou do MST para a Fetagri, mas a situação não melhorou. José Pedro diz que não invadiu a reserva. “Fomos assentados aqui pelo Incra, mas eles abandonaram a gente.” Com a ajuda da mulher e três filhos, que trabalham numa carvoaria da região, ele construiu a casa de madeira e comprou duas vacas com bezerro para tirar leite. A mata no entorno da casa foi derrubada para formar pasto - a madeira virou carvão. “Vou quebrar mais um alqueire (de mata) para fazer uma roça.”

 

A fumaça dos fornos pode ser vista da rodovia que liga Nova Andradina à BR. O capitão Renato dos Anjos Garner, do comando local da Polícia Militar Ambiental, que sobrevoou a área, disse que as carvoarias estão espalhadas por toda a reserva. “Alguns lotes têm vários, outros nenhum, mas na média é um forno por lote.”  

Ele fez um relatório para o comando estadual. Órgãos públicos, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Ministério Público Federal (MPF) e o próprio Incra foram informados oficialmente do crime ambiental e da exploração do trabalho infantil.  

O vereador Tito José (PSDB), da Câmara Municipal de Nova Andradina, encaminhou ofícios para esses órgãos em março, quando os primeiros fornos foram construídos na reserva. No início de abril, a procuradora da República Larissa Maria Sacco determinou ao Ibama que notificasse o Incra para a “imediata paralisação da produção de carvão vegetal e a respectiva supressão vegetal no Projeto de Assentamento Teijin”. 

Larissa deu 10 dias ao Ibama para apresentar informações e, estando presente o risco de deterioração ambiental, autorizou a requisição de auxílio da Polícia Federal. O Ibama informou que havia notificado o Incra sobre o embargo das atividades de desmatamentos e instalação de fornos. Toda a correspondência foi parar na Câmara. A farta troca de papéis, porém, não teve resultados práticos, segundo o vereador, pois a depredação da área continua. “É um jogo de faz-de-conta.”

 

 

 

O Estado de S. Paulo

05/11/2007

 

Política Fundiária

Dirigente do Incra nega irregularidade e acusa fazendeiros

Superintendente lembra ação conjunta com Polícia Ambiental contra carvoarias na Fazenda Teijin

  

José Maria Tomazela, Nova Andradina

  

“Isso não está acontecendo”, reagiu o superintendente regional substituto do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Valdir Perius, ao ser questionado sobre a existência de carvoarias no interior da reserva da Fazenda Teijin. “Tinha alguns fornos lá, mas foram todos fechados numa ação que fizemos com a Polícia Ambiental”, garantiu.

 

Informado de que os fornos tinham sido fotografados na terça-feira e havia crianças no local, respondeu: “São carvoeiros da cidade que exploram alguns assentados.” Ele disse que existem “apenas 15 lotes” abertos irregularmente na reserva e os ocupantes serão retirados. “Isso já foi resolvido com o MST. A reserva precisa ser preservada e quem entrou tem de sair.”

 

Para o superintendente, quem agride o meio ambiente é o fazendeiro, não o sem-terra. “Aquele é um povo pobre que foi abandonado no passado.” Segundo Perius, o assentamento na Teijin é um dos mais importantes do Brasil e beneficia mais de mil famílias, causando ciúme. “Para decepção de uma parte da classe política de Nova Andradina que defende o latifúndio dos japoneses, o assentamento está consolidado.”

 

São essas pessoas, segundo ele, que fazem denúncias, como a da invasão da reserva. “Para nós, o importante é resolver o problema do povo”, disse.

 

TRANSFERÊNCIA

 

Perius negou que os assentados tenham sido abandonados pelo Incra, mas ressalvou que as famílias que estão na reserva serão transferidas. Segundo ele, o Incra liberou R$ 10 milhões para moradia, “dinheiro que está na conta dos assentados”. Frisou que estradas estão sendo abertas em convênio com o Estado. “Reforma agrária se faz com planejamento e orçamento.”

 

O coordenar do Movimento dos Sem-Terra (MST) em Mato Grosso do Sul, José Oliveira, disse que a área de mata foi incluída no assentamento pelo Incra. “Havia mais reserva do que os 20% e o Incra parcelou.” Foram abertas estradas e os lotes receberam benfeitorias, como rede de água, segundo ele. “As famílias foram colocadas lá dentro e, sem área para plantar, começaram a desmatar.” Os fornos foram construídos para aproveitar essa madeira. “Houve queima, mas eles só queimaram porque foram colocados dentro da mata.”

 

Ele desconhecia o trabalho de crianças. Segundo Oliveira, 16 famílias que estão na reserva são ligadas ao MST e as demais à Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri). “Se houve irregularidade, não foi por nossa culpa. O Incra precisa conseguir outra área para essas famílias.”

 

O diretor do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Bataiporã, Joel Silveira, também dirigente da Fetagri, disse que alguns assentados produzem carvão para subsistência, utilizando galhos e árvores retirados durante a abertura das estradas no assentamento. Ele disse que os lotes na mata foram demarcados pela empresa contratada pelo Incra.

 

 

FRASES

 

Valdir Perius

Superintendente regional substituto do Incra

 

“São carvoeiros da cidade que exploram alguns assentados”

 

José Oliveira

Coordenar do MST em Mato Grosso do Sul

 

“As famílias foram colocadas lá dentro e, sem área para plantar, começaram a desmatar. O Incra precisa conseguir outra área”

 

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O Estado de S. Paulo

06/11/2007

 Política Fundiária

Incra vai expulsar sem-terra que derruba mata

São 52 famílias que produzem carvão na Fazenda Teijin, em MS, onde há crianças trabalhando

 

 

João Naves

 

 

Mais de 52 famílias assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Nova Andradina, no sudeste de Mato Grosso do Sul, a 347 quilômetros de Campo Grande, serão excluídas do Programa Nacional de Reforma Agrária. A decisão foi anunciada ontem pelo superintendente regional do órgão, Luís Carlos Bonelli, após ler reportagem do Estado que revelou a derrubada de mata nativa e a produção de carvão em assentamento na Fazenda Teijin. A reportagem flagrou crianças trabalhando.

 

Bonelli informou que as famílias já haviam sido advertidas em agosto. “Os assentados estão infringindo cláusulas contratuais graves. Na condição de assentamento sem a infra-estrutura básica, é proibida qualquer atividade comercial que implique exploração da terra e recursos naturais renováveis.”

 

O dirigente do Incra disse que “todo e qualquer assentado que cometeu crime ambiental” será excluído da reforma agrária e não será assentado em nenhum lugar do Brasil.

 

Quanto ao trabalho de menores em fornos de carvão, Bonelli informou que a fiscalização é de responsabilidade do Ministério do Trabalho. “Em um sistema de agricultura familiar, a família inteira trabalha. É o caso dos assentados pelo Incra.”

 

INVASÃO

 

Após a desapropriação pelo Incra, a Fazenda Teijin, de 28,5 mil hectares, recebeu 1.067 famílias ligadas ao Movimento dos Sem-Terra (MST) e à Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri).

 

A propriedade engloba uma das poucas áreas de mata nativa da região, mas 187 famílias invadiram a reserva. Demarcaram os lotes, abriram clareiras e queimam a madeira para produzir carvão. O produto é vendido nas margens da BR-267 por R$ 40 o metro cúbico.

 

Segundo o superintendente-adjunto do Incra no Estado, Valdir Périus, há cerca de 100 infratores no local. “Temos denúncias de que a produção de carvão aumentou em relação ao que foi constatado e notificado em agosto.” Périus informou que amanhã equipes do Incra, da Polícia Militar Ambiental e policiais do Departamento de Operações de Fronteira vão iniciar a expulsão das famílias.

 

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Valor Econômico

09/11/2007

 

Política Fundiária

Governo Lula desmobilizou movimentos dos sem-terra

  

É irônico, mas os movimentos de trabalhadores sem-terra, que apenas cresceram nos governos que os combateram, começaram a minguar no governo petista de Luiz Inácio Lula da Silva, com quem têm uma ligação histórica. Em reportagens publicadas no último domingo, a "Folha de S. Paulo" constatou que, no primeiro mandato de Lula (2003-2006), o número de famílias acampadas desabou de 59 mil para 10 mil; o número de famílias que invadiram terras caiu de 65.552 para 44.464 no período; e até o número de movimentos pela reforma agrária diminuiu, de 17 para 11. Como as invasões se mantiveram praticamente no mesmo nível - foram 391 em 2003 e 384 em 2006 - , supõem-se que cada uma delas foi feita com a adesão de menos famílias, ou uma família teve que participar de mais de uma invasão. 

 

Especialistas e até dirigentes do Movimento Sem Terra (MST), o principal movimento social que atua no campo, apontam o dedo para o programa Bolsa Família quando explicam a desmobilização do movimento pela reforma agrária. João Jurandi da Silva, acampado na Fazenda da Barra, na região de Ribeirão Preto, resumiu da seguinte maneira a diferença entre os governos Fernando Henrique Cardoso e os de Lula para os sem-terra: "O Lula conseguiu com esse Bolsa Família o que o Fernando Henrique tentou, tentou e não conseguiu, que é deixar as pessoas fora das ocupações". 

 

O efeito que o programa de transferência de renda teria sobre a mobilização dos acampados foi farejado pelos líderes do MST desde o início do governo. Os acampados não recebem o benefício, pois o MST apenas aceita cestas básicas. A medida preventiva de deixar o Bolsa Família do lado de fora dos assentamentos, todavia, não eliminou o interesse de uma leva de assentados originários das periferias das grandes cidades, que optaram pelo movimento por absoluta falta de opção de sobrevivência. O Bolsa Família "reassentou-os" na periferia, agora com endereço fixo, condição para receberem um benefício que depende de condicionalidades como freqüência dos filhos nas escolas, vacinação em dia das crianças e pré e pós-natal para gestantes e mães que estão aleitando. 

 

O MST reconhece que o governo Lula não criminalizou o movimento, ao contrário de FHC. O reconhecimento do direito à luta pela terra, no entanto, não resultou em um fortalecimento dos movimentos pela reforma agrária. O líder do MST, João Pedro Stédile, tem insistido que todos os movimentos sociais passam por um "descenso", mas é de se reconhecer que, enquanto exercia uma política de tolerância política, o governo deu uma guinada na política de reforma agrária, abalando os alicerces do que era a disputa tradicional pela posse da terra. Pelos números, fica evidente que o governo priorizou políticas de agricultura familiar (ou seja, fixar os já assentados), em detrimento da simples distribuição de terra. O Ministério do Desenvolvimento Agrário informa que, entre 2003 e 2006, investiu R$ 8,2 bilhões em projetos de assentamento - o que faz e sempre fez o Incra. Na safra 2006/2007, no entanto, o governo investiu R$ 7,2 bilhões no Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf). Na safra 2007/2008, estão previstos R$ 12 bilhões para o Pronaf, R$ 168 milhões para assistência técnica e extensão rural (específica para a agricultura familiar), R$ 550 milhões para o Programa de Aquisição de Alimentos e outros R$ 600 milhões para o Pronaf Comercialização - além do Luz para Todos e obras de infra-estrutura voltadas para o escoamento da produção da pequena propriedade. 

 

O governo, ao amarrar o programa de reforma agrária ao de assistência à agricultura familiar, conseguiu individualizar a assistência, isto é, retirou os movimentos sociais da posição de mediadores. Segundo o MST, do total de 1,2 milhão de contratos assinados do programa de agricultura familiar no ano passado, apenas 40 mil beneficiaram assentados do movimento. 

 

Mesmo nas prioridades estabelecidas para o assentamento agrário, houve uma cisão entre a ação de governo e as necessidades dos movimentos. O governo priorizou o combate à grilagem de terra - e isso, por si só, definiu que a região Norte fosse a campeã de assentamentos no primeiro mandato, com 187.724 famílias. Nordeste vem em segundo lugar, com 116.817 famílias. No Sudeste, tradicional foco da atuação do MST, foram assentadas 13.825 famílias. 

 

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O Estado de S. Paulo

10/12/2007

 

Opinião

Quilombolas, Marambaia e ONGs: Denis Lerrer Rosenfield   

 

 

Curioso mundo em que os espaços foram encurtados pelos meios digitais, onde a formação da opinião pública e as ações políticas são realizadas em nível global. Organizações Quilombolas e ditas de direitos humanos se arvoram em representantes da humanidade, dirigindo-se diretamente à ONU, a partir, por exemplo, de uma suposta violação dos “direitos” de uma comunidade na Ilha de Marambaia, de propriedade da Marinha brasileira. Neste momento em que o Senado se debruça sobre a CPI das ONGs, não seria demais dar uma olhada no modo de funcionamento de algumas delas.

 

Há uma ONG, denominada Koinonia, que está diretamente envolvida na ação quilombola que reivindica a Ilha de Marambaia, base dos Fuzileiros Navais. Ela atua como se estivesse diante de um problema de justiça social, sob o qual acoberta seu propósito ideológico. Na verdade, está ligada a auto-intitulados movimentos sociais que agem como organizações políticas.

 

No endereço da Koinonia, situado no Rio de Janeiro, estão também localizadas outras ONGs, como Os Verdes - Movimento de Ecologia Social, filiado à rede “Mata Atlântica”, que comparece cadastrado no Ministério do Meio Ambiente como Biomas Mata Atlântica e Campos Sulinos. Lá também se encontram a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e a DP&A Editora, que publica livros de ciências sociais, filosofia, educação e pedagogia. Estamos, portanto, diante de organizações que visam a formar o politicamente correto, misturando quilombolas, meio ambiente e aids. Preocupados com a formação da opinião pública, possuem uma editora que veicula as suas posições, tendo como objetivo influir na imprensa e na mídia em geral. Causas defensáveis junto à opinião pública como a dos negros, a do meio ambiente e a da aids se tornam, desta maneira, instrumentos de sua atuação, conferindo-lhes visibilidade política.

 

É importante observar que na composição do conselho editorial da ONG consta o nome de um procurador da República (MPF-RJ), que é a pessoa que deu início ao processo de desapropriação da Ilha de Marambaia como território quilombola. A situação é escandalosa, pois um procurador da República é, ao mesmo tempo, membro de uma ONG - logo, pertence a uma parte interessada na disputa, como se isso não revelasse conflito de interesses - e agente público. Os demais membros do conselho são antropólogos que se colocam a serviço da causa quilombola e preparam os relatórios técnico-científicos. Estes são, então, apresentados como se fossem neutros e isentos. Por si só, essa já seria uma razão para invalidar esses pseudolaudos.

 

A ONG Koinonia, em seu regimento, é explicitamente anticapitalista, o que significa dizer que seu propósito é socialista. O socialismo aparece sob os nomes de fraternidade, comunidade e solidariedade, que constituem a sua forma de apresentação. Desta maneira, ao assumirem valores morais, encobrem a sua finalidade propriamente política. Assim se apresenta ela: “Os serviços e projetos a que Koinonia se dedica estão marcados pela opção metodológica que designamos ação cultural, isto é, uma ação que privilegia as especificidades locais e o que de desafiador elas apresentam contra a lógica de um sistema capitalista crescentemente injusto e desumano.”

 

Segundo consta de seu site, dentre os seus apoios internacionais se encontram as seguintes organizações: Ajuda da Igreja da Noruega, Conselho Mundial de Igrejas, Church World Service, Christian Aid, Fundação Ford, Igreja Unida do Canadá, Serviço das Igrejas Evangélicas na Alemanha para o Desenvolvimento, Igreja Anglicana do Canadá e União Européia.

 

Observemos que essas igrejas apresentam as suas ações como de solidariedade religiosa, tendo em nosso país uma atividade política. Imaginem se o inverso fosse verdadeiro! Uma ONG brasileira apoiando invasões e desapropriações de propriedades das Marinhas inglesa, alemã, norueguesa e canadense! Seria tal ação permitida? O que diria o Estado desses diferentes países? As suas respectivas opiniões públicas admitiriam tal interferência? Aqui, no entanto, tudo parece ser permitido, sobretudo a elas e aos “movimentos sociais”. A presença da União Européia, por sua vez, é absolutamente escandalosa, pois uma federação de países atua num outro país, intervindo em ações que atentam contra propriedades das Forças Armadas e contra o direito de propriedade em geral. Imaginem também a seguinte situação: uma ONG financiada pelo Estado brasileiro interferindo no sistema de funcionamento das diferentes Marinhas européias! Como reagiriam as Forças Armadas desses países e suas respectivas diplomacias?

 

Confrontamo-nos, portanto, com uma situação completamente inusitada, em que igrejas internacionais, fundações e países financiam organizações políticas que têm como objetivo relativizar a propriedade privada, com um propósito claramente anticapitalista, como se o capitalismo não fosse o regime imperante nesses mesmos países que financiam essas organizações. Abundância de recursos é a sua marca. As publicações, como Existimos, são de luxo, muito bem diagramadas. Incentivos são, assim, dados a invasões rurais e urbanas, numa articulação que envolve os autodenominados movimentos sociais, o Incra, o Ministério das Cidades e a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).

 

Uma causa justa, a da regularização fundiária dos quilombos existentes, segundo consta da Constituição de 1988, está-se tornando uma questão propriamente política, graças a um decreto presidencial de 2003 que estabelece o arbítrio da autoclassificação da cor e da auto-atribuição de terras e propriedades como critérios de desapropriação e expropriação. Unem-se igrejas internacionais, fundações, federação de países, movimentos sociais e órgãos do próprio Estado brasileiro para destruir o Estado de Direito.

 

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia

na UFRGS. E-mail: denisrosenfield@terra.com.br 

 

 

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